sábado, 29 de agosto de 2015

MAR SERENO - 08 -

- BANCAS DE PRAIA -
- 08 -
EMBAIXADOR

Na verdade, aquele homem que ali na praia estava era, na verdade, um Embaixador. Embaixador do Brasil. Vossa Excelência o Embaixador. Ele era natural de Natal e vivia em viagens pelo mundo afora. Conhecedor de Países de Europa, África, Ásia e as Américas do Norte, Centro e sul. Era um perfeito Diplomata. Às vezes, passeava por Natal revendo a família – mãe, pai e irmãos – pois àquela altura não era casado, tendo sua mulher falecido em um acidente de carro no caminho entre a França e os Alpes. O Embaixador ficou triste e não mais casou. Quando estava em Natal, visitava a praia pela manhã e no restante do dia passava a vista nos jornais estrangeiros e nacionais ou revia as fotos de quando criança. O Diplomata era um homem alto e robusto tendo o nome de Ênio Rebelo Monroe. Nem por isso o Embaixador se gabava. Nunca buscou carro especial e, às vezes, visitava amigos na cidade. Quando o Embaixador estava confabulando com Isis era por pura distração.
Embaixador
--- A senhora compra tudo feito? –
Isis
--- Não. Eu faço mesmo. Tapioca, beiju, bolos, almondegas. Apenas o coco eu mando retirar do cercado. – Sorriu.
Embaixador
--- E a senhora aprendeu aonde? –
Isis
--- Minha mãe. -  pendeu a cabeça a sorrir.
Embaixador
--- Ah sim. Eu sei. E a senhora quer se fixar nesse trabalho? –
Isis
--- Eu penso. Mas vai depender de muita coisa. Por enquanto eu vou ficando nesse serviço. –
Embaixador
--- Quais “muita coisa”? – Perguntou
Isis
--- Em princípio vai depender de recursos. Dinheiro, quero dizer. Depois, o tempo. A chuva. Se chove, o negócio pega. Eu, hoje, alugo essa banca. Porém: por quanto tempo? Eu mesmo não sei. Um, dois ou três meses. É isso. –
Embaixador
--- Esse é um dos problemas. Mas, a senhora não outros meios? –
Isis
--- No momento, não. Tem muita gente aqui. Cada um que faz o seu. É difícil, meu senhor. –
Embaixador
--- Mas a senhora pode dar um jeito. –
Isis
--- Qual? – Indagou preocupada
Embaixador.
--- Aluga uma quitanda ou coisa assim. –
Isis
--- Pode ser. Mas vai depender do local. E daí, da moradia e mais, do custo. Verba. Entende? –
Embaixador.
--- A senhora só aprendeu isso? – e apontou para os alimentos.
Isis
--- Nada. Tem muita coisa. A questão é o aperto. Eu faço uma coisa e deixo outra. É assim. –
Embaixador
--- Por que a senhora não põe uma ajudante? –
Isis
--- Com que dinheiro? – Sorriu depressa e logo emudeceu.
O Embaixador ficou alheio e se pôs a indagar a si mesmo. “A moça tem razão”. E balançou a cabeça para um lado e para outro.
Embaixador
--- A senhora tem razão. A propósito. A senhora mora aqui próximo? –
Isis
--- Sim. Mas eu não pago aluguel, por enquanto. Vai depender de outras coisas. –
Embaixador.
--- De que, por exemplo? –
Isis
--- (sorriu para o Embaixador e, então perguntou) – O senhor já comeu carne? –
O Embaixador ficou inquieto com a questão e nada respondeu de imediato. Apenas observou a moça para ter a certeza de ter ouvido. E então, respondeu.
Embaixador
--- Carne? Claro que sim. Por que? –
Isis
--- Eu não comi. Nem ontem e nem antes de ontem. E não comi peixe também. Entendeu bem, senhor? –
O Embaixador ficou sereno sem saber o que falar. Essa pessoa não comeu carne, nem peixe. Talvez não pudesse comer por muito tempo. Quem sabe, ostras, caranguejo ou siris. O que a moça comia, na verdade, ele não sabia atinar. E questionou.
Embaixador
Por que, minha senhora? – Falou com bastante calma
As lágrimas lhes trouxeram amargura naquele momento ao explicar ao Embaixador o que ela podia comer.
Isis
--- Por não ter meios. Se eu disser ao senhor que ontem só comi brote, o que achas? –
O Embaixador caiu na verdade da vida. A moça não tinha mesmo recursos para se alimentar. Ela não tinha verba alguma para se alimentar de qualquer comida. E quantos tinham na rua, na mesma situação a moça, ele não sabia contar. E, então, o homem chorou. Chorou demais. E indagou.
Embaixador
--- Quer morar em minha casa? Vai tem comida, roupa e, principalmente, dinheiro. – Alertou
Isis
--- Em troca de que? – Indagou com calma.
O Embaixador se inquietou por não saber explicar. Ele podia estar convidando para a moça ser empregada da casa ou simplesmente para nada. E aquietou-se
Embaixador
--- Talvez, a senhora possa fazer algo que a minha mãe não saiba. Não sei bem. Porem algo. Alguma coisa. Simples, talvez. – Falou sem entusiasmo.
Isis.
--- Eu vou ser empregada do senhor? – Quis saber com um olhar desconfiado
O Embaixador ficou embaralhado ao responder. Mesmo assim, informou.
Embaixador
--- Claro. A senhora será a governanta da nossa casa.  É isso que ofereço, de momento! – Afirmou
A moça olhou bem nos olhos do Embaixador para poder perguntar
Isis
--- Quanto paga? – Fez questão de dizer



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

MAR SERENO - 07 -

- BAR DA NOITE -

- 07 -
TEMPO -
Em um segundo de tempo, Isis chegou ao balcão do bar. Naquele ponto, chorando até, ela escutou Nizete a ditar ser aquilo passageiro e não se incomodasse com o homem porque, um dia, ele já estaria longe e procurando outro alguém.
Nizete
--- Isso é coisa de bar. O principal é Jorge. Ele é quem quer! – Falou sem temor.
Isis
--- E por isso eu vou embora daqui. – Lembrou com orgulho ofendido.
Nizete
--- Para onde? Nos outros cabarés é a mesma coisa. – Advertiu
Isis
--- Mas, eu não vim para aqui pensando em ser cabaré. Eu julgava ser um recinto descente. –
Nizete
---- Descente? Você pensa assim? – Perguntou sorrindo
Isis
--- E deve ser. – confirmou
Nizete
--- Querida. Se você está pensando assim, está muito enganada. –
Isis
--- E o pior é que não tenho mais nem para onde ir. – Chorando
Nizete
--- Como assim? Você não em tia?  -
Isis
--- Briguei. Minhas tralhas estão no quarto, lá fora, -
Nizete
--- Assim é demais. Vamos para minha casa. Lá resolvemos. Faz café, cuscuz, mungunzá, tapioca. Essas coisas e vende na praia. –
Isis
--- E o dinheiro? – Indagou com suspeita.
Nizete
--- Deixa que eu resolvo. Vamos. Vandilo chega à noite. –
Isis
--- Agora? – Indagou de surpresa.
Nizete
--- Tem outro caminho? Eu vou apanhar sua roupa. –
E as duas mulheres saíram de vez conversando com os casos eventuais. Isis, nem pensava mais em voltar. Cogitava apenas como fazer esse café. Para quem não tinha um tostão, era demais até. Tomar dinheiro emprestado, era um meio.
Isis
--- Só se tomar dinheiro emprestado. –
Nizete
--- Não se importe com isso. Eu arrumo um meio. Empréstimo ou coisa assim. –
Isis
--- “Em” o que? –
Nizete
--- Dinheiro emprestado. Sabe? –
Isis
--- Mas como? –
Nizete.
--- Deixa comigo. –
Em casa, as duas jovens mulheres contavam como fazer as compras. Buscava-se dinheiro na Caixa e depois, era só fabricar o que se sabia fazer. Como pagar, isso era para depois.
E a moça começou a venda do café com tapioca, bolo, empada, sucos naturais, água de coco, água mineral, sanduiches e saladas de frutas. O caso estava feito. Uma semana. E tudo bem.
Certo dia, um homem passeava pela praia, de manhã, logo cedo e resolveu tomar um suco de frutas. Ele olhou bem a moça e lhe indagou.
Embaixador
--- Quem faz tudo isso? –
Isis
--- Eu mesma. Tenho ajuda de uma amiga. – Respondeu
Embaixador
--- Bom. Muito bom. Você? Seu marido também?  -
Isis
--- Não sou casada. Viúva.  Fazem meses. Eu vivo emprestado com essa amiga. –
Embaixador
--- Uma amiga? E ela não tem amigos? - 
Isis
--- Não. Tem esposo. Ele trabalha. Eu sou apenas conhecida da casa. –
Embaixador
--- Ah. Sei. Tem namorado? –
Isis
--- Não. Não tenho. Vivo para vender esses negócios. –
Embaixador
--- É o que faz?
Isis
--- Sim. É o que faço. –
Embaixador
--- Ganha bem? –
Isis
--- Não. Ganho para dar o que fazer no dia seguinte. –
Embaixador
--- A senhora tem estudos? –
Isis
--- Apenas o quinto grau. –
Embaixador
--- E não pensa em continuar? –
Isis
--- Se tivesse tempo. –
Embaixador
--- Mas a senhora é jovem. Tem tudo o que precisa. Vender na praia? – Indagou preocupado
Isis
--- Tem outras. – e apontou ao redor. 




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

MAR SERENO - 06 -

- QUITANDA -

- 06 -
CONVERSAS -

O Bar estava lotado de gente. A maioria, mecânicos. As conversas eram amplas. Alguns falavam dos automóveis em conserto. Outros argumentavam em futebol. Tinha que dissesse sobre o Beco da Lama. E, por certo, ninguém se entedia, ao menos. As três mulheres levavam e traziam os pratos do almoço ou de quitutes. Caranguejo era o preferido naquela hora. Caranguejo Uçá com cerveja e cachaça. As conversas zuniam feito as moscas. Manoel do Cigarro chegou bem a tempo. O grandalhão de cor branca entrou e buscou falar com a dona do bar. Alice foi logo atender e leva-lo para o reservado
Manoel
--- Cerveja e um pratinho de picado. Tem novidades? – Indagou sorrindo com seu jeito de sorrir
Alice
--- Tem já. Espere! – Falou baixinho.
E para atender Manoel do Cigarro, Alice mandou a novata Isis. A moça de nada sabia. Apenas seguia as instruções dadas pela dona do quiosque. E começou, então, a função.
Manoel
--- Você é a novata? Sente, por favor! – e gargalhou sem se importar com quem estava por perto
Nesse momento, chegou-se a ele o próprio dono, Jorge Motorista. E indagou sobre os negócios feitos na sua viagem cumprida ao interior do Estado.  Manoel argumentou ter estado em Nova Cruz e outros municípios por perto. E pediu uma cerveja a novata. Isis buscou a bebida e destampou a garrafa fazendo um “bloc” como era costume fazer a tampa. O homem pediu para ela se sentar. Ela obedeceu. Jorge sorriu e saiu do local
Jorge
--- Vou até alí. Sábado tem carne de carneiro. – Sorriu e partiu.
Manoel
--- Você é daqui? -= indagou sem querer ao menos saber.
Isis
--- Interior. Eu estou aqui, agora.- falou com a cara muda.
Manoel
--- Vamos! Chegue! Se sente. –
E a moça se sentou longe do homem, do outro lado da mesa. Manoel não gostou e pediu para ela vir mas para perto dele. A moça recusou. Viu logo a intenção do gigante. O homem sorriu e a mandou tomar um trago da cerveja. E gritou para Alice.
Manoel
--- Vem cá mulher? – Bradou alto.
De imediato, Alice chegou a trazer nova cerveja. Ele não quis beber, pois a garrafa ainda estava cheia ou quase cheia. Apenas queria saber a respeito da moça.
Alice
--- Ela é de fora. Chegou ontem. É sua. – Sorriu e saiu.
Manoel encheu o peito por saber ser a novata apenas dele. E buscou conversa.
Manoel
--- De onde é? –
Isis
--- Santo Antônio. – Disse a moça acuada por demais
Manoel
--- Dos Barreiros? –
Isis
--- Não. Do Bofete. P’ra lá de Santa Cruz. – Comentou seria
Manoel
--- Devo conhecer. Aquilo tudo eu conheço. Venha p’ra cá. Assim, atrapalha. – Lembrou com satisfação
Isis
--- Estou bem. – E cruzou os braços
Manoel
--- Alice! Venha cá! – Berrou o homem.
Em seguida Alice veio correndo enxugando as mãos com uma flanela
Alice
--- Pronto. O que foi? – Indagou com olhar atento
Manoel
--- Vê se ensina! – Falou grosso
Alice
--- Mas já ensinei. Venha! Se achegue para perto da mesa! – Alertou a mulher a Isis
Isis
--- Estou “incomodada”, hoje, O que o moço quer eu não posso. – Destacou
Alice
--- Ora, mas que besteira. Ele não quer nada. Só você se acercar. –
Isis, então se acercou da banca e largou mão no rosto esperando a vez de ir embora daí.
Alice saiu e mandou Dolores vir cuidar da moça. Esse indagou.
Dolores
--- Fazer o que? –
Alice
--- Nada. Apenas se acercar do homem. Ele é melhor que qualquer um –
Dolores
--- Tô indo. – e saiu correndo
E Dolores chegou ao reservado e pediu para a moça de acercar um pouco mais, pois Dolores queria se sentar alí perto do homem. Isis obedeceu e se afastou um pouco da mesa para dar lugar a Dolores. A moça ficou acuada sem sorrir Alice chegou e indagou.
Alice
--- Tá bom assim? – Perguntou com cautela.
Manoel
--- Tá nada. Eu vou sair. – Falou alto
Alice
--- Espere. Espere. Se acerque. Tudo vai se dar bem. Menina, tenha modos!!! – Gritou brava.
Isis
--- Eu já disse que estou “incomodada”. Hoje, não! –
Alice
--- Bosta! Logo agora! – Reclamou com severidade
Dolores
--- O senhor tem duas mulheres. Não se vá agora. – Falou manso a outra moça.
Manoel
--- Eu nunca fui tao abusado. Eu vou ficar com você. Dispenso essa égua! -  gritou com asco
Alice
--- Pronto. Tudo se ajeita. Você vá lá p’ra fora atender o bar. – Falou forte com Isis
A moça se levantou e saiu com pressa para atender ao bar. No meio do caminho se topou com Nizete. Essa indagou
Nizete
--- Alguma coisa? – Indagou
Isis
--- Esse bruto. Vou embora. – Respondeu chorando 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

MAR SERENO - 05 -

- CANTO DO MANGUE -
- 05 -
CASA -

Às 09.00 horas da manhã, Nizete já despedira de Isis e disse a Alice ter que ir ao médico e na volta, era possível ficar por algum tempo no Bar para dar ajuda nos despachos. Isis sorriu e ficou feliz em encontrar a moça pela primeira vez e fazer uma amizade talvez fosse longa. Naquele instante, outra moça chegou apressada, chorando por demais, acompanhada de um repórter de rádio. A moça não parava de chorar e o Repórter Pepe pediu ajuda de Alice, pois a moça estava magoada por espancamento. Seu nome era Dolores e tinha feito uma altercação com seu namorado e, daí, surgiu a bofetada na face. Com isso, a moça fugiu e saiu na carreira a chorar. Dolores entrou no bar toda magoada com ronchas por todo o corpo. Alice viu os braços da moça e lamentou.
Alice
--- Coitada! É isso! Vá se meter com essa peste de gente! –
E mandou Isis fazer um trato em Dolores e se banhar de todas as pancadas sofridas. Entre umas e outras, o rapaz da camioneta veio deixas as encomendas d salgados – empadas e coxinhas – para a saída do Bar. Alice tomou de tudo e pagou o que devia do dia passado.
Entregador.
--- Amanhã tem novidades. – Sorriu o rapaz e e entrou correndo do automóvel
Alice
--- Só quero ver. – falou sem graça 
De volta do banheiro, Dolores estava mais calma. E então, Isis informou a sua amiga Alice.
Isis
--- Eu tenho que ir em casa. A minha tia deve estar louca da vida. Eu não fui, ontem. –
Alice
--- É bom mesmo. Mas, volte a tempo de servir o almoço. –
Isis
--- Ah, Volto. Não demoro muito. É bem ali, a casa na rua da Cerca. Sabe? –
Alice
--- Ave Maria! Logo ali? Só dá marginais! – Dialogou quase que a tomada de susto
A moça sorriu e fez a volta saindo do bar e seguindo apressada para a casa de sua tia. No seu afastamento não viu chegar o entregador de peixes com uma enfieira de lagosta.
Pescador
--- Vai querer. Novas em folha. – Sorriu a levantar as lagostas
Alice
--- Quanto? – Ela olhou as lagostas.
Pescador.
--- Faço por vinte. – Sorriu o pescador.
Alice
--- Tá louco. Eu pago dez. – Disse a mulher querendo regatear.
Pescador
--- Não dá sá dona. Dez? Faço por quinze. –
Alice
--- Essa merda tem mais de uma semana. –
Pescador
--- Que é isso, minha senhora? Eu pesquei, ontem. –
Dolores
--- Essa mesma história eu ouvi contar há dois dias. –
Pescador.
--- Com essa, não. Deve ter sido com outro pescador. – Falou quase bruto
Alice
--- Vou ficar. Ponha na prancha, Dolores. – Disse com o nariz a cheirar as lagostas.
Dolores
--- Depois de cozida, ninguém põe o cheiro- - respondeu a moça de levou tabefe.
Alice sorriu e pagou ao pescador. No fim das contas, as lagostas eram novas, pegadas do mar naquela hora ou no dia anterior, no mais tardar.
As 11.00 horas da manhã, o apito da Rede ecoou e todos os operários saíram de vez para pegar o seu almoço. No bar, era então formada a confusão. Cada um querendo ser atendido primeiro. Isis chega em cima da hora amarrada com a sua nova amiga, Nizete. E perguntou
Isis
--- O que o médico disse? – Sorriu
Nizete
--- Só queria ver a “chereca”. – Respondeu sem sorrir
Isis
--- Igual os de minha terra. – Falou sem emoção
Nizete
--- Tu moras aonde? –
Isis
--- Santo Antônio do Bofete. – Respondeu
Com isso, Nizete quase cai na gargalhada e nem poder responder. A outra moça se espantou a indagar com a pilheria
Isis
--- Que foi onde errei? –
Nizete
--- (sempre a sorrir, dizendo) – Bofete. – Gargalhou – Tem briga lá? – E gargalhou
Isis
--- Ora se tem. Matam um e deixam dois para o dia seguinte. Mataram o meu homem por uma besteira. – Alegou
Nizete
--- Mas, por um bofete, apenas? – Gargalhou
Isis
--- Não brinque, pois é sério! Eu fugi de lá com medo do terror. – Relatou espantada
Nizete
--- Imagino. Quando eu for por lá, levo um cartaz: Paz e Amor! Só assim tenho certeza de não ser agredida. Bofete! – Gargalhou.
Isis
--- Vá, Vá. – Pois sim. – Falou com temor.
Nizete
--- Deixa p’ra lá. Estou brincando. – Sorriu
Isis
--- Puta é só o que tem. – Alertou
Nizete
--- Imagino. –
Isis
--- Uma trepada vale até um coco. –
Com essa, Nizete não se conteve. Gargalhou à beça.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

MAR SERENO - 04 -

- PRAIA DESERTA -
- 04 -
SEGUINTE -
No dia seguinte, às 05.00 horas da manhã, o dia ainda estava por despertar. Havia nuvens no céu e barcos de pesca no mar. Pessoas começavam a trotear fazendo cooper na calçada da praia e quem levava as suas bancas para pôr em ordem à margem da maré. Alice já estava a preparar o café da manhã e o homem do leite chegava de imediato para despachar o seu quinhão. Aos poucos chegavam os pães trazidos em uma Kombi. E assim, o dia avançava aos poucos. De dentro da casa, surgiu a figura de Isis, ainda sonolenta a indagar:
Isis
--- Que horas? –
Alice
--- Passa das 5 – resmungou
Isis
--- Virgem como é cedo. – Reprovou
Alice
--- Aqui não tem horas. Veja. Ligue o rádio. – Torceu a cabeça em volta
Isis
--- Ah. Tá bom. Eu vou me assear. Espere que eu volto logo. –
Isis não percebeu a falta do carro de Jorge em um instante. Após alguns momentos foi o que notou. E, depressa, correu para o banheiro onde se pôs a assear. Na panca do bar, chegavam os primeiros “biriteiros” com suas caras cheias de grude. E nada falavam. Apenas pediam.
Biriteiros
--- Pinga! – Relatavam.
Alice
--- Pois sim. Uma hora dessas? – Reclamava a mulher
Daí a pouco chagavam as 6 e 7 horas onde o movimento já era grande com os meninos buscando os pães, mulheres a apanhar açúcar, café pronto, bolacha e arroz doce. Era um movimento inquieto na manhã daquele dia. A essa altura, Isis já estava a operar vendendo e tomando o dinheiro dos menos afoitos. Quase não tinha tempo de descansar dado a enervante correria da freguesia. Quando a buzina zoou forte nas oficinas da Rede Ferroviária, Isis quase caiu de susto.
Isis
--- Que é isso? – Indagou assustada
Alice
--- A Rede. Sete horas. – Explicou desatenta.
Isis
--- Rede? – Perguntou meio aluada.
Alice
--- Sim. O trem.  É hora do trabalho. – Aclarou.
E assim caminhou o tempo com os mecânicos chegando às oficinas, motoristas saído em seus ônibus, carros a passar em debandada, os garotos do sorvete passando com seus carros para buscar as suas mercadorias, os homens a oferecer tapiocas aos passantes, o rapaz do cuscuz a oferecer seus suprimentos batendo com uma placa no pau da armação e tudo que se imaginava levar. O vendedor de pescado a aparecer e desaparecer repentinamente com as suas pescas. Era uma eterna multidão. Gente indo e voltando. Alguém a tomar banho de sol nas bancas armadas. Um rapaz a passear a beira-mar. Atleta a exercitar a musculatura. Casal a levar o filho para o banho a praia seca. Era gente a chegar vindo de carros ou a pé. De longe, Isis observava o movimento do pessoal. E nada comentava. Apenas dizia a um freguês.
Isis
--- Quer caldo de peixe? – Perguntava sem meios
Freguês
--- Mas tarde. Tem beiju? –
E a moça partia para buscar o beiju ou pão com queijo entre o lixo as vezes colhido pelos catadores e fossas saturadas ligadas as redes pluviais entre coqueiros e remansos sem sindicatos para acudir os desacertos.
Às 08.00 horas chegava o carro de praça de Jorge com uma carga de frutas, carnes, manteiga, e até um carneiro trazido para esfolar a qualquer dia ou tempo. Ele despelou a carga no chão do balcão.
Jorge
--- Faltou linguiça. – Disse o homem
Alice
--- Não tinha?
Jorge
--- Tinha. Foi esquecimento meu. – Fez cara feia.
Alice
--- E o picado? –
Jorge
--- Esse está aí. -  
Alice
--- De carneiro? –
Jorge
--- De bode. Não se faz picado de carneiro. Bode ou boi. –
Alice
--- Não se faz suas ventas. – Dialogou com raiva.
Jorge sorriu e mandou Isis colocar tudo para dentro, no quarto de trás. Enquanto a serviçal saía, eis que chegava outra. Nizete, coisa muito rara. Vinha um dia e dez não. Depois do namoro com Vandilo ficou assim.
Nizete
--- Boa; - e sorriu
Alice
--- Boa, desaparecida. – Sorriu
Nizete
--- Onde está o povo? – Indagou se referendo a Isis
Alice
--- Lá dentro. – Sorriu e apontou para Isis já vindo a chegar
Nizete
--- Eu soube. – Sorriu
Alice
--- E Vandilo? – Perguntou
Alice
--- Oficina. – Declarou apontando para a Chevrolet
Nizete
--- Olá. Como vai? – Perguntou a Isis sempre sorrindo
Isis
--- Olá. Vou bem. Trabalha? – Indagou se referindo ao bar já temerosa de perder o emprego
Nizete
--- Não. Hoje, eu vou ao médico. –
Isis
--- Doente? –
Nizete
--- Nada de mais, eu creio. – Sem explicação


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

MAR SERENO -03 -

- PRAIA -

- 03 -
TEMPO -

Ao saber da idade da moça, o homem Jorge ficou tranquilo e não mais perguntou. Em instantes, Isis vinha até Alice indagar o preço de tal mercadoria, pois era a primeira vez a atender. Alice orientava e contava aquilo que a moça vendia colocando o dinheiro no bolso do avental.  O tempo foi seguindo e Isis se aquilatando no fazer, parecia até alguém já há muito a servir em botecos. Se um freguês chagava apressado, ela acolhia de qualquer maneira. E assim seguia o dia. Um garoto procurando confeitos ou uma mulher indagando por algo sempre em falta. Desta forma seguia a faina. Raras vezes Isis tinha para o seu descanso. Ela, sempre atenta, vigiava tudo e a todos. Quando Jorge saiu, ela perguntou a Alice.
Isis
--- P’ra onde ele vai? -  
Alice
--- Praça. Vai fazer a praça. O carro é dele, mas as placas são de aluguel. –
Isis
--- Imagino. No interior também tem gente fazendo praça. –
Alice
--- É dura, a vida. Tem dia que ele não vem almoçar. Coisa chata. – Fez cara feia.
Isis
--- A senhora se acostumou com essa vida? –
Alice
--- Você. Pode me chamar de “você”.  E tem jeito? – Perguntou como se respondesse.
Isis
--- Na roça, tem dia que a gente nem come. Um sol de rachar. Tem vez que o dono da terra manda o povo colher algodão. Coisa triste. – Reclamou.
Alice
--- Eu tenho marcas no corpo por colher algodão. É ruim mesmo. -  
Isis
--- Aquilo vem para a Capital? – Indagou pensando.
Alice
--- Parece. Não sei bem. Tem navios que embarcam os fardos. –
Isis
--- Aqui é bom de se viver. O mar. Tem gente todo dia que vem para a praia. Gente correndo. É uma vida alegre. Meninos. – Sorriu.
Alice
--- Nos domingos eu e Jorge vamos a praia. De tarde. Quando o sol perde a força. – Comentou.
Isis
--- Faz bastante calor uma hora dessas. Imagino. –
Alice
--- Também, o movimento cai ao fim da tarde. Tem muito, no sábado logo cedo. Às vezes, até cinco horas. Jorge, tem vez, de não poder nem ao menos despachar na bodega. Ele aproveita os melhores horários. –
Isis
--- Quem vem tanto? –
Alice
--- Mecânicos, homens de boa aparecia. Esses, ficam num reservado. Os pinguços ficam aqui mesmo. –
Isis sorriu com a expressão da mulher.
Isis
--- Essa é boa. Pinguços! Quer dizer: bêbados. – Sorriu ainda mais.
Alice
--- Sim. Mas vadios. Gente que não tem nada. Vice só de cachaça. Pinguço mesmo. –
Isis
--- Quem são os homens de boa aparecia? Gente rica? –
Alice
--- Mais ou menos. Você verá. –
Isis
--- Eu? – Suspirou por ver que já estava com um emprego certo
Alice
--- Sim. Você. Vai depender de você mesma. Tem dias que a gente ganha bem. Outros dias não se ganha nada. Ou quase nada. - 
Com isso, a moça ficou desnorteada. Ganha-se muito o não se ganha nada. Mesmo assim, aquele era um emprego bem melhor do que não fazer coisa alguma. As cocadas ficavam para depois.
À hora do almoço, de 11 horas em diante, o movimento no bar, crescia bastante. Gente tomando cachaça. Outros, apenas cerveja com um tira-gosto ou pratinho. E a moça tomou o seu destino a lavar pratos, preparar os conteúdos para os mecânicos mais ousados. Esses, passavam a mão nas nádegas de Isis. Ela desconfiou e largou a tapa na cara do afoito.
Alice
--- Deixa p’ra lá. É assim mesmo. Pior eu já passei. – Comentou.
Isis
--- Mas eu não gosto. –
Alice
--- Tenha calma. Com o tempo se ajeita. – Sorriu.
E o tempo rodou até a 1 hora da tarde, quando o movimento esfriou. Na parte da tarde, apenas umas moças chegavam ao bar para buscar café e petiscos para fazer a alegria da galera
Consumidor
--- Tem filé? – Indagava um atrasado.
Alice
--- Sumiu tudo, ao meio dia. – respondia a mulher
Outros se contentavam com ovos, farinha de rosca e queijo. Era a vida. E se perguntava alguém se havia carne malpassada, a resposta vinha de certo que para depois. Alguns se contentava com bolinhos de carne ou costela acompanhada de cerveja bem gelada ou coxinha com rabada desfiada e mesmo bolinho recheado com linguiça.
Isis
--- Tem empada. Serve? – Indagava a moça ao consumidor.
Consumidor
--- Ora mais tá. Empada vai bem com cerveja. – Sorria
De um jeito ou de outro, o movimento prosseguia até as 9 ou 10 horas da noite quando as damas tomavam conta do movimento da Ribeira, já um pouco distante do bairro de Brasília Teimosa. Então, era hora de se recolher. Isis comentava.
Isis
--- Acho que não devo ir para casa. –
Alice
--- Pois fique. Tem cama no quarto de trás. –
Isis
--- Mas o povo vai reclamar. –
Alice
--- Que povo? Deixa p’ra lá. Vá se banhar no quarto de trás.   




domingo, 23 de agosto de 2015

MAR SERENO - 02 -

- BAR -
- 02 -
COMPRAS -

Carioca estava sempre atento a conversa das duas mulheres mesmo sem nada saber. Logo, chegou Vandilo, outro mecânico vindo sorrindo. Corpo baixo, com indefinida. Talvez branca. E ainda guardava a sequela de um choque da rede elétrica tomada há algum tempo. Foi logo a dialogar sobre casos comuns de ambos.
Vandilo
--- Aquele fusca! – e parou.
Carioca
--- Deixa comigo. Eu acerto. –
Vandilo
--- Não é só isso. O carburador sempre falhando. – Disse isso angustiado
Carioca
--- Pois é. “Cara”. O negócio é mandar moer. Deixa comigo. Fica tranquilo. – Sorriu.
Vandilo enxugou o suor da face como quem está arrependido. E Carioca indagou apontando a moça dentro do bar.
Carioca
--- Conhece? – e apontou a moça.
Vandilo
--- Nem quero saber. Basta Nizete. – Soletrou.
Carioca
--- Tu só lembras dela. – Sorriu
Vandilo
--- E dos “chifres”. – Falou carrancudo.
Isso fez Carioca gargalhar. E depois dizer.
Carioca
--- Que é isso “cara”. A moça é direita. – Falou sorrindo
Vandilo
--- P’rás bandas. – Recusou o outro.
Carioca
--- Sabe? Tô afim dessa dona! – E apontou para Isis.
Vandilo
--- Vai lá e pronto. – Respondeu
Carioca
--- Deixa comigo. – Sorriu
Alice, então tomou as dores da moça e logo deduziu ser ela a quem Carioca falava. E respondeu.
Alice
--- Ela é moça. Nem vem. – Falou embrutecida.
Carioca
--- Tá bem, senhora. Não está mais aqui quem falou. – Sorriu e partiu para a oficina.
Alice
--- Fresco! – E cuspiu em direção do homem.
Isis
--- Deixa. Eu me viro. –
Nesse instante chegava ao balcão José Rodrigues, outro mecânico. Ele vinha sorrindo por nada. Meio corcunda, pelo jeito de andar, enxugava as mãos com uma estopa. Vendo a desavença, ele ainda olhou para Carioca e encostou no bar. Logo, pediu.
Rodrigues
--- Café, madame. – Foi o que falou a sorrir sem motivo.
Vandilo
--- O jogo? – Indagou
Rodrigues
--- Só um. – Respondeu.
Vandilo
--- América? –
Rodrigues
--- Que América. ABC mesmo. – Sorriu torcendo a cabeça
Nesse ponto, chegou um carro. Era Jorge Motorista, dono do bar. Ele estacionou o veículo e foi à mala retirar as compras. José Rodrigues se aproximou e foi logo dizendo
Rodrigues
--- Deixa que te ajudo. – Arremessou a tampa para cima.
Jorge
--- Obrigado. A carga está pesada. – e fez cara feia a retirar bananas entre outras mercadorias.
Rodrigues:
--- E o tatu? – Sorriu pondo seus dentes para fora.
Jorge.
--- Tem dois.  Arraste. – Respondeu
E assim, os tatus foram levados para dentro do barraco. O local tinha um reservado escondido onde era servida as bebidas mais finas aos fregueses de “primeira” sempre aos sábados ou véspera de feriados. Os comuns, eram despachados no próprio balcão. Os “biriteiros”, esses bebiam na rua e em qualquer lugar. A moça Isis olhava tudo com bastante atenção até Alice mandar fazer algo, como despachar enquanto a mulher sacudia as mercadorias em um devido canto escondido para os finais do barraco.  E o marido de Alice perguntou quem era a moça. Alice respondeu estar experimentando sem nada a pagar. O homem ainda olhou e nada comentou a respeito. Era mais uma àquela hora cedo do dia.
Alice
--- Deixa que eu me ajeito. Ela foi casada. Ou amigada. Sei lá. – Respondeu murmurando.
Jorge
--- Mais uma. Bom, para os dias de quarta. – Resmungou.   
Alice
--- Ele não veio mais. –
Jorge
--- Mas vem. Está carregando cigarros. Talvez sexta ou sábado. – Resmungou.
Alice
--- O rapaz me disse que ele foi para o interior. -  
Jorge:
--- Ele sempre vai. Não é novidade. –
Alice
--- Tem um sítio. –
Jorge
--- E duas ou três mulheres. Quando ele foge é para encher a cara. –
Alice sorriu e observou para dentro vendo se Isis estava acertando no feito de atender ao balcão
Alice
--- Ela está lá. –
Jorge
--- Idade? – Quis saber