sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A MORTE NA ESTAÇÃO - 38 -

- CANTO DO MANGUE -
- 38 -

AMANHECER

Logo após o café da manhã, Othon seguiu para o Canto do Mangue para comprar peixe, de preferência, cioba o peixe que preferia pelo seu sabor. No caminho, se encontrou com um velho conhecido que, por não saber mais seu verdadeiro nome, o chamava de Capataz, um apelido das antigas. Tendo esse apelido, o homem nem se importava. Othon saltou do seu auto e o deixou em cima da calçada da lateral do prédio. Ao chega próximo, Othon reconheceu o velho amigo de tantas eras e foi aquele abraço apertado. Capataz era aposentado da Marinha e entre outras coisas, ele também preferia comprar peixe para seu almoço. Após tanta emoção os dois amigos de longas datas passaram a conversar. E os dois argumentaram sobre trabalho e o não fazer nada. Capataz declarou que esteve por duas vezes no exterior como marinheiro em viagem de ouro. Isso deixou surpreso o seu amigo Othon pois nunca o ouvira falar do tempo de Marinha. Foi o que fez a pergunta.
Othon
--- Duas vezes? Que maravilha! - - declarou com alegria
Capataz
--- Duas vezes. Isso porque o Navio só tinha um marinheiro capacitado em projetar filmes. Foi uma loucura. Eu ganhei duas Vigem de Ouro, por isso. A primeira foi até a Italia. A segunda foi até o Japão. Uma maravilha. No Japão eu dei uma escorregadela e fui conhecer a tal Hiroshima. A cidade ainda estava meia decaída. O pessoal trabalhava na sua reconstrução. Até americanos tinham lá. Mas o povo era imponente. Eles não ligavam para os americanos e os chamavam de “cachorros”. Isso a boca pequena. Os americanos mataram muita gente. Só em Hiroshima morreram 166 mil pessoas. Coisa de louco. Por isso mesmo os japoneses os tratavam como “cachorros”. Aliás, cachorro é a comida predileta dos japoneses! - - gargalhou
Othon
--- É incrível! Mas, é isso mesmo. Depois, a paz. Quem morreu, já morreu! - - decepcionado
Capataz
--- Mas os japoneses não gostam tanto assim dos americanos. Olham com o rabo do olho! - - declarou
Othon
--- Eu sinto vontade de conhecer o Japão, o Vietnam e países daquele mundo. Muita vontade mesmo. A Índia! Camboja, Tailândia.  Países de outro mundo. - - pensou
Capataz
--- Para quem tem dinheiros, isso é fácil.  - -  sorriu
Othon
--- Sim. É fácil. Mas não tão fácil assim. Nós estamos em um país do 3º mundo. Queira ou não queira, isso não é invenção. É a pura realidade.  - - decepcionado
Capataz
--- Sim. É verdade. Eu fui ao Japão naquele tempo. Eu não gastei nada, tinha comida e roupa lavada. Eu levava uma vida boa. Hoje, eu já não posso dizer o mesmo. O meu ordenado é uma porcaria em relação a de um Senador, de um Deputado ou mesmo de um Médico. Eu fico a pensar: será que fiz o bem? Eu sou um fotógrafo. Porém nem isso me dá renda. Eu, quando estou em minha casa, para ter um mínimo de sossego, procuro um canto de alpendre para fazer minhas fotos. Não tenho mulher. Só a minha mãe, já bastante idosa. E o que é que eu faço da vida? - - relatou suas mágoas
E os dois companheiros entraram no mercado do peixe onde havia pescado de vários tipos. Othon estava à procura de uma boa cioba. O seu amigo se contentava mesmo com um pargo ou um badejo. Comidas mais simples. Quando Othon se ambientou no mercado e examinava as ciobas à venda, deu de vistas com uma bela mulher. Algo sobrenatural e estonteante como jamais avistava em um ponto de venda de peixe. Ela era semelhante, porque não definir, igual a Norma, sua ex-mulher, morta em um acidente de trem. Naquele dilema atroz, o homem se aproximou da senhora e fez a pergunta habitual, como sempre.
Othon
--- Peixes imensos. A senhora vai comprar? - - e olhou para o dedo da mão esquerda da mulher para ver se havia aliança. Não havia. Com certeza era solteira
Alice
--- Estou pesquisado. - - e levantou um pescado fazendo cara feia
Othon
--- Desculpe-me. Mas a senhora lembra alguém. A senhora tem irmã?  - -quis saber
Alice
--- Eu? Duas irmãs. Comigo somos três. Por que a pergunta? - - e se virou para o homem
Othon
--- Eu fui casado. Minha esposa veio a óbito há poucos dias. Eu a encontrei. E me sugestionou como a senhora é semelhante a Norma, a minha mulher. Nós éramos casados. Porém Norma faleceu faz poucos dias. - - disse o homem
Alice
--- Há muitas pessoas semelhantes nessa terra. - - disse a mulher
Othon
--- Eu resido em São Paulo. Mas sou daqui mesmo. Agora, com a morte da esposa, vim para resolver os assuntos. Ela deixou dois filhos. Agora, eu tenho que os levar. São crianças ainda pequenas. - -
Alice
--- Crianças, criancinhas? Coitadas! - - falou decepcionada
Othon
--- Sim. Crianças. Eu estou num dilema. Eu desempenho função na Receita Federal. Tenho que as levar pois não há ninguém aqui, que tome conta. Eu consegui uma governanta. Mesmo assim ela recusa ir. São Paulo é uma cidade imensa. - -
Alice
--- Eu sou de São Paulo e trabalho em uma Faculdade. Sei o que o senhor acaba de falar. Uma cidade grande. - -
Othon
--- Mas a senhora está aqui, agora? - - indagou
Alice
--- Meus pais moram na cidade. Aproveitei o período de férias, e vim visita-los. Minhas outras irmãs estão espalhadas pelo meio do mundo. França, Alemanha. – - sorriu.
Othon
--- Alemanha! Um belo país. Eu estive em Bonn e em Berlim. Gosto muito de viajar pelo mundo. É aprazível. - -
Alice
--- Eu já fui a França. Muito boa. Não tenho o que dizer. - -
Othon
--- França! Eu conheço! Só de passagem. O avião pousou por pouco tempo. - - magoado
Alice
--- França. Paris é um encanto. Para quem vai a Paris, é importante conhecer seus locais aprazíveis. Moulin Rouge, os parques do Sena cheios de flores, árvores. Borgonha. Festa em toda as ocasiões. As Igrejas de Paris. A cidade de Paris é uma das mais bonitas de toda a Europa. É uma cidade turística. - - relatou 
Othon
--- A minha próxima viagem é conhecer Paris. A senhora despertou a minha vocação. - - sorriu,
Alice
--- Qual o seu nome, por favor? - - pegou logo uma caneta para anotar
Othon
--- O meu é Othon. Eu sou funcionário da Receita. Procure-me. Apenas para conversar.  - - sorriu
Alice
--- Pode deixar. Vou procura-lo para tomar um café no Otávio certamente.  - - sorriu
Othon
--- Ou saborear frutos do mar. - - sorriu em troca
Alice
--- Em São Paulo tem de tudo. Pincipalmente frutos de mar. -  -
Othon
--- Seu nome? - -
Alice
--- Esqueceu? - - sorriu
Othon
--- Ando leso. Agora não perco mais. - - guardou o cartão de apresentação
Alice
--- Se eu tiver tempo, antes de partir nós nos encontraremos. - - relatou a moça
Othon
--- Provavelmente. Sei que não faltara tempo. - - e a beijou no rosto
De emoção, a moça ficou vermelha naquela hora.

A MORTE NA ESTAÇÃO - 37 -

- BORBOLETAS -
- 37 -

LAMENTO 

Após um banho refrescante ao meio dia, Othon ouvia o lamento da cantora a interpretar “Non, Je Ne Regrette Rien” algo comovente de alguém a desfazer suas angústias. Logo após, Neta serviu o alimento enquanto o homem esquecido da vida lembrava apenas de sua ex-mulher, Norma, a advertir para ele ter cuidado “com aquela pessoa”. Então, de boca cheia, ele indagou:
Othon
--- Mas que pessoa? - - atônito a olhar Tiago.
Tiago
--- Qual pessoa? - - indagou o rapaz sem entender o que ouvia
Othon
--- Nada. Coisas minhas. Nada não. – - e se desculpou pele o que disse.
A melodia já estava a terminar quando Othon falou.
Othon
--- Que maravilha! - - e sorriu
Tiago
--- A música? - -
Othon
--- Claro. Chega me deixa embevecido. Maravilhoso! - - disse o homem
Após um leve repouso com um sonho estranho, o homem acordou e, logo que cumprido suas obrigações, ele voltou ao trabalho vasculhando uma porção de fotos. Algumas eram recentes. Outras, ele nem se lembrava em ter feito. E folheando algumas, encontrou uma de Norma que ele não tinha visto, antes. E comentou.
Othon
--- Eu não lembro dessa foto! Teria sido em Bonn? Parece! Apenas portas abertas uma depois a outra. Um candelabro. Se ela estivesse aqui, eu perguntaria. Tantas fotos! - - disse o homem
Tiago
--- Essa porta é em Bonn. Ela me falou. Certa vez, Norma estava folheando as fotos quando se deparou com essa. E então ela falou dessa foto. É em Bonn. Bela foto. - - relatou
Othon
--- Eu desejo ir, novamente, a esse país. No verão ou na primavera, é um encanto. As rosas enfeitam nossos trajes. É um encanto. Quando nós fomos, eu e Norma, era tudo florido. As residências era um mar de rosas. Tudo era, então, o ambiente primaveril. Podia-se ouvir o silencio dourado a florescer nos campos. - - e Othon chorou de tanta emoção
Tiago
--- Ela falou desse tempo. Ficou maravilhada. - - e voltou a sua face para outro local evitando chorar
Borboletas douradas esvoaçaram pela janela do apartamento e Neta sacudiu o pano para afugentá-las, vez que as borboletas insistiam em não sair do local onde pousaram, abrindo e fechando as delicadas asas. A menina Racílva apenas sorria com a atitude de Neta. Tiago, decepcionado com a ação de Neta, mandava embora as borboletas com outra toalha. As borboletas não obedeciam até as vassouradas com que Neta as espantavam e voavam em outra direção tal como a sorrir da bobagem com quem os demais faziam. E demorou minutos amargos até as borboletas baterem em fuga para não mais voltar por aquele dia.
Neta
--- Ufa! Cansei. Bichos nojentos! Tomara! Se elas voltarem, taco-lhe a mão p’ra cima! - - declarou resignada.  [aa1] 
Racílva
--- Eu ouvi as borboletas conversarem! - - declarou sorrindo.
Neta
--- Elas bem queriam que as matassem! - - disse de forma afogada
Racilva
--- Uma disse para outra que você não cuidava do pai, agora ia cuidar das mariposas! - - gargalhou
Neta
--- Pois bem! Deixa que elas voltem. - - rugiu de ódio
Tiago
--- Espere! Você disse que as ouvir conversar? - - indagou espantado
Racilva
--- Ouvi, sim. Meu irmão também ouviu. Não foi Dinho? - - era como a menina tratava o irmão
Hervê
--- Eu ouvi, sim! Elas sorrindo! Eu ouvi! - - falou Dinho, o menino, brincando com seu trem de madeira.
Othon
--- Essa história de meninos. Dá até para sorrir. - - comentou
Racílva
--- O senhor não acredita? Pois em escutei as borboletas! Ora! - - relatou um pouco brava.
Othon
--- Eu sei. Eu sei. Agora, brinquem que é o melhor negócio. - - gargalhou
Tiago
--- Agora, eu me lembro quando eu era criança. Eu ouvi um burro sorrindo por causa de um cavalo! - - gargalhou
Othon
--- Foi nada? Eles falavam? - - perguntou o homem a sorrir
Tiago
--- Eu não me lembro bem. Apenas que o burro sorria do cavalo. E esse ficava irado. - - gargalhou
À noite, Othon foi dormir logo cedo, por volta das 9 horas. Ele estava cansado por tudo quanto havia feito durante o dia. Um negócio que ficou atormentado a sua mente foi ter “cuidado com aquela pessoa”. Por isso, o homem ficou como um alerta redobrado em sua memória. Com pouco tempo, Othon adormeceu nem passando em borboletas ou mariposas. O sono era pesado e assim, o homem teve um sonho de arrepiar. Pelo sonho, ele estava no alto de uma pedreira a ver ao longe a figura esguia de Norma. Ela estava ao longe a chama-lo para ir até um bosque. Othon nada sabia sobre esse bosque. Parecia estar em outros país onde as águas do inverno cobriam todo o chão e, por isso, ele se via obrigado suspender as calças de forma a não molhar até o meio da canela. Para outro lado, tinha o plantio de arroz, ao que se assemelhava, vez porque uma mulher o chamava para se livrar da chuva parecendo crescer cada vez mais. Ele olhava para a sua mulher. Essa estava a sorrir pelo chamado da outra mulher sempre a falar assim “venha cá, venha cá, venha cá”. Era o que a mulher apenas falava. Nesse momento, Othon despertou, confuso procurando até mesmo as águas do arrozal. Mas, nada encontrou. Apenas o chão. Ele sentiu seu coração pulsar forte e teve medo. Buscou as chinelas, calçou e seguiu um pouco tonto até o sanitário onde cumpriu suas necessidades. No restante do AP, quando Othon voltada para novamente cumprir o sono, viu bem à frente a moça Neta, sua secretaria. Ainda leso, o homem sorriu um pouco para a moça e se largou para a cama. Num instante, adormeceu.
Era madrugada. Em sonho profundo, Othon não despertava nem a muque. Foi num instante como esse que Norma surgiu sempre contente, não querendo despertar o seu amante e, mesmo assim, falou baixinho.
Norma
---- Amor. Não é preciso se voltar para o seu lado. Apenas, escute. Escute bem. O que eu disse pela parte da manhã foi que você tomasse cuidado com aquela pessoa. Para você não foi possível entender. Nossos filhos, eles irão com você. Mas cuidado com Maria. Ela é malvada. Tome cuidado. Muito cuidado.            Vai ter vez que ela não se contém. Evite os meninos estarem apenas com Maria. - -
E nesse ponto, Othon despertou sem lembrar. Apenas algo dizia ter cuidado com os meninos. Ele não tinha certeza do pensava. E, devagar, procurou sair do leito e ir até ao cômodo das crianças. Não sabe o que ele tinha que fazer. Mesmo assim, ele foi até o cômodo, coisa que nunca fizera. Othon verificou como estava dormindo os garotos e em seguida, voltou ao seu quarto. Ele fez algo que normalmente não faria em tempo algum. Com temor, Othon até parou para pensar.
Othon
--- Mas, os meninos estão dormindo. Por que eu fui ver? - - indagou surpreso
Manhã. Todos estavam despertos. Apenas Tiago não estava o AP. Isso era normal. Ele sempre trazia frutas para a CEASA. Apenas, depois, era que sentia vontade de ver Neta, por questão de afinidade.  Othon sorriu para os garotos. Um deles, era Racilva, a menina.
Neta
--- Vai comer! - - disse Neta com muita ira
Hervê
--- Mas eu não quero isso. - - empurrou o prato com abacate.
Neta
--- Está vendo, senhor. Ele não come abacate! Deus te guie! - - e levou o prato para a cozinha
Othon
--- Por que você não como abacate? - - indagou
Hervê
--- É verde! Eca! - - comentou.



A MORTE NA ESTAÇÃO - 36 -

- PAÇO DA PÁTRIA -
- 36 -

CONHECER
O homem Othon adentrou uma modesta residência de Mirtes, coisa comum naquele espaço do Paço da Pátria, local fétido pela lama impregnada, jogada pelas turbulentas águas do rio, e procurou se sentar em um tamborete de três pernas a espera de algo a indagar pela senhora. Num canto da sala estava o cão, dorminhoco por sinal. Do outro lado, havia um gato negro, por sinal. O homem não deu a menor importâncias aos miseráveis dorminhocos. Apenas os contemplo sem a menor necessidade. Ele engoliu saliva para não cuspir fora. A ancião teve o cuidado de chamar uma moça, sua neta, tendo pedido para sentar em um banco pois seria a vez da senhorita ensaiar uns passes para adormecer em êxtase. Terminada a iniciação, Othon se dispôs a contar depois de ouvir a anciã falar. A moça, neta da velha, já estava adormecida, com suas mãos lançadas à mesa. Essa mesa tinha uma coberta branca em cima, com enfeites de renda, uma vela acesa, um copo de água e o cacho de flores  
Mirtes
--- O senhor é o marido da falecida Norma. Estou certa? - - perguntou de olhos fechados
Othon ficou surpreso com tanta assertiva. E ficou surpreso com o argumento da velha senhora. E respondeu.
Othon
--- Certo. Eu sou. Como a senhora sobe? - - quis entender.
Mirtes
--- Ela está aqui, ao meu lado. Foi ela quem mandou perguntar. - - respondeu a anciã
Othon
--- Não é possível! Ela aqui? Pergunte algo que apenas ela sabe! - - discorreu
A anciã passou a questão para a sua neta.
Mirtes
--- Pergunte a ela uma questão que somente a moça sabe. - - passou a palavra a sua neta.
Elba
--- Eu te pergunto onde está a chave? - -
Othon
--- Chave? Que chave? Eu não tenho chave! - - respondeu estarrecido
Elba
--- A chave do armário que você comprou pela manhã naquele dia. A primeira chave. - - quis saber
Othon
--- Ah. Você quer saber onde eu coloquei a chave? A primeira? - - quis saber
Elba
--- Sim. A primeira. Onde você colocou? - - indagou
Othon
--- Ah. Lembrou agora. Do armário! Deixa-me ver! Onde eu coloquei? Já nem sei mais! - - respondeu
Elba
--- Na dispensa. Ainda está guardada no mesmo local. – - respondeu
Othon
--- Diabos! Por que eu me lembrei? Faz tempo! Faz tempo! - - procurou em vão a figura da esposa.
Mirtes
--- Ela não está nesses locais. - - respondeu a olhar em volta.
Othon
--- Verdade. Aqui não está. Só está com a moça. Mas me diga uma coisa. Por que você pôs termo a vida?
Elba
--- Por sua causa. - - respondeu
Othon
--- Por mim? Que te fiz para merecer tanto? - - quis saber
Elba
--- Racílva. Ela está aqui também. E me contou os dissabores do noivado. - - respondeu
Othon
--- Onde está Racílva? Quero falar com ela! - - confidenciou.
Elba
--- Hoje, ela não vai poder. - - respondeu
Othon
--- Eu sabia. Eu sabia. E quando ela pode falar comigo? - - quis saber.
Elba
--- Depois das férias. Ela já foi. - - respondeu
Othon
--- Férias? Que férias? Ora merda! - - falou o homem
Mirtes
--- Elas têm férias, também. Queres saber algo de sua mulher? - - indagou
Othon
--- Sim. Eu quero. Quando você volta? - - perguntou
Elba
--- Breve. Muito em breve. Cuidado com aquela pessoa! - - lembrou o espirito
Othon
--- Que pessoa? Ela diz coisas que não entendo! Que pessoa? - - perguntou com ira.
Mirtes
--- Ela se foi. Mas me disse quem. - - falou a velha
Othon
--- Uma pessoa que só você conhece. - - relatou
Nesse ponto, terminou a sessão. O homem, inquieto, perguntou à anciã quanto que estava devendo e ela respondeu que nada. Ele precisava tomar uns banhos de ervas sempre ao amanhecer e anoitecer. Esses banhos seriam para afugentar os maus espíritos que ronda a sua casa, constantemente. E seria de bom uso de uma flor pregada em seu uniforme. Podia ser por dento do paletó. E que ele tivesse cuidado com seus dois filhos.
Mirtes
--- A morte ronda a todos, constantemente. Cuidado com a morte. Cuidado! - - alertou.
Othon
--- Mas, o que posso fazer? - - indagou vexado.
Mirtes
--- Use sempre a rosa. - - declarou
O homem coçou a cabeça, pediu licença e saiu a pensar que rosa era essa. O trem passou ligeiro parecendo um louco, para chegar à estação. Do outro lado da linha estava estacionado o carro de Othon. Os meninos empinavam corujas para vê-las indo mais altas. Do lado de fora, um barco de pesca. Um homem a gritar para os seus companheiros.
Pescador
--- Arrocha mais forte! – - gritava o barqueiro.
Outro, lá em cima, passava oferecendo armários e panelas pelo menor preço. Uma mulher olhava o rio e os pescadores do lado oposto colhendo frutos das águas marinhas. Um homem oferecendo velas para os devotos da Santa. Era toda uma confusão desastrada. Após o meio dia, Othon chegou ao seu apartamento. Na entrada do AP, estava a moça Neta a fazer as comidas para os garotos. Ele ficou surpreso com a presenta de Tiago.
Othon
--- Já? - - quis saber.
Tiago
--- Vim buscar a encomenda. - - relatou
Othon
--- Que horas? - - quis saber
Tiago
--- Pouco mais do meio dia. - - relatou
Othon
--- Só esperando. Estou morrendo de fome. - - sorriu
Neta
--- Dona Bebé esteve aqui. - - discorreu
Othon
--- Agora? - - indagou


A MORTE NA ESTAÇÃO - 35 -

- PRAIAS -
- 35 -

ROOSEVELT

Era cedo da manhã. Bem cedo ainda. Othon e seus filhos saíram para um banho de mar, na praia do Meio, logo abaixo do AP onde eles estavam morando por esses dias. Com eles também seguia a secretaria Neta. Essa moça seguia para onde os garotos também prosseguiam. Eles eram assim como carne e unha. E tomar banho de mar manhã, logo cedo, era uma delícia. E a turma seguia com as crianças brincando, sorrido, pulando numa verdadeira algazarra. Neta fica de olhos abertos para algo qualquer, um carro principalmente, vindo aos trambolhões, atropelando as crianças. No caminho, descida para a praia, antes mesmo Othon cruzou com um velho amigo que também caminhava para a praia. Seu nome era Roosevelt, tão conhecido por ser professor de dança, principalmente, para crianças, as de pouca idade até 18 anos. Nesse ponto, ele, o professor, caminhava vagaroso a olhar para frente, a praia por sinal, onde pretendia chegar em algum tempo. De repente, Othon o enxergou de perto. E não foi por acaso que o cumprimentou
Othon
--- Roosevelt? Você? Como estás? - - sorriu.
Roosevelt
--- Olá amigo. Mas quem é você? - - curioso
Othon
--- Não te lembras? Eu estava sempre nos ensaios de suas meninas. “O Lago dos Cisnes! ”, de Tchaikovsky. Lembras? - - indagou cismado
Roosevelt
--- Ah! O Lago. Creio que sim. O Lago. Ainda hoje eu estou ensaiando O Lago. Você esteve? - -
Othon
--- Muitos domingos. - - sorriu
Roosevelt
--- É verdade. Eu comecei naquele Teatro pelos anos de 1975. Antes, já estava um outro professor. Eu estava em São Paulo nesse tempo. Eu era bem novo, bem novo. Eu fui para a capital paulista quando eu tinha 12 anos ou mais um pouco. Nem era estudante. Então, eu me enfurnei pelos teatros. Uns pequenos. Não grandes. Pequenos. E não sabia de nada. E assim conheci a arte. - - disse a olhar bem longe o mar.
Othon
--- E eu segui a carreira em que hoje estou. Receita Federal. Uma loucura. Eu fui transferido para São Paulo. Pensei que era maravilha. Pois sim. Uma merda. Coisa que só quem sabe é quem vai
Roosevelt
--- Eu estou no Município. Ensaiando os meninos. E gente graúda também! Eu penso em largar tudo isso. - - com a cara aborrecida
Othon
--- E partir para o que? - -
Roosevelt
--- Vender cerveja na praia. - - sorriu
Othon
--- Vou te dizer: um bom negócio. Você vai abraçar um novo caminho! Tente e veja. - -
Roosevelt
--- Mas eu estou brincando. Na verdade, eu não sei o que fazer. Sugeri isso por brincadeira. –
Othon
--- Pode ter sido. Mas vender cerveja é um bom negócio. Começa devagar e depois avança. –
E os dois cavalheiros se despediram porque a praia estava alí perto. Racílva e Hervê já estavam bom próximo da água. A menina brincando com as conchas achadas perdidas nas águas do mar e Neta, aperreada, mandando o menino Hervê brincar mais próximo da areia pois a maré estava enchendo àquela hora. Outros peraltas nem se importava. E caíam no mar aberto, mergulhando com entusiasmo, mergulhando já mais para dentro. Othon chegava próximo e tirou a roupa de cima, ficando de calção de banho pedindo a Racílva que onde ele estava era bom de tomar banho. A moça Neta, não disse algo. Pois sua mão à boca a olhar a safadeza da família. O garoto do picolé já passava à frente de Neta gritando para chamar a atenção de todos.
Picolé
--- Olha o picolé. Olha o picolé. Olha o picolé. –
Três moças vinham sorrindo apostando quem chegasse primeiro e mergulharam nas águas. Um vendedor de caranguejo oferecia a Neta a corda do crustáceo. A moça nem queria ver. Dobrou o rosto em sentido contrário. E a vida prosseguia com os vendedores de coco verde, mochilas para guardar o que se precisasse, peixes frescos chaga o cheiro penetrava nas narinas de Neta. Era um dia comum.
Quando chegou as 9 horas, o homem Othon resolveu para o seu apartamento em um edifício existente na rua de cima. Neta pegou o garoto Hervê e a menina Racílva foi dependurada no cangote do seu pai. A essas alturas, o homem nem podia correr como se podia ver da parte de outros rapazes, com suas pranchas ao lado. Ele apenas dizia
Othon
--- Estou um bagaço! Nossa! - -
Racílva
--- Bagaço? O que é isso? - - pulando no cangote do pai.
Othon
--- Bagaço? É como estou! - - sorriu levando a garota nas costas.
Enfim, a turma chegou ao apartamento. O mar, lá embaixo, parecia calmo. Os botes de pesca adentravam pelo rio Potengi enquanto os carros zarpavam pela via Costeira, mais a cima, a procura da praia de Ponta Negra, ficando longe de onde o homem Othon ficou.
Neta
--- Vamos, meninos, tomar banho de água sem sal - - foi o que disse
Racilva
--- Sem sal? O que é isso? - - sorriu com seu rosto alegre
Othon
--- Sem sal é com água doce. - - verificou
Após o banho, veio o café com biscoitos, bolachas e pães assados. Os meninos comeram tanto chega arrotaram de barriga cheia. Logo após, 10.30 horas da manhã. Othon disse a Neta ter que ir ao Banco para sacar algum dinheiro para deixar com a moça e assim, distribuir com os filhos. E em seguida, saiu. Nesse momento surgiu na casa o Tiago. Ele estacionou o caminhão na parte de fora do edifício quase cruzando com Othon de quem não vira nem a sombra. É que Othon saiu para o outro lado do edifício onde morava. Na saída, Othon após de passar na casa bancaria, ele teve uma ideia.
Othon
--- É melhor mesmo eu ir lá. - - disse o homem
Disse o homem. Ele estava na dúvida de quando houve a morte de Norma e desde então teve a preocupação de verificar com pormenor esse óbito. Por isso mesmo teve a intenção de ir à casa de dona Mirtes, mulher de certa idade, conhecedora profunda de almas desencarnadas. Othon já esteve com dona Rita há alguns tempos, porém não queria mais indagar de qualquer assunto com a velha mulher. Certa vez, ao indagar quem teria com certeza resposta para diversos assuntos. Isso ele fez com a senhora Bebé. E essa deu fé a dona Mirtes, moradora no Paço da Pátria. Com assunto em pauta, lá foi Othon seguir para o novo endereço.
Othon
--- O senhor conhece dona Mirtes? - - perguntou a um homem idoso
Velho
--- É aqui mesmo. Ela está lá dentro. Espere que eu vou chamar - - disse o velho
Passado o tempo, veio a mulher de um tamanho de quase nada, 1.50 metros de altura, e se dispôs a saber.
Mirtes
--- Bom dia. Eu estava esperando por vossa mercê. Vamos entrar. Entre. Cuidado com o cão. Puxe um tamborete.
Othon adentrou e ficou meio confundido para o que disse a mulher miúda.
Othon
--- A senhora me conhece? - - quis saber.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A MORTE NA ESTAÇÃO - 34 -

- BAR -
- 34 -
ESTIVAL

Em um dia qualquer do verão onde não se sabia quando era a data de ir para São Paulo, o homem Othon e suas acompanhantes, Racílva, Hervê e Neta – a quem Norma confiava seus rebentos – chegaram ao Bar de dona Bebé quando houve a apresentação dos dois filhos gêmeos. Neta tomava conta dos pequenos enquanto Othon apresentava as crianças. Bebé, toda corada, com riso franco, agarrou o menino dizendo coisas amáveis e em seguida, a menina com fartura de benção.
Bebé
--- São esses os seus filhos? Que maravilha! Norma falava tanto em vocês! - - elevado ao alto
Hervê
--- Água! - - pediu o menino
Bebé
--- Quer água. Damiana, traga água para os inocentes. - - sorriu e os beijou no alto.
Damiana veio com pressa trazendo água e Bebé continuava a conversa. Queria conhecer as duas crianças e o que elas já sabiam fazer. Se a doméstica era amiga. Se papavam nas horas certas. Que comidas preferiam. Quem fazia para eles. Isso e mais. E os garotos ficaram amigos de Bebé a ponto de chama-la de segunda mãe porque era ela a única querida das crianças. E Bebé sorria a contento com tanta graça do casal de infantes.
Racílva
--- Mamãe dizia que queria muito bem a você. - -
Bebé
--- Verdade? Ela, agora, está no céu. - - sorriu com a menina em abraços.
Racílva
--- É longe? - - indagou comendo puxa-puxa
Bebé
--- Não. O Céu é perto. - - disse sorrindo elevando a menina em seus braços
Racílva
--- Eu posso ir lá? - - quis saber com suas puxa-puxas.
Bebé
--- Pode. Todos nós podemos. - - agarrada à menina pousando ao alto e sorrindo.
Hervê
--- Eu também vou. - - relatou o menino se agarrando à mulher.
Bebé
--- Nós vamos. Todos nós. Juntos! - - e se agarrou às crianças.
Após essa delicada menção Bebé se voltou para Othon e indagou quando era então a partida para o Sul do país. Othon informou saber ser depois do 7º dia do falecimento de Norma, pois não sabendo se ela era cristã, de toda forma havia a intenção de se celebrar missa em penitencia de sua alma.
Bebé
--- Onde vai ser a Missa? - - indagou
Othon
--- Na capela do sítio mesmo. La, dona Rita tem uma capela. - - respondeu
Bebé
--- Depois disse, a família segue para o Sul? - -
Othon
--- Querendo Deus. Só tem um problema. Quem vai cuidar dos meninos. A moça, Neta, tem receio de ir. Diz ser longe. E desconhece tudo em terra estranha. Eu disse: não tem nada de estranho. Neta indo, é o mesmo que cuidar dos rebentos como se estivesse no sítio. Ela não vai se incomodar cm comida, com médico, com parques. Com o tempo ela se acomoda. - -
Neta
--- Tem frio. A cidade é uma zoeira. Eu me incomodo é com isso. E os meninos também - -
Bebé
--- Os meninos ficarão velhos, um dia! Ninguém sabe o futuro! Nem eu, nem você, nem ninguém.
Neta
--- Eu sei disso. Mas por mim eu não ia para São Paulo. O povo tem uma sanha por São Paulo. Eu, não! Prefiro morrer aqui mesmo. - - relatou
Bebé
--- Não dia isso. Tem países mais distante que São Paulo. A China, o Japão, o Vietnam. Eu, certa vez, tive com um rapaz. Ele era pintor. E me disse que tinha andado mundo a fora. Tailândia, Vietnam, Bancoque e tantos outros. E de lá esteve no Rio, São Paulo, Recife e Natal. - -
Neta
--- Sei não. São Paulo? Só tem mosquito. - - com cara azeda 
Othon
--- Pode ser que tenha. Eu acredito que haja mosquitos. Mas, nunca nenhum de ferrou. –
Bebé
--- Mosquito tem em toda parte. Paraíba, Pernambuco, Amazonas. Todo canto. Ora mosquitos
Neta
--- E a senhora seria capaz de ir? - - indagou
Bebé
--- Eu tenho meu estabelecimento. Não vou deixa-lo. - -
Neta
--- A não ser que tenha uma oferta melhor, não é isso? - - insinuou
Bebé
---Aqui, eu sou a dona. Apenas isso. - -
Othon
--- Vamos deixar de besteira. Os meninos querem Neta, e pronto. - -
Bebé
--- E estamos conversados. - - sorriu
Após toda aquele deus-nos-acuda Othon se despediu de Bebé dizendo que ainda voltava, um dia, ao seu boteco. Agora era vez de mostrar aos garotos o Teatro onde ele este assistindo uma peça com Norma tempos atrás. Algo magistral. E então, foi ele e sua turma para ver o teatro no mesmo bairro. Ao chegar ao Teatro, ele encontrou uma funcionária. A moça sorriu e indagou o que podia fazer pelas crianças além do Othon e Neta.
Othon
--- Nós estamos em visita ao Teatro, apesar de não ter atividades agora. - - sorriu
Funcionária
--- É verdade. Nós estamos em reparo no Teatro por esses dias. Mas, se é para visita, pode entrar. Mostrar o palco, as poltronas. Mas tudo está em obras - - respondeu com sorriso na face.
Othon
--- Certamente. Certamente. Eu pretendo mostrar as crianças o que se pode mostrar, evidente. Podemos ir? - - indagou solidário.
Funcionária
--- Pois não. Pode se acercar. Somente tem o palco bem desarrumado. - - disse a mulher.
Othon
--- Evidente. Faz tempo que o Teatro está desse jeito? - -
Funcionária
--- Dois meses. Mas, não demora muito. Menos de um mês. Já temos Companhia em programa.
Othon
--- Ah. Que bom. Um Teatro é uma vida! - -
Funcionária
--- Esse é um magnifico Teatro. É do início do século XX - - sorriu e acompanho os visitantes
Othon
--- Eu sei. Eu estive várias vezes aqui. Hoje moro em São Paulo. Mas, quando posso, venho ao Teatro - - 

domingo, 4 de dezembro de 2016

A MORTE NA ESTAÇÃO - 33 -

- CAPELA -
- 33 -

COMOÇÃO

Apesar de não professar religião, Othon viu-se obrigado a permanecer no sítio de dona Rita à espera dos 7º Dia quando celebrada a missa por intenção da alma de Norma morta sete dias antes na linha férrea do trem. Enquanto isso, o senhor Othon passou a vida a procurar um monte de segredos, de artigos, entre outras coisas no AP de Norma onde ela guardava boa parte de sua pouca existência. Nesse tempo, Othon ficara só e, às vezes, na companhia de Tiago eu de nada servia nessa busca e a reparar o seu caminhão. Certa vez, Othon encontrou várias lembranças de viagens, motivos de festas como as das praias onde os dois sorriam entre os muitos que festejavam um casamento de antigamente. Othon sorrio dessa vez pela face da mulher que se tornava engraçada. Retratos, retratos, retratos. Quantas emoções vividas. A de uma torcedora pelo time da Alemanha que jogaria no estádio de Berlim em um dia qualquer. Era ela, a torcedora ovacionando a torcida alemã. Em outras ocasiões, a visita aos jardins floridos de Berlim onde Norma sorria por tudo e por nada com uma porção de flores. No Teatro de Berlim, um caso inusitado. Um homem gigante de pernas de pau tocando falta e Norma a observar sorrindo. O Teatro da Ópera da cidade. A vista do lado de fora do teatro com seus bonecos gigantes. Um festival de beleza. O Teatro foi construído em 1802 e apresenta todos os anos peças de boa marca, como “A Luta dos Sertões”. Othon caiu em prantos ao lembrar tudo o pode ver. Nesse momento, chegou ao AP o amigo Tiago. Esse, falou.
Tiago
--- Fotos? Quantas fotos. Puxa. São de Norma? - - indagou
Othon
--- Sim. Eu e ela. Quando visitamos a Europa. - - declarou
Tiago
--- Interessante. Vai publicar? - - indagou
Othon
--- Não. Guardá-las todas na memória e no baú. - -
Tiago
--- Eu sendo o senhor, mostrava para que todos vissem. - -
Othon
--- Para os outros, isso não tem importância. Apenas para Norma. - -
Tiago
--- E para o senhor, é claro. - -
Othon
--- Eu perdi o gosto por tudo isso. Agora é lembro. As visitas feitas. Coisa maravilhosa. - - chorou
Tiago
--- É. A gente vive e depois morre e ninguém sequer pergunta. - - entristecido
À tarde, Othon foi a cidade sem querer rever o local da tragédia e passou pela Ribeira, no bar de Bebé, pessoa que nunca mais tinha visto. Ao chegar, foi aquela alegria. Mas, Othon estava triste, muito triste e quase não falava. Apenas o olá e procurou uma mesa desocupada onde ele procurou sentar. A mulher ficou não dúvida sem saber o que dizer. Enfim, ela também sentou e procurou um meio de falar
Bebé
--- Está triste? - - indagou surpresa
Othon
--- Norma! Morreu! - - disse assim e chorou.
Bebé
--- Não. Você está brincando! Fala sério! - - forçou Bebé.
Após alguns minutos de chorou, ele então falou.
Othon
--- Morreu. Morreu. Eu não era mais casado e ela se sentiu menosprezada e pulou na linha do trem. É o que eu suponho. - - lágrimas imensas.
Bebé
--- Menino! Como é que pode? Eu ouvi na TV uma notícia de uma moça que se jogou no trilho.
Othon
--- Foi ela. Toda desconforme. Eu estou em São Paulo. E um rapaz me telefonou dizendo o sucedido. –
Bebé
--- Crueldade. Ela, certa vez, esteve aqui e conversamos. Ela falou no tal divórcio. Estava magoada. Muito triste. Mas não falou em um caso de ter que morrer. - -
Othon
--- Às vezes a pessoa morre sem saber nem por que. Apenas morre! - -
Bebé
--- E as crianças? - -
Othon
--- São duas. Elas estão no sítio da mulher que toma conta. Eu vou leva-las para São Paulo. –
Bebé
--- E a outra mulher? Já sabe? - -
Othon
--- Se você sabe por que Maria não sabe? Eu ainda não falei com Maria. - -
Bebé
--- Eu sei porque Norma contou que você estava com outra. Essa Maria. - -
Othon
--- Eu nem pensava em ter ninguém. Mas você veja: sozinho, mulher nova. Então eu fui. - -
Bebé
--- Vocês são uns bobos. Bocó. Isso é o que são. - - e deu um tunque com a boca virando o rosto
Othon
--- Não é assim. A gente apanha, apanha e, depois, vem a rebordosa. Foi isso o que deu. –
Bebé
--- E as crianças? Quem vai tomar conta? - -
Othon
--- Não bem. Mas devo levar a moça que toma conta desde que nasceram. A moça não quer ir.
Bebé
--- Mostra a peia p’ra ele que num instante vai! Essas porras! - - falou com brutalidade
Othon
--- Não diga isso. A moça é direita. E agora tem Maria. –
Bebé
--- Tá vendo? Tá vendo? Logo duas! - - estonteada
Othon
--- Não é isso. Eu quero saber o que eu faço? - -
Bebé
--- Coma as duas seu tarado! - - enfezada.
Othon
--- Não fale assim. Eu não sei o que faça. Eu levo? - -
Bebé
--- Não é para comer? Leva tudo! Parece gato! - - aborrecida
Othon
--- Você é foda! Eu não faço isso. Pergunto se ela vai? - -
Bebé
--- Se vai? Eu já estava lá. Não é para foder? - -
Othon
--- Não tem graça. Ela é uma moça. –
Bebé
--- E as outras também eram. Glutão! - - com raiva 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A MORTE NA ESTAÇÃO - 32 -

- AEROPORTO -
- 32 -

DANAÇÃO

Tiago, com mais cuidado, voltou a relatar o trágico acidente, na parte da manhã, a senhora Norma a saltar de uma mureta para a sinistra morte. Não se sabia até aquele instante o motivo da ação da mulher. Sobe-se apenas que ela saltou e morreu numa tragédia sinistra. O seu corpo continuava àquela hora do necrotério a espera de familiares. E era prudente Othon vir para a identificação conclusiva na senhora Norma. Os filhos de casal estavam abandonados em casa de conhecidos de Neta. Era tudo o se tinha a declarar. De impacto, o homem saiu para o aeroporto a procura de passagem para Natal o mais breve possível. Maria ficou estarrecida com a notícia da plena morte de Norma.
Maria
--- Que loucura! - - falou atormentada.
Othon conseguiu passagem para Natal e, como um louco, adentrou na aeronave sentindo-se um homem solitário diante da notícia da morte inusitada de Norma. A sua cabeça rodava a mil com ele não sabendo a razão do óbito da ex-esposa de um momento incomum.
Othon
--- Diabos! Por que ela fez isso? - - perguntava aborrecido
Três horas e meia de voou com o homem a chorar constante por não saber o que fazer numa inquieta hora como a que estava sofrendo. O Boeing pousou na exata hora e Othon pegou a sua mala seguindo em taxis direto para o necrotério, para ele, onde devia estar o corpo de Norma devidamente embalsamado em uma urna trancada a espera apenas do ex-marido. Ele não sabia o que fazer
Othon
--- Estou louco! O que eu faço? - - indagava consigo.
Quando o taxe chegou havia apenas Tiago. Era madrugada, quase manhã, os cadáveres já estavam embalsamados a espera de parentes para leva-los. Norma era um deles. Othon entrou com Tiago no reservado, com certeza para reconhecer a vítima. Um técnico falou não poder mostrar-lhe pois o corpo estava plenamente lacerado.
Atendente
--- Nós juntamos aos pedaços. Braço para um lado, corpo para outro, crâneo esbagaçado. É uma lástima. A sua identificação se deu peles vestes, sapato. Coisas assim. Logo pusemos na urna e nada mais podemos fazer. - - disse o atendente lamentando.
Othon chorou copiosamente pelo estrago feito no corpo de Norma, linda mulher, transformada em verme a ser sepultada no sarcófago que Othon procurou adquirir às poucas horas da manhã. Gente da família, muito pouca. Neta, Tiago, dona Rita, parentes, os filhos de Norma e mais algumas pessoas, além de Othon. Chovia torrencialmente na capital àquela hora da tarde, ainda cedo. Os filhos, todos juntos, nada compreendiam do que era feito naquele instante.
Hervê
--- É minha mãe? - - perguntava sem saber a razão
Neta
--- Sim, filho. Ela foi para o Céu. - - disse a secretaria fazendo esforço para não chorar
Racílva
--- É longe? - - perguntou Racílva
Neta
--- Não. É próximo. Bem perto. - - salientou chorando.
Hervê
--- E por que o povo chora? - - olhando em volta
Neta
--- Quando a gente viaja, sempre deixa saudades. - - comoção
Racílva
--- Eu queria ir para o Céu! - - lamentou a garota
Neta
--- Nós vamos. Um dia nós estaremos juntos. - -
Hervê
--- Juntos assim? - - e agarrou Neta pelo pescoço
Neta
--- É assim mesmo. - - chorou por demais
Acabada a prece encomenda por um padre das proximidades, deu-se o enterro. A chuva era tanto que as poucas pessoas voltaram para um terraço onde se podia divisar em melhor espaço o que se passava em pleno local, encobrem-se da grossa chuva. Carros da funerária ficaram a postos do lado de fora do cemitério. Os homens, ao longe, temendo do temporal conversavam com os demais assuntos banais. Bom próximo, uma mulher de braços cruzados, observava a todos. E a chuva não parava com raios e trovões.
Após o sepultamento, os que moravam no sitio, votaram para os seus cantos, inclusive Neta, os meninos e Othon mais o seu companheiro, Tiago. Esses, utilizaram mesmo o caminhão. No sitio, onde Othon tinha uma casa podia se agasalhar, com certeza. O choro vertia lágrimas nos olhos de Othon. Ele queria apenas saber o caso porque Norma cometeu suicídio. E lembrava-se de todos os momentos pelos quais passaram naqueles remotos idos. A cabeça doía como não pudesse mais suportar.  Um violão longe, tocando plangente trazia viagens remotas que ambos fizeram com risos e casos comuns sem nunca mais esquecer. Devagar, o sono chegou até ponto de adormecer na rede armada no alpendre da casa velha e ampla.
Na manhã seguinte, Othon acordara por volta das 7 horas, ainda tonto, a lembrar de um sonho que tivera pela noite e não se recordava deveras. Logo em seguida, foi até a casa de tia Rita para rever os meninos e acertar a viagem de Neta quando ele voltasse a São Paulo. Ele nem sabia de Neta queria ir para São Paulo. Todavia era importante comentar esse assunto porque, por vias das dúvidas, ele era o pai das crianças. Fazer doação estava fora de questão. Levá-los era o melhor. Porém teria que se levar com uma protetora. E essa protetora seria então a moça Neta, a mais conhecida das crianças com que eles se apegavam parecendo um grude.
Neta
--- Sei não. São Paulo? E eu conheço essa cidade? - - com cara feia.
Othon
--- Eu também não conhecia, e fui. Porque viver naquele AP não vai dá certo. Não é por mim, você bem sabe. As crianças, principalmente. - - alegou
Neta
--- Mas eu não conheço nada naquela terra. - - falou com rosto franzido
Othon
--- E não precisa de momento. Você chega e vai conhecendo. Colégios, esses são os mais simples.
Neta
--- Isso é uma merda! Desculpe! E dinheiro?  - -
Othon
--- Isso eu tenho. Não se importe. Mesmo o seu dinheiro. Eu não sei nem quanto você ganhava aqui. Mil e 500 ou 2.000 mil. Por esse meio! - -
Neta
---Pelas crianças eu não cobro nada. Nem por dona Norma, eu cobrava um tostão. Ela me dava o que queria.
Othon
--- Eu sei quanto Norma pagava a você. Sei inclusive o seu FGTS, o que você tem direito. - -
Neta
--- Pois é. Eu ia pagar e pronto. Eu nem sabia quanto. - -
Othon
--- Mas você vai! - -
Neta
--- Minha avó é quem decide. - - falou com a boca quase fechada
Rita
--- Eu? Você é quem decide. Os meninos carecem de cuidados. - - falou Rita
Othon
--- Eu não quero encrenca. Minha maior besteira é ter me divorciado de Norma. - - enlouquecido
Rita
--- A gente só sabe o que está errado depois que erra. - - falou Rita
Othon
--- Eu, hoje, não a culpo. Eu bem podia ter visto antes. - - falou soluçando.