quarta-feira, 16 de setembro de 2015

MAR SERENO - 25 -

- GUERRILHEIROS -
- 25 -
ITÁLIA

No instante em que Maria Isis Fernandes, em sua mesa de trabalho, Moema desenrolava o pacote onde certamente havia filmes antigos do pessoal da guerrilha. Foi nesse momento onde a moça Isis parou de ver o filme projetado na TV e ficou a olhar o pacote, pois queria conhecer de perto aqueles amontoados de velhos filmes. Nada perguntou. Apenas saiu de sua cadeira ao pé da mesa do computador e ficou observado a ação da moça a desembrulhar, certamente, os velhos filmes. Então, Moema olhou para Isis e comentou.
Moema
--- Filmes velhos. Alguns tem pequenas partes. Alguns, apenas os guerrilheiros. Parece que eles estavam ainda nas selvas de Cuba. Não sei bem. Deixa em colocar o projetor. É de 110 volts. Tenho que mudar a chave. Espere. - -
Isis
--- São velhos mesmo? - - indagou
Moema
--- Todos. Alguns até de antes de 1964. - -
Isis
--- Eu vi alguns desses filmes da TV. Quero comparar. - -
Moema
--- Parece que não tem som. Apenas filmes. - - dizia isso com muita destreza localizando o projetor em uma tomada e de modo ligeiro saindo para desligar a luz do apartamento para poder assistir ao filme. Também Isis desligou o computador e voltou para junto da mesa onde estava o projetor.
Nesse momento, entrou na sala vindo de fora do apartamento, o diplomata Ênio Monroe, tropeçando em uma cadeira, dado o escuro que se fazia com a lâmpada desligada e apenas o projetor ainda sem funcionar. O homem deu um grito fraco, porém como se declarava um nome forte e indagou.
Monroe
--- Quem desligou a luz? - - passando a mão na perna por conta da leve dor.
A moça Moema se agitou e disse ter sido a mesma e foi acender a luz. E logo voltou para a mesa onde estava ligado o projetor. Ela decidiu apagar de vez todo o equipamento e deixar o diplomata resolver sua questão.
Moema
--- Pronto. Está tudo clero. Que queres? – -indagou a sua irmã.
Monroe
--- Filmes? - - apontou o homem para o monte de filmes na mesa da sala.
Moema
--- Alguns. Velhos. Do tempo do “roncar”. Então? – - voltou a indagar.
Monroe
--- Que filmes são esses? – - perguntou querendo saber dos detalhes.
Moema
--- Já disse. Filmes velhos. Um monte deles. - -
Monroe
--- Americanos? – - quis saber em detalhes.
Moema
--- Não. Cubanos. Filmes do tempo da Revolução. Desses que passam na TV. – -
Monroe
--- Só quero ver! – - falou com desagrado para as latas de filmes.
Moema
--- Avia. Fala! Que queres? – - perguntou a irmã.
Monroe
--- Nada. Apenas para entrega os documentos de dona Isis. O certificado e o passaporte. Prepare-se. Vamos viajar. - - falou calmo para a moça Isis.
Isis
--- Agora? – - perguntou de supetão.
Monroe
--- Depois de amanhã. Logo cedo do dia. Veja se falta algo. Vestidos, meias, sapatos, perfumes e outras coisas. - -
Moema sorriu quando o irmão declarou “outras coisas” e resolveu ditar.
Moema
--- Calcinhas e pano de “bunda”. - - e sorriu largamente.
Monroe
--- Calada. Ela sabe muito bem. - - falou com a cara trancada.
Isis
--- Vocês também! Eu preciso levar tudo isso? - - indagou sem saber das vestes íntimas.
Monroe
--- Se precisar. Ou não leve.  - - destacou
Moema
--- Leve não. A gente compra nos botecos do caminho. - - relatou a gargalhar
Isis
--- Que botecos? - - indagou assustada.
Monroe
--- Vá na conversa dela. Arrume-se. Eu vou para o meu quarto. - - decidiu o homem entregando a Isis os documentos
E o diplomata olhou para a cadeira que estava no meio do caminho passando a mão na perna por sua vez alertando para o móvel com muita careta. Em seu instante, Moema indagou a Isis.
Moema
--- Você ainda vai às lojas, amanhã? - -
Isis
--- Nem sei o que fazer! Logo amanhã? - - dirigiu a voz a sua amiga.
Moema
--- É assim. Vá se acostumando. Um dia está aqui. No outro está voando. - -
Isis
--- Ele vai para a Itália? – - perguntou chateada.
Moema
--- É o emprego dele. Um dia está aqui. No outro, viajando. - -
Isis
--- E eu vou só? - - indagou preocupada.
Moema
--- Eu vou também. Prepare-se. - - complementou
Isis
--- Ainda bem. Não sei falar “grego”! - - respondeu emburrada
Moema
--- Italiano! Vá se acostumando. É bom aprender outros idiomas. Francês, Inglês, Alemão e até italiano. - -  
Isis
--- Eu? Por que tudo isso? - - indagou alarmada.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

MAR SERENO - 24 -

- GUERRILHEIRA -
- 24 -
LUTA ARMADA -

Em 1959, quando Fidel Castro anunciou ao mundo sua revolução comunista, passou a ser apoiado por Moscou (União Soviética). Com isso, o País socialista iniciou uma campanha para dominar a ideologia marxista na América Latina onde os partidos comunistas formariam grupos de guerrilhas armadas com dinheiro soviético repassado à Cuba. No Brasil foram criadas 29 organizações guerrilheiras onde Fidel Castro vislumbrou expandir a revolução comunista. Em 1961, o Presidente do Brasil, Jânio Quadros, condecorou o guerrilheiro cubano, Che Guevara, com a Ordem do Cruzeiro do Sul sem imaginar que quatro meses antes o Partido Comunista Brasileiro (PCB) acertara com Fidel Castro o envio de jovens brasileiros para treinamento de guerrilha em Cuba com a finalidade de preparar vários revolucionários que desencadeariam a luta armada no Brasil. As Ações Armadas já existiam antes de 1964, no Governo de João Goulart através das Ligas Camponesas, de Francisco Julião, e do Grupo dos Onze, de Leonel Brizola.
Isis
--- Eita! Essa é nova! Quer dizer: antiga, mas nova! – -  salientou com ênfase.
Era a parte não sabida por Maria Isis Fernandes, matuta do interior do Nordeste, chegando a ler as ações das guerrilhas no Brasil deflagradas pela União Soviética e sua aliada, Cuba. O volume era de muitas páginas cabendo tudo na Internet. Mesmo assim, ela prosseguiu. A noite era quente, como todas as noites de Brasília, a capital da República. Ouvia-se ruídos de carros a transitar, na Explanada dos Ministérios, onde a jovem estava, naquele instante, debruçada na mesa do computador a investigar tudo o que era dito, com imagens de cenas de armas de fogo e guerrilheiros nas matas.  E assim, prosseguiu.
Com a chegada ao poder, em 1964, do presidente Castelo Branco, centenas de “comunistas” e políticos de “esquerda” refugiaram-se no Uruguai onde formaria a Frente Popular de Libertação que a partir de 1965 empreenderia atos de sabotagem urbana e focos de guerrilha rural, no Brasil, principalmente da Serra do Caparaó, região localizada entre os Estados do Espírito Santo e Minas Gerais, cujos guerrilheiros, apoiados por Leonel Brizola, foram combatidos e vencidos  por tropas da Polícia Militar, de Minas Gerais.
Isis
--- Bosta! Covardes! A Tropa matou rapazes inocentes que lutava pela liberdade de todos! - - resmungou com verdadeira cólera.
A Guerrilha do Caparaó foi a segunda tentativa insurgência armada contra o Regime Militar brasileiro feita por ex-militares cassados. Inspirado na guerrilha de Sierra Madre, teve lugar na Serra do Caparaó. Promovida pelo Movimento Nacionalista Revolucionário – MNR – organização baseada inicialmente em Montevidéu, a guerrilha contou com o apoio financeiro cubano, obtido através de negociações entre Leonel Brizola, auxiliado pela A.P - Ação Popular - e o governo de Cuba. Alguns membros do grupo – majoritariamente constituído por ex-militares, expulsos das Forças Armadas - também receberam treinamento na Ilha de Cuba. Posteriormente o governo cubano preferiu apoiar Carlos Marighella. O movimento perdeu seu suporte financeiro e os guerrilheiros – que foram salvos – ficaram abandonados no alto da Serra.
Moema entrou, chegando ao apartamento com uns volumes lacrados e aparentava serem rolos de filmes, com certeza, pois tinha um volume redondo de largura e comprimo, de alto a baixo. Parecia ser porque Moema ficou de buscar unas latas de filmes. Em outra mão, tinha também um projetor de cinema de modo pequeno. Então, de vez indagou:
Moema
--- Isso? - - quis saber preocupada e colocando na mesa os seus pacotes.
Isis
--- Filme. Entrei na Internet. Veja. - - e seguiu a leitura na tela.
Na verdade, a tentativa de implantação de uma Guerrilha na serra do Caparaó foi frustrada antes mesmo que o movimento entrasse em ação. Os seus integrantes permaneceram no local por alguns meses realizando treinamentos e o reconhecimento da região e foram presos pela Polícia Militar mineira após serem denunciados pela própria população da serra. Consta que o grupo desassistido pela organização, começara a roubar e abater animais para não morrer de fome, razão pela qual acabou sendo alvo de denúncia à polícia. Descobertos pelos Serviços de Inteligência, o movimento foi rechaçado em abril de 1967 por um Grupo Militar de Minas Gerais. Os guerrilheiros, cerca de vinte homens esgotados e famintos foram presos no próprio sítio node se abrigavam.
Moema
--- Eu tenho filmes das guerrilhas. - - relatou com certeza.
Isis
--- Dessas? – - indagou surpresa.
Moema
--- Não sei bem se foram esses guerrilheiros. Tem vários. Eu consegui um bocado. - - falou sem temor.
Isis
--- Esses guerrilheiros, aparecem antes de serem mortos. Talvez. Mas, eu tenho que seguir assistindo o que houve. – - se voltou para a mesa com a mão no queixo e olhar atento.
Em 1966, a Esquerda brasileira decidida o poder à força e em curto prazo passou a adotar táticas populistas como as que foram usadas pelo grupo guerrilheiro Ação Popular que ao explodir uma bomba no saguão do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife, matou o jornalista Edson Régis de Carvalho e o vice-almirante reformado Nelson Gomes Fernandes deixando ainda 14 feridos. O alvo principal do atentado era o general Arthur da Costa e Silva, então ministro do Exército e candidato à sucessão presidencial. Costa e Silva era esperado no Recife para realização de ato da campanha no prédio da SUDENE, nesse dia.
Isis
--- Coitado de jornalista. - - lamentou.
Moema
--- Era guerra! - - declarou cheia de dúvidas.
A Revolução Cubana passou a servir de modelo para muitos “revolucionários”, como Carlos Marighella que em 1967 viajou a Cuba e participou de um evento sobre a propagação da Luta Armada no território brasileiro. De volta ao Brasil, em setembro de 1967, Marighella criou a Ação Libertadora Nacional (ALN) e começou a recrutar jovens brasileiros, entre os estudantes, que, depois de preparados ideologicamente, foram enviados para Cuba.
Isis
--- Agora a coisa vai! Ou vai ou o muro cai! - - declarou a moça cheia de revolta pelos Militares.
Moema:
--- Calma! Você está apenas no começo! - - defendeu.
Em 1968, com a chegada ao Brasil do primeiro contingente da ALN, de guerrilheiros formados de Cuba, entrou em cena Carlos Lamarca, capitão do Exército e militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que uniu à Marighella e em janeiro de 1969 explodiu 50 quilos de dinamite no QG do II Exército matando, na explosão, o soldado do Exército Mario Kozel Filho e ferindo seis militares. E, ainda, da cidade de São Paulo, os guerrilheiros avançaram com um veículo roubado a abordaram o Capitão Chamado do Exército dos Estados Unidos que se encontrava no interior de um automóvel quando saia de sua residência Charles Chandler foi morto por uma rajada de metralhadora na frente da esposa e do filho de 9 anos. O Comando de Libertação Nacional, criado em Belo Horizonte no ano de 1968 executou, na capital mineira, vários assaltos a Agências Bancárias e atentados a bomba. Os guerrilheiros se reunião durante as sessões de cinema no Cine Éclair localizado a área central de Belo Horizonte para planejarem as ações de terror e guerrilha.
Isis
--- Eita! A situação estava ficando caótica, no país. Você está vendo? – - indagou a sua amiga.
Moema
--- Sim. Em Natal, o caso irrompeu antes mesmo do Governo Jango. - -
Isis
--- Como assim? - -
Moema
--- Era uma baderna geral. Quiseram até queimar livros importantes. Organizaram um Clube de Cinema. Passava-se filmes antigos, como o “Encouraçado Potemkin”, “A Mãe”, “Ivan, o Terrível”. Todos da República Socialista Soviética. - -
Isis
--- E cinema já existia? - - indagou inquieta
Moema
--- Há tempos. Desde 1885. É velho, mesmo. - -



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

MAR SERENO - 23 -

- JOÃO GOULART -

- 23 -

CAMPONESES -

As primeiras Ligas Camponesas surgiram no Brasil, em 1945, logo após a redemocratização do País depois da ditadura do presidente Getúlio Vargas. Camponeses e trabalhadores rurais se organizaram em associações civis, sob a iniciativa e direção do recém legalizado Partido Comunista Brasileiro – PCB. Foram criadas ligas e associações rurais em quase todos os Estados do País. Em 1948, no entanto, com a proscrição do PCB houve o desmoronamento das organizações de trabalhadores no Brasil. Entre 1948 e 1954, eram poucas as organizações camponesas que funcionavam e raríssimas as que ainda conservavam o nome de Liga, como a Liga Camponesa da Iputinga, dirigida por José dos Prazeres, um dos líderes do movimento em Pernambuco e localizada na cidade do Recife. Em janeiro de 1955, com a criação da Sociedade Agrícola de Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, houve o ressurgimento das Ligas Camponesas no Nordeste. A partir do ressurgimento, as Ligas deixaram de ser organizações e passaram a ser um movimento agrário, que contagiou um grande contingente de trabalhadores rurais e também urbanos.
Lendo isso, Maria Isis Fernandes aguçou o seu interesse no assunto. Era isso o que, talvez, faltasse para o seu conhecer. As Ligas Camponesas era um assunto que a moça já ouvira falar de parte de sua mãe, quando ainda era jovem e conversava com amigas sobre a situação de bravura dos camponeses. Foi nesse ponto em que, na noite de outro dia chegou até a sala do apartamento onde ela estava a bem elegante jovem Moema e foi ver o que tanto interessava à moça.
Moema
--- Que é isso? - - indagou aguçando a vista com as mãos para trás.
Isis
--- Uma história de camponeses. Gente do sertão. Veja! - - respondeu se se voltar.
Moema
--- Liga Camponesa? Já vi esse assunto! Vá! Quero ver! - -  
E puxou uma cadeira próxima para poder sentar e acompanhar a leitura a estar sendo feita. A noite era calma, já chegando as 10 horas e ouvia-se na rua a gritaria dos rapazes ao assistir um jogo de futebol. Com certeza, o time havia feito um gol. Alguns carros passavam em desabalada carreira buzinando como loucos. Em um bar no chão do edifício outros gritos de alegria. Moema se levantou para fechar a janela e logo após retornou.
Isis
--- Que foi? - -
Moema
--- Uns loucos a berrar! - - falou brava.
E a leitura continuou. Em agosto de 1955, realizou-se do Recife, o Congresso de Salvação do Nordeste, que teve grande importância para o movimento camponês, uma vez que foi a primeira vez no Brasil que mais de duas mil pessoas das Ligas Camponesas se reuniram para discutir os principais problemas socioeconômicos da região. A Comissão Política da Terra era composta por mais de duzentos delegados, em sua maioria camponeses representantes das Ligas.
Isis
--- Que coisa! – - e bateu os braços na banca.
Moema
--- Adiante! - - sorriu.
Em setembro desse mesmo ano foi realizado, também no Recife, o Primeiro Congresso de Camponeses de Pernambuco que culminou com um grande desfile de camponeses pelas ruas da cidade. A partir daí as Ligas Camponesas expandiram-se para diversos municípios de Pernambuco e de outros Estados do nordeste e sul do Brasil. Paraíba, no município de Sapé foi o núcleo dos mais expressivos e importantes. Rio Grande do Norte, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Acre e também o Distrito Federal, Brasília. O movimento tinha como objetivo básico lutar pela reforma agrária e a posse da terra.
Isis
--- Incrível! Que coisa! - - sorria franco.
Moema
--- Você não viu nada, ainda! - - declarou a moça.
As horas passavam e a galera, em baixo, na rua, emudecia. Parecia que o time estava a perder. Não se ouvia soar de bombos ou buzinar de carros. Apenas o caminhão do lixo recolhia os conteúdos das caçambas postas à sua disposição.
Isis
--- Lixo? - - indagou a jovem tapando o nariz.
Moema
--- É o caminhão. - - disse a outra moça.
No final de 1963 o movimento estava concentrado nos Estados de Pernambuco e Paraíba e seu apogeu como organização de trabalhadores rurais ocorreu no início de 1964, quando foi organizada a Federação das Ligas Camponesas com 80 mil filiados. Estavam concentrados então os Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Acre e Distrito Federal. Com o Golpe Militar de 1964 o movimento foi desarticulado e seus líderes foram presos, incomunicáveis. Mesmo assim o movimento ainda funcionou durante algum tempo com a infiltração em Sindicatos passando a ajudar presos e perseguidos políticos.
Isis
--- É o fim de tudo! - - lamentou chorando.
Moema
--- Mesmo assim, apesar de não ter sido divulgado abertamente, os líderes fizeram filmes enfocando a ação da guerrilha. - -
Isis
--- E onde estão esses filmes? - - indagou alertada.
Moema
--- Não sei bem. Alguns estão guardados e são projetados para as famílias dos mortos. Fizeram filmes de assassinatos de camponeses. A mortandade no interior do País, até mesmo no Rio Grande do Norte foi coisa séria. A Igreja patrocinava a ação dos guerrilheiros e fizeram vários filmes de gente morta penduradas em paus-de-arara. - -
Isis
--- Mas você tem noção de onde puseram esses filmes? - - indagou alarmada
Moema
--- De um, eu tenho. - - confirmou.
Isis
--- Mas diga. Talvez se tenha o caminho aberto para os demais. - -
Moema
--- Eu vou falar com gente do Partido. Ele pode saber melhor. - -
Isis
--- Partido? Que Partido? - -
Moema
--- Comunista. Mas, isso é sigilo. - -
Isis
--- Não conto nada a ninguém. Juro! - - se benzeu a moça cruzando os dedos
Moema
--- Hoje, eu acredito em você. E pode confiar em mim. Vamos dormir. - -
Isis
--- Mas você faz isso mesmo? - - perguntou em suspeita.
Moema
--- Sim. Podemos até fazer um festival dessas fitas. Aguarde. - - sorriu
Isis
--- Estou a esperar por isso. - -
Com essa nota, Isis ficou feliz em poder ver a ação da guerrilha, mesmo em tempos passados. Se fosse possível ainda se faria no momento uma reconstituição dos fatos. Poderia até se comentar como os guerrilheiros fizeram em seus tempos de ação. 

domingo, 13 de setembro de 2015

MAR SERENO - 22 -

- VLADIMIR HERZOG -
- 22 -
A MORTE -

Dias se passaram e Isis continuava estudando pele Internet tudo que podia conhecer. Certa vez lhe caiu as mãos um suicídio. Ela passou vista na leitura e viu as fotos do suicida. Com o passar das horas, Isis deduziu não ser aquilo uma história de suicídio, e sim, um assassinato. O nome da vítima era um tanto estranho: Vladimir Herzog, profissão: jornalista. Então, Isis releu a matéria e nada havia de conhecer aquilo ser um suicídio. Em seu computador de casa, Maria Isis Fernandes queria saber quem foi o autor do assassinato. Mesmo assim, nada havia de verdade. Apenas a matéria relatava a morte sem apontar o autor do crime. As horas passavam e já chegara à meia noite sem Isis saber quem matou o homem. Dizia apenas que Vladimir Herzog morreu no dia 25 de outubro de 1975 nos porões do Quartel General do II Exército de São Paulo e nada mais.  
Quando a sociedade tomou conhecimento do crime, as “esquerdas” reagiram de qualquer forma. Na residência de Herzog, sua mulher, publicitária Clarice Herzog entrou em trauma não aceitado a versão de suicídio do esposo. Como jornalista, Vladimir era diretor de jornalismo da TV Cultura. Na noite de dia 24 de outubro, agentes do serviço de inteligência foram a TV Cultura convocar o jornalista para prestar depoimento sobre suas ligações com o PCB – Partido Comunista Brasileiro -. A proposta foi aceita para o dia seguinte e seu depoimento foi uma sessão de tortura. Pelo que disseram dois jornalistas, presos no DOI-CODE, houve espancamento e Vladimir morreu nesse mesmo dia. Uma versão oficial declarou ter Vladimir Herzog se enforcado na cela com um cinto do macacão de presidiário. Contudo, tais cintas não dispunham de força para um enforcamento. Além do mais, os pés estavam dobrados ao cair no chão e os joelhos refletidos. Um exame cadavérico demonstrou marcas de estrangulamento no pescoço.
Isis
--- Mas isso é uma canalhice! Como é que pode! Mataram o jornalista! – - falou alto e alarmada.
Nesse momento, Moema saía do seu cômodo para cumprir alguma necessidade e ouviu a moça agitada e toda exaltada. Com isso, Moema veio para ver o que estaria a passar. E perguntou:
Moema
--- Que foi mulher? - -
Isis
--- Isso aqui. Como é que pode? E o Governo? - - falou brava.
Moema passou a vista no que Isis estava a ler e logo respondeu.
Moema
--- Mas isso é o Governo. No tempo de Ernesto Geisel a coisa era do mesmo jeito! – - falou então aborrecida.
Isis
--- Agora deu! Quer dizer que, agora, o Governo é quem mata? - - zangada.
Moema
--- Espera! Volto logo! – - e saiu correndo.
Isis ficou a olhar a sua parceira e logo após resolveu a ler um pouco mais o texto da matéria. Empunhando o queixo com a mão, ela se pôs a ler com mais empenho. E declara o texto.
O jornalista Vladimir Herzog tinha muitos motivos para ficar preocupado ao receber uma ordem para apresentar-se ao II Exército. Corria o ano de 1975 e o Brasil vivia sob uma ditadura militar que travava uma guerra brutal contra as organizações de esquerda. Em São Paulo, quem se opunha ao regime era levado ao Departamento de Operações, o temido DOI-CODI. Oficialmente, os militares queriam esclarecimentos sobre a suposta ligação de Herzog, 38 anos, diretor de jornalismo da TV Cultura, com o Partido Comunista. Por isso, ele decidiu atender à convocação. Saiu de casa no dia 25 de outubro e nunca mais voltou. Torturado, foi vítima de espancamentos, choques elétricos e afogamento e morreu asfixiado nas dependências do órgão de repressão. ”
Preocupados com a repercussão da morte de Herzog, os torturadores do DOI-CODI forjaram uma cena grotesca de suicídio: apresentaram uma foto do jornalista enforcado com o próprio cinto, no interior da cela. Vários fatores desmentiam a versão oficial, a despeito do laudo assinado pelo legista. O principal deles era o próprio instrumento utilizado. Não era permitido ao preso permanecer de cinto, justamente para evitar que ele fosse usado como arma.
Isis:
--- Olha aqui. No tempo da Ditadura houve mais conflito do que essa morte de Herzog. Veja! –
Moema
--- Guerrilha do Araguaia? Até hoje é um sigilo. Eram banqueiros, médicos, engenheiros. Eles se armaram por conta própria. Alguns fugiram e outros, hoje, assumem poderes de Deputados e Senadores. –
Isis
--- Só isso? – - indagou alarmada.
Moema
--- Quer mais? – - colou as mãos nos quadris com olhar atento.
De momento, a moça Isis tornou-se silenciosa para logo adiante começar a falar.
Isis
--- Interessante! Agora, lembro de um caso ocorrido no meu interior. A minha mãe contava sempre uma história quando era ainda jovem. Um homem saiu de sua casa deixando mulher e filhos alegando ir para essa cidade de Araguaia. - - ficou a imaginar
Moema
--- Araguaia fica na região do Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. É um rio. Ele nasce da Serra do Caiapó, no Parque das Emas, em Goiás. A Guerrilha do Araguaia foi a tentativa de dissidentes do Partido Comunista do Brasil, o PC do B, de organizar uma luta armada, a partir do campo, para enfrentar a ditadura militar que governava o Brasil, em 1968. – - disse a bela jovem. 
Isis
--- E venceram? – - perguntou com espanto.
Moema
--- Espere! Na época, a censura barrava notícias e manifestações artísticas que o Governo julgasse impróprias. Para piorar, pessoas que se opunham ao Regime eram perseguidas, torturadas e até executadas. Quando o Regime começou a endurecer ainda mais, alguns partidários da esquerda, inspirados pelo sucesso das revoluções chinesas, com Mao-Tsé-tung, e cubana, com Che Guevara e Fidel Castro, começaram os planos para derrubar os Militares do poder. O primeiro passo era conquistar a população rural, alistando “soldados” para iniciar a revolução socialista no Brasil. Entendeu? - - perguntou solene.
Isis
--- Sim! Conte mais! - -
Moema
--- Então, em 1968, alguns líderes do PC do B se desligaram do partido para formar grupos de resistência armada em regiões rurais. Os grupos de espalharam próximos às margens do rio Araguaia. Eram paulistas, mineiros e gaúchos em sua maioria. Uma estratégia era usar a profissão dos guerrilheiros para atender às necessidades locais. Alguns guerrilheiros eram médicos, por exemplo. – - explicou.
Isis
--- Os guerrilheiros, vindos da classe média alta, bancavam as próprias armas? – - indagou então assustada.
Moema
--- Bem. Sem treinamento militar prévio nem financiamento do partido, o arsenal se limitava a facões, revólveres e espingardas. – - voltou a explicar.
Isis
--- Houve mortes? - - perguntou com medo.
Moema
--- Isso. Numa emboscada ao comunista Carlos Marighella, os militares do Governo descobriram documentos com pistas sobre a guerrilha, confirmadas com a prisão e a tortura do ex-guerrilheiro. O Exército se infiltra nas comunidades do Araguaia e compra informações dos camponeses, descobrindo paradeiro e identidade dos guerrilheiros. - -  informou.
Isis
--- Deus do Céu. Como pode? –
Moema
--- Isso é guerra, minha filha. Tudo se comprar. De uma forma ou de outra! Ou, então, se mata.




sábado, 12 de setembro de 2015

MAR SERENO - 21 -

- TORTURADO -
- 21 -
ESTUDO -
Os Generais que lideraram o Golpe de 1964 no Brasil e permaneceram 21 anos no poder, justificaram o regime militar como medida adequada para solucionar as crises de instabilidade governamental do período democrático-populista. Os militares concebiam a democracia representativa e multipartidária brasileira, em vigor no período populistas, como a principal causa dos conflitos que desestabilizaram os governos eleitos. O próprio Costa e Silva liderou conspirações contra o governo de seu antecessor, Castelo Branco que morreu em desastre aéreo em Fortaleza, no Ceará quando o seu avião colidiu com um outro, da Força Aérea, desastre que nunca foi esclarecido e nem o piloto do aparelho que colidiu com o do presidente foi julgado. O crime se manteve em silencio. A cada escolha de um novo General para ocupar a Presidência, abria-se uma grave crise institucional.
Segundo a versão oficial dos fatos, o Marechal Castelo Branco faleceu em um acidente aeronáutico, em uma aeronave do Governo do Estado do Ceará, Piper Aztec no dia 18 de julho de 1967. A aeronave que conduzia o então Presidente da República foi atingida na cauda pela ponta da asa de um caça da Força Aérea Brasileira, um Lockheed, perdendo a deriva. O avião chocou com o solo morrendo todos os seis ocupantes, menos o co-piloto. Na ocasião do acidente houve uma investigação concluindo que o choque foi acidental. E ficou por isso mesmo. O piloto do caça era o Tenente Alfredo Malan d’Dangrogne. Anos depois o acidente foi tratado como um atentado.
Isis
--- Estude! Estude! Estude! Como eu vou estudar? Eu quero saber. Mas, pelo modo coerente. Teve uma Guerra, há alguns anos. Outro Golpe tempos depois. E como eu vou separar uma coisa da outra? Diga-me? - - indagou a moça de olhar tenso para Moema
Moema sorriu pela confusão na memória da amiga. A essa altura, Monroe já estava em seu quarto de dormir, com certeza a conciliar o sono ou mesmo fazendo algo de interesse particular. E a moça Isis estava irritada na sala em companhia de Moema. Então, teve a resposta.
Moema:
--- Veja, Isis. Você está passando adiante em muitos temas. Se fosse estudar de uma forma acadêmica, isso não seria problema. Se você quer saber de um assunto, tem que ir pelo começo para não se perder. Vejamos: nós estávamos discutindo sobre a revolução de março. Esse foi um tema. O outro foi a II Guerra Mundial. Nesse ponto, vamos buscar muitos anos antes. Mas, se estamos falando em um tema como o Golpe de Março, vamos procurar apenas nesse ponto. O melhor é ir vasculhar no Computador. Venha! Você quer assim? - -
Isis
--- É melhor. Até porque você me ensina a buscar temas nesse computador. Eu não sei bem, ainda. Nem sei digitar, como se faz. - -
Moema
--- Bom. Eu vi que você já sabe algo: digitar. Porém, não é só digitar ou trocar conversa com amigas. É buscar o que você acha importante. Por exemplo: Golpe de Março de 1964 do Brasil. Por aí, você começa. Vamos lá. Sente-se. - -
Isis procuro sentar e fez a pergunta:
Isis
--- E como eu ligo isso? - -
Moema
--- Do mesmo modo como você ligou o anterior. Todos os Computadores têm uma chave.  E você deve saber qual é a sua chave. Ou não? - - indagou
Isis
--- O de lá do gabinete tem essa “tal” chave. Mas, aqui deve ser outra. Não? - -
Moema
--- Sim. É outra. Vamos com calma. Liga-se o Computador. Espera-se dar o sinal. E então começa-se a buscar o que interessa. Veja bem. –
O a moça prestou com bastante atenção. Finalmente, após várias tentativas conseguiu ligar o computador.
Isis
--- Pronto. Consegui. E então? –
Moema
--- Busque o tema que lhe interessa e prossiga. Veja como é fácil. –
Após vários minutos Isis conseguiu digitar o tema: Golpe Militar de março de 1964.
Isis
--- Achei. E com retrato e tudo. - - esfregou uma mão na outra, a sorrir.
Moema
--- O que você quer saber? Pense em um assunto! –
E Isis procurou um caso palpitante e disse a Moema.
Isis
--- O caso do Presidente não sei do nome. - -
Moema
--- Médici? - -
Isis
--- Isso. Isso. Desse homem. Um General. Um General mesmo? - - voltou-se para Moema.
Moema
--- Verdade. General Emílio Garrastazu Médici. O que você quer saber sobre o homem? - -
Isis
--- Tudo! – - sorriu de alegria
Moema
--- Tudo, não. Algo marcante. Vejamos: Ato Institucional nº 5. Esse foi um dos mais importantes. O AI-5. Esse ato saiu em dezembro do ano de 1968, e teve um momento mais intenso nos meses que sucederam ao Golpe. Logo após a deposição de João Goulart, em 1964, pequenos jornais de esquerda foram depredados. O “Correio da Manhã”, jornal importante do País, procurado por todos os intelectuais de esquerda ou não começou a denunciar os excessos dos Militares e teve sua sede invadida e interditada. O AI-5 institucionalizou o caráter ditatorial do regime e tornou a censura implacável. Um Decreto-Lei instituiu a censura prévia exercida por uma equipe de censores que se instalava permanentemente na redação dos jornais e das revistas para decidir o que poderia ou não ser publicado, ou os veículos eram obrigados a enviar antecipadamente o que pretendiam publicar para a Divisão de Censura do Departamento de Polícia Federal, em Brasília. O controle sobre a imprensa já havia sido regulamentado por Lei em fevereiro de 1967. A Lei de Imprensa, que obviamente restringia a liberdade de expressão. No entanto a situação se tornou mais crítica com a edição do AI-5, bem como com a do Decreto denominado Lei de Segurança Nacional, de 1969. A ditadura militar endureceu a repressão e as liberdades civis foram suprimidas. Atos de fazer oposição ao Governo virou ato clandestino. –
Isis
--- E a censura atingia também a imprensa como um todo? - -
Moema
--- Veja bem. Tinham setores da impressa que eram mais achegadas ao Governo. Esses setores eram bem vistos pelos Poderes. Teve um caso, em Natal, onde a Direção de um determinado jornal era bem visto pelas autoridades. Mesmo assim, tinha censores na redação. Eram homens calados. Mas, alegres. Tinha até jornais onde os Diretores eram gentes de “direita”. Esse pessoal nunca relatava o que ouvia dos de “esquerdas”. Apenas sabiam. Se fosse o caso, informavam as Poderes. - -
Isis
--- E quem eram esses elementos? - -
Moema
--- Eu mesmo, nunca pude saber. Mas havia gente da Marinha, do Exército e mesmo até civis. Seus nomes eram guardados a sete chaves. Nas Secretarias do Governo do Estado e Município, existiam também essas pessoas. Coisa incrível. Houve casos de repórteres que chegavam a ser presos incomunicáveis. Gente que apanhava. Triste, mesmo. –
Isis
--- E você não soube quem eram os delatores? - - perguntou sedenta de raiva.
Moema
--- Mesmo se eu soubesse, não diria, nem mesmo agora. - - 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

MAR SERENO - 20 -

- O GOLPE -
- 20 -
CONVERSA -

Em um fim de semana quando o Embaixador Monroe estava no Apartamento em companhia de sua irmã Moema e da futura assistente Isis Fernandes, aconteceu uma conversa sem grande importância. Porém, para a moça Isis saiu como uma flecha, pois o caso tomava conta dos meios de informes em todo o mundo. Pois, sendo assim foi que a moça indagou para despertar ainda mais a silenciosa conversa. A TV estava ligada a passar matérias internacionais e tal caso despertou a memória da assistente. E foi assim que se passou. 
Isis
--- Senhor, eu pergunto, agora: o que houve, no Brasil, há alguns anos, quando se depôs um Presidente da República? O que houve de erros e acertos? - - findou por perguntar.
Monroe
--- A senhorita se refere a João Goulart, por certo. É uma história até certo ponto recente. Jango foi presidente do Brasil entre 1961 e 1964. Então, veio o Golpe. No começo da década de 1960 o país atravessava uma profunda agitação política. O presidente eleito e empossado era Jânio Quadros, em 1961. Acontece que Jânio renunciou com sete meses no poder por questões políticas e, então, assumiu Jango que ficou no cargo até 1964. Jango defendia medidas consideradas de esquerda para a então política brasileira. Reformas de base pretendendo reduzis as desigualdades sociais. E o voto do analfabeto entre outras medidas. Isso preocupou as elites. Jango quis controlar a remessa de dinheiro para o exterior. Entre outras medidas, veio o Golpe Militar quando o Presidente fez um discurso inflamado determinando a nacionalização das refinarias estrangeiras de petróleo. No dia 31 de março daquele ano os militares iniciaram a tomada do poder e a deposição de Jango. Então, Ranieri Mazilli assumiu a Presidência e Goulart se exilou no Uruguai. No dia 9 de abril foi editado o AI-1 – Ato Institucional número 1 – e empossado o presidente o marechal Castelo Branco destituindo o que tinha assumido antes, o político Ranieri Mazilli. Entendeu? - - perguntou falando sério. 
Isis
--- Entendi. Mas, quem era Ranieri? – - quis saber um pouco mais
Monroe
--- Ah. Apesar de eu não ter nascido, posso dizer que Ranieri Mazilli era presidente da Câmara dos Deputados. Ele ocupava o lugar deixado pelo presidente Jango. Esse, era vice-presidente quando assumiu o Cargo. Mas, deixou porque o primeiro presidente, Jânio Quadros renunciou. Então o comando não tinha quem assumisse. E, então, veio a vez de Ranieri. Ele foi indicado pelo Presidente do Senado, Auro de Moura Andrade. Esse, declarou vaga a presidência da República. Mas o poder real encontrava-se nas mãos dos militares. Era o Comando Supremo da Revolução composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo – Aeronáutica -, o vice-almirante Augusto Rademaker – Marinha – e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permanecia no poder por duas semanas. - - confirmou. 
Isis
--- Agora, diga-me se os jovens naquele tempo, fizeram bagunças! - - quis saber
Monroe
--- Bem. Pelo que estudei e ainda estudo, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda como por exemplo o CGT, a União Nacional dos Estudantes, as Ligas Camponesas e grupos católicos como JUC (Juventude Universitária Católica) e a Ação Popular. Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste. Em Natal, houve muitos jovens presos, para bem explicar. - -
Isis
--- E essa Junta baixou o tal Ato Institucional? - - quis saber então
Monroe
--- Sim.  Foi invenção do Governo Militar. Seu objetivo era justificar os atos de exceção que se seguiram. Ao longo do mês de abril de 1964 foram abertos centenas de Inquéritos Policiais-Militares chefiados em sua maioria por Coronéis. O seu objetivo – dos Inquéritos -  era apurar atividades consideradas subversivas. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos. Parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos. Entre os cassados encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional. - -
Isis
--- Foi assim? - - indagou espantada.
Moema
--- Grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais, da Igreja Católica, vários governadores de Estados importantes – como Carlos Lacerda, da Guanabara, Magalhães Pinto, de Minas Gerais, e Ademar de Barros, de São Paulo – e amplos setores da classe média pediram e estimularam a intervenção militar para acabar com a esquerda. - - destacou
Monroe
--- O Golpe também foi recebido com alívio pelo Governo norte americano. Isso, porque o Brasil não seguia o mesmo caminho de Cuba. Na ilha a guerrilha liderada por Fidel Castro havia conseguido tomar o poder. Os Estados Unidos acompanharam de perto o desenrolar da conspiração e o desenrolar dos acontecimentos. - - pontificou.
Moema
--- Os militares envolvidos no Golpe de 1964 justificaram sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e a hierarquia nas Forças Armadas e deter a “ameaça comunista” que pairava sobre o Brasil. O medo de uma volta ao passado estaria presente durante os 21 anos em que a instituição militar permaneceu no poder político no Brasil. - - destacou,
Isis
--- E Castelo Branco? – - indagou para melhor entender.
Monroe
--- No dia 15 de abril um grupo de oficiais pró-Castelo decidiram eleger o Marechal Presidente do Brasil eleito pelo Congresso. - - destacou
Moema
--- Acontece que, hoje, tem historiadores ditando que o Golpe não foi exclusivo do grupo militar. Grandes proprietários rurais, a burguesia industrial paulista e parte da classe média urbana, mais de 35% da população do país e o setor anticomunista da Igreja Católica realizaram marchas em todo o território brasileiro. - - explicou,
Monroe:
--- João Goulart encontrava-se em viagem oficial à República Popular da China. Militares então acusaram de ser comunista e o impediram de assumir o seu lugar como mandatário do regime presidencialista. Houve negociação e Jango assumiu como ser Chefe de Estado. Os Estados Unidos temeram que o Brasil viesse a se transformar em uma ditadura socialista, similar a Cuba.
Moema
--- Era o “perigo Vermelho”. – - falou e sorriu.
Isis
--- Os anos de “chumbo”? – - indagou para melhor entender.
Monroe
--- Há quem diga. O Golpe foi o mais longo período de interrupção democrática pelo qual o Brasil passou. Então, se qualificou em se chamar “os anos de Chumbo”. Censura à imprensa, repressão violenta das manifestações populares, assassinatos e torturas. O mais cruel e duro período de intervenção militar. Isso começou bem antes quando se elegeu Jango pelo PTB, um partido de esquerda. Esse Partido era visto com desconfiança pelas Forças Aramadas. Em 31 de Março de 1964 o general Olímpio Mourão Filho deslocou 3 mil soldados de Belo Horizonte – MG – em direção ao Rio de Janeiro para consolidar o Golpe de Estado. - - destacou
Moema
--- É bom lembrar que o marechal Castelo Branco governou o Brasil até 18 de julho de 1967 com a queda de Jango a 31 de março do mesmo ano. - - explicou
Monroe
--- A história é longa. Tem os partidos de esquerda hoje em dia que fazem os seus discursos apoiando o Governo e os de Direita completamente ao contrário. O que a senhorita deve fazer agora é estudar. Busque livros de conservadores ou não. - -
Isis
--- E como eu vou saber quem está com a razão? - - quis saber de olhar atento.
Monroe
--- Estude. Veja quem está de um lado de direita ou de esquerda. - -



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

MAR SERENO - 19-

- ITAMARATY -
- 19 -
ITAMARATY
Logo após o almoço, Ênio Monroe acompanhado de Maria Isis Fernandes, seguiu para a sede do Poder. Alí mesmo se despediu de sua irmã, Moema que se dirigiu para a sede do Congresso. Isis também trocou beijos com a amiga. O Itamaraty é o Ministério de Relações Exteriores, órgão do Poder Executivo responsável pela política externa e pelas relações internacionais do Brasil, nos planos bilateral, regional e multilateral. O Itamaraty assessora o Presidente da República na formulação da política exterior do Brasil e na execução das relações diplomáticas com Estados e organismos internacionais. Com uma rede de mais de 220 representações no mundo, o Ministério promove os interesses do País no exterior. Além disso, o Itamaraty organiza as visitas oficiais ao Brasil de Chefes de Estado e de Governo e demais altas autoridades estrangeiras. Com essa incumbência, o Embaixador Ênio Monroe seguiu para o seu escritório. Cortinas de veludo vermelho encobrindo a sala e protegendo do sol. Quatro computadores e funcionários a digitar negócios de fórum comum, uma baqueta onde se ostentava um banco. Em cima da banqueta tinha um jarro de adornadas fores artificial, estofados em amplos compartimentos, banca com seis cadeiras ao redor uma estante modelo antigos repleta de livros, quadros de pintores famosos, cadeiras para despacho com visitantes, cortinas lilases para fazer de conta que estava ali para encobrir algo, o Pavilhão Nacional ambientado por luzes belas e românticas. E diante de tal profundo ornamental decorativo Isis não sabia de se estava no Céu ou na Terra.
No sofisticado ambiente, o Embaixador cumprimentou seus funcionários e apresentou a nona servidora, Isis Fernandes, e se dirigiu para o seu escritório, uma parte reservada do amplo Gabinete onde, quando estava no Brasil, o soberbo homem costumava despachar, receber representantes de outros Países ou se dirigir a reuniões de gabinetes em outros setores do gigante edifício. Com ele, seguiu também a nova auxiliar, Isis Fernandes, meio desambientada, cheia de temor. O diplomata segurou a porta para dar entrada a moça. Em seguida procurou sentar em sua poltrona e pediu a Isis para fazer o mesmo em uma cadeira próximo ao birô. Nesse tempo apertou uma sineta. Ele estava solicitando as correspondências de uma servidora. Isis ficou calada esperando o que falar. E foi a vez.
Monroe:
--- Seus documentos. Identidade, CPF, Título de Eleitor. – - falou ao receber os documentos que a outra funcionaria trazia para depositar em uma bandeja.
A moça Isis retirou da pochete nova os documentos solicitados e nada falou. O diplomata examinou todos os documentos e falou, por fim.
Monroe:
--- A senhorita vai receber um documento novo: um Passaporte. Sabe o que é? - -
Isis
--- Sei sim. Eu vi uma ou duas vezes o do senhor. - -
Monroe
--- Quando a senhorita tiver que viajar para outro País, lembre-se de leva-lo. É o selva-vida.
Isis
--- Sim. Moema me falou. –
Monroe
--- Pois bem. A senhorita será a minha Auxiliar em todas as questões de meu compromisso. Anote sempre. Quando eu sair, a senhoria também me acompanha. Por enquanto, tem essa máquina. É um Computador. Aprenda a teclar. Seu diploma de segundo grau foi providenciado. E a senhorita vai fazer um curso superior. Escolha qual[aa1] . - -
A moça estremeceu e nada perguntou. Segundo grau, ela não fez por não ter se matriculado em uma outra escola desse nível. Isso, o diplomata sabia. E, depois, tinha o curso superior. O suor frio lhe escorreu na face.  E, então, indagou.
Isis
--- Como faço esse curso? Por exemplo: qual nível? - -
Monroe
--- Qualquer um. Administração, Jornalismo, Psicologia. - -
Isis
--- Eu prefiro Jornalismo. –
Monroe
--- Pois bem. Jornalismo. Se alguém perguntar a senhoria diga que está fazendo Jornalismo. Uma Universidade de sua cidade. –
Isis
--- E tem? - -
Monroe
--- Tem. Não ponha a Universidade Federal. - -
A moça ficou cismada. E perguntou a razão. O homem nada falou de imediato. Porém, logo após resolveu a questão.
Monroe
--- Tem gente para isso. Gente como o que deu o diploma de segundo grau todo sacramentado. Não fale. - -
Isis sorriu e nada falou, se bem ter ficado surpresa. Notas, frequência, escolas, Secretaria de Educação entre outros procedimentos. Assim, a moça calou e procurou sentar na cadeira onde estava a máquina – computador – para digitar os primeiros fragmentos do aprendizado.
Isis
--- Comprar diploma? Estranho! - - falou a moça consigo mesma.
Alguns minutos depois, o diplomata Monroe teve que sair e recomendou a Isis ir com ele para acompanha-lo onde entrasse. Depois de meio dia estafante de acompanha o Estadista e ficar teclado o computador a moça ficou sabendo de ter um nível superior com apenas cinco dias após solicitar o diploma – falso - ao pago de uma quantia até razoável: Comunicação Social equivalente a Jornalismo. Tal diploma vinha com data certa, assinatura do reitor e publicado no Diário Oficial da União. Tudo correto para ninguém desconfiar. O oportuno caso lhe foi passado por Moema, horas depois, em conversa sobre os segredos do Certificado no apartamento onde a moça foi morar daquele dia em diante.
Isis
--- Mas por uma quantia dessas a gente completa os estudos? - - relatou a moça de boca aberta.
Moema
--- Isso é Brasil. Se não for aqui, é na Itália, Bolívia ou México. - - declarou sorrindo.
Isis apenas pensava em ser diplomada falso no Grau Superior sem nunca ter visto ou passado pela Universidade. Diplomas falsificados de nível superior eram vendidos livremente na Internet. A compra podia ser feita por qualquer pessoa – até mesmo por quem nunca cursou uma Universidade. Os supostos comerciantes ofereciam até certificados da área médica.
Isis
--- Como se faz isso? - - indagou assustada.
Moema
--- Da forma como se faz uma empada. - - sorriu
Isis
--- Você está brincado. - - falou com incerteza.
Moema
--- Como você pensa que eu cheguei a esse lugar? –
Isis
--- Não pode ser. –
Moema
--- Então, estude. - -
Isis
--- Vou perder um tampo e tanto. - --
Moema
--- Então pegue o caminho mais fácil. - -
Isis
--- E se eu for pega? – - assustada.