sábado, 6 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 07 -

- A FOME -
- 07 -
CRIANÇA 
Quando Lauro chegou a redação, no início da tarde daquele dia, já não tinha mais nenhum repórter da manhã. 0 Diretor do jornal O Estado foi verificar a produção da manhã tecendo as anotações feitas. Uma e outra e, finalmente chegou ao texto do morto no Forno do Lixo. Com bastante atenção, Lauro verificou a matéria e logo declarou.
Lauro
--- Garota de sorte. Sua primeira intervenção. Muito bom. Vai para primeira página. Vejamos o restante. - - e de imediato verificou o texto.
Lauro leu e releu para ter certeza do que havia textualizado e de repente, gritou:
Lauro
--- Caramba! Não pode ser? Outra? Como é que pode? Criança catando Lixo? Eu estou sonhando. Oh Marilu! - - gritou o chefe.
O repórter da tarde que estava catando máquina, se levantou e foi ver o que o seu chefe queria.
Repórter
--- O senhor me chamou? - - indagou perplexo
Lauro
--- Não. Pode sair. Puta Merda. Ela fez duas matérias. Cada uma melhor que a outra. Vou colocar o seu nome em estampa. Logo duas?
Canindé vinha chegando do laboratório fotográfico e pegou o seu chefe ainda eufórico. E informou que tinha as fotos do defunto e da criança comendo lixo.
Canindé
--- Estão aqui as fotos. Se quiser mais. Eu tenho. - - relatou.
Lauro
--- Veja essa matéria? A da criança. Como pode fazer essa matéria? - - exaltado
Canindé
--- Está ruim? – - indagou espantado
Lauro
--- Que nada! Isso é uma obra de arte. Vai percorrer o mundo. Quero ver a cara dos vereadores! Só quero ver! - - disse com bravura.
Canindé sorriu e declarou ainda que a repórter era brava.
Canindé
--- Imagine só. Esse é o começo de Marilu. - - e saiu colhendo suas fotos em sobra.
À noite, quando passava das seis, Marilu chegou a redação do jornal e toda gente estava a esperar para cumprimenta-la. A moça tomou um susto por não entender do que estava ocorrendo. Homens, principalmente da redação sorriam e batiam palmas para a moça. O jornal não tinha saído ainda. Apenas na manhã seguinte. Mas os curiosos tomaram ciência em ver primeiro da matéria. Lauro estava em seu gabinete se só tomou conhecimento da presença de Marilu quando essa chegou ao topo da escada seguida por diversos colegas onde quase nenhum repórter a conhecia. Mesmo assim, todos batiam palmas pela matéria da Criança do Lixo.
Repórter
--- Como você descobre a criança? - -
Marilu
--- Ora. Buscando notícias. - - relatou
Reporter-1
--- Eu nunca fui naquele forno. - - querendo vomitar.
Marilu
--- Pois vá até lá. Crianças muitas. Lá tem sacos de todo tipo de lixo. Mulheres quase mortas, esfarrapadas, cantado lixo vindo das ruas nobres. Lixo chama lixo. Montanhas de detritos. Nuvens de insetos. Ratos. Cada um que nem você pode pensar. Urubus aos montes. Além disso tem ralos de água, borracharias, hortas, calhas, piscinas não tratadas, cacos de vidros e até vasos de cemitério. - - reclamou
Repórter- 2
--- É um descaso. E ninguém faz nada! - - triste.
Marilu
--- Suínos criados soltos. Um homem matava um bode! Que horror! Uma tragédia! - -
Nesse instante, o Diretor do Jornal, Lauro Almeida, saiu apressado do seu gabinete de trabalho e foi encontrar a senhorita Marilu. Tão depressa ele chegou ao local onde a moça caminhava que ele sem mais e nem menos se apressou em pegar com suavidade Marilu e a acompanhou para o seu gabinete de trabalho. O seu coração badalava mais que um bombo.  Puxou a cadeira para a moça e logo ficou sentado em sua escrivaninha esperando o coração aquietar-se. Com esse tempo, a olhar para o teto do jornal, discorreu com pressa.
Lauro
--- Moça! Que maravilha eu poder ter visto a matéria do menino! Que negócio supremo! Eu quero saber que nome eu uso para pôr como sendo você mesmo? - - disse ele extasiado.
Marilu
--- Que susto o senhor me fez! Chega eu estou tremendo de medo! Puxa! Nome? Mas, o senhor pode usar um meu. Marilu. Ou outro completando o primeiro. Mas eu digo sempre que é Marilu. - - disse a moça
Lauro
--- Está bem. Eu, agora quero assinar você como “correspondente”. Você já é de maior? Marilu
--- Não. Faltam poucos meses. Dois para completar 18 anos. - - respondeu de fato ainda tremendo de susto.
Lauro
--- Maravilha! Quem foi o fotógrafo? - - quis saber
Marilu
--- Fotógrafo? Canindé. Fomos eu e ele. E o motorista também. Mas a matéria fomos nós que fizemos. Eu e Canindé.
Lauro
--- Está bem. Vou chama-lo. - - e depressa, ele procurou Canindé na sala do laboratório onde ele e mais dois fotógrafos estavam a trabalhar na revelação de filmes. E ele chamou Canindé e esse disse esperar um minuto. Lauro voltou ao seu escritório e chegando, se sentou a sorrir com as mãos cruzadas no busto. E de imediato, ele se recostou na cadeira. Canindé não demorou a chegar.
Canindé
--- Pronto, chefe. Que mandas? - -
Lauro
--- Apresento-lhe a artista. Que furo de reportagem. Duas se possível. Mas a maravilha é a do menino. - - sorriu.
Canindé
--- Tem outra. - - e olhou para a moça
Lauro
--- Outra? Qual? A do garoto? - - espantado
Canindé
--- Ela é quem sabe. Diga a ele, Marilu. - -
Marilu
--- Não sei se vale a pena. Mesmo assim, eu vi no Matadouro um homem decepando um bode. Não era muita coisa. Porém tinham porcos. Vários. Todos mortos e alguns para serem mortos. Cabritos. Tem também a chamada “Salgadeira” onde mulheres tiram as tripas do boi e em compensação levam para casa os corações dos animais como pagamento. - - disse a moça
Lauro
--- Crueldade! Como pode se fazer uma coisa dessas. Mas, sem mesmo autorização da Prefeitura? - -
Marilu
---O Prefeito faz vistas grosas. 


SONHOS DE MARILU - 06 -

- CADÁVER -
- 06 -
CADÁVER 

Após tomar informações de todo o conteúdo onde morreu o ancião Tarugo, a jovem Marilu voltou à redação do jornal O Estado temendo ter espado de algo que não anotara, por descuido. E assim ela conversava com Canindé o que mais havia no Forno do Lixo para se falar além da morte do ancião. E por isso, Canindé foi ditando a questão de lixo humano encontrado nos hospitais, nos mercados, nas residências e em vários pontos da cidade. Lixos que têm vários aspectos. Os resíduos domésticos, sólidos urbanos, industrial, hospitalar dentre os mais.
Canindé
--- As crianças são as mais vulneráveis. Você viu uma criança comendo um bolo de chocolate apodrecido? - - perguntou
Marilu
--- Confesso que não observei. - - assustada
Canindé
--- Tinham mulheres mal arrumadas catando o lixo. Nós vivemos em uma sociedade que consome muitos recursos. É a sociedade de consumo que consome muitos produtos, como carros, enlatado, bebidas e livros. Mas nem sempre foi assim. Durante a II Guerra Mundial, os materiais e recursos eram escassos. Em nosso país há pessoas que sobrevivem com a reutilização do lixo. Até mesmo para se alimentar de coisas podres. Você viu as verduras apodrecidas? - - indagou
Marilu
--- Isso eu vi, mas nem prestei atenção. Só olhava para o defunto. - - preocupada
Canindé
--- Nem viu os urubus? Ratos, porcos, cães. A cidade cresceu demais. E as pessoas de bem querem ter uma boa alimentação e artigos de luxo. A população rural deixou o campo em busca da vida na cidade. Pense nisso. - -
Marilu
--- Isso é o que se chama de penúria para os pobres, miseráveis, degredados. Eu estou a entender agora. - -
Canindé
-- É isso e muito mais. Eu, por ser negro, não posso morar em uma casa de luxo. Tenho que residir em uma tapera. Os ricos, esses podem. Tem dinheiro. Esbanjam. Comem bem e de tudo. Os pobres, miseráveis, vivem do lixo, das sobras. –
Marilu
--- Como você é cruel! - - falou ressentida
Canindé
--- Essa é a verdade. Observe o que você joga fora todos os dias. Latas de bebidas, saquinhos de restos de comida, papeis, garrafas. Coisa assim você encontra na lata do lixo. Tudo o que não se consome é refugo. - - explicou
Marilu
--- Na sua opinião o que se deveria fazer? - -indagou
Canindé
--- O que é refugo joga-se fora. Mas, não deixar para a gente pobre em condições comer. O pobre deve ter melhores condições de viver e de sorver os alimentos. Não, tirar do meio do lixo entre ratos e urubus. - - com ênfase
Marilu
--- Nisso, você tem razão. Mas, como então se deve fazer para o pobre evitar o lixo? –
Canindé
--- Do jeito que a coisa vai, a solução é matar o lixão, mesmo. Mas, para se evitar o negócio é tirar o pobre do lixo e comanda-lo para um setor adequado e evitar ter o pobre apenas o lixo para devorar com ânsia. Não se mata a fome comendo lixo. - -
Marilu
--- Isso é difícil. Muito difícil. A pobreza é uma condição de vida. Eu vejo, no mercado, o pobre comendo lixo do lado de fora, na calçada, onde se deixa monturos de frutas, carne de gado, galinha, até mesmo de suínos. - - imaginou de repente
Canindé
--- Isso, reflete a desigualdade social entre a população. Ricos, mais ou menos e apenas miseráveis. Gente carente do interior que vem para a cidade. - - relatou
Marilu
--- Também tem a seca que assola o interior. Bichos mortos. Os fazendeiros não dão comida a ninguém. - - disse ainda
Canindé
--- Tem crianças, pequeninas, pedindo esmola de qualquer coisa para matar a fome. Meninos, mesmo além de pobres mendigos. Gente humilde. Velhos e crianças. Gente procurando sobreviver do lixo. - - falou com certo desprezo à riqueza.
Marilu
--- E essa matéria, por onde eu começo? - - indagou
Canindé
--- Eu acho melhor começar pelo defunto. Faça uma inteligente matéria. Depois, faça a outra, do Forno do Lixo. Duas. Separadas. Bem distintas. - - respondeu
Marilu
--- É mesmo. É o que vou fazer. Faço uma e, depois, faço a outra. - - falou a moça.
Com isso a moça se aquietou. Pensava muito de como iniciar a matéria do morto vindo na manhã bem cedo entocado na carroçaria do caminhão coletor. Teve que ver outras matérias iguais ou semelhante de formas ser possível iniciar o seu assunto. E de vez Marilu começou desse modo: Cadáver do Forno do Lixo. Estava iniciado o assunto. E então Marilu relatou em todos os pormenores o achado macabro do meio do lixão que o caminhão coletor despejou entre montes de outras matérias, como carnes podres, peixes estragados, apuros e porção de frutas podres. Seu nome foi identificado por José Meira conhecido simplesmente Tarugo. Ele era um mendigo dos seus sessenta anos e vivia a catar lixo pelas ruas da cidade. O mendigo vivia nos lixos catando o que podia para saciar a fome ingrata pela qual passava. Já nem sabia dizer o seu nome ao certo e pensava que a sua sobrevivência dependia do que podia colher. Entre restos de comidas era tudo que ele consumia do lixo comum. Tarugo já nem posava mais em papelão, pois o lixo comestível era bem melhor. A sua mulher era outra a catar os lixões. A mulher, seus filhos, genros. Todos afinal. A moça progrediu até o final da página. Mostrou a matéria ao fotografo e esse deu algumas pistas para por demais encorajar o assunto. Ela concordou e voltou a teclar. No fim, deu por certo.
Marilu
--- Pronto. Acabei. Vamos ver o que o chefe tem a dizer. - -
Canindé
--- Ele, nada vai falar.
Marilu
--- E agora? - - quis saber
Canindé
--- Faça a outra. A do menino catando lixo. - -
Marilu
--- Criança catando lixo. É melhor. Vamos à frente. Essa é forte. O lixo está matando nossas crianças. Esse é o início. - - declarou contente
Canindé
--- Muito bem. É assim que se faz. Para frente. - - sorriu
Marilu
--- Nem ache graça. Eu vou ver como faço. - -
Canindé
--- Conte a história do menino. Invente. Crie. Faça qualquer coisa. Eu tenho as fotos. –
Marilu
--- Ótimo. Vou fazer. - -
Canindé
--- Quer saber? Um nome. Neném! Era como se chamava o pequeno. Eu ouvi a mãe dele falar. -   
       

sexta-feira, 5 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 05 -

- LIXÃO -
- 05 -
CONVITE 
Na sequência, Lauro explicou ainda a Marilu que um repórter é um tipo de jornalista que pesquisa, escreve e relata as informações para apresentar as fontes, conduz entrevistas e faz relatórios. Há vários tipos de jornalistas com editores, escritores, colunistas e jornalistas visuais, o fotojornalista.
Marilu
--- É difícil se ser jornalista? - - quis saber
Lauro
--- Creio que não. O jornalista nada mais é um contador de histórias reais. - -
Marilu
--- E o que eu faço para ser uma jornalista? - -
Lauro
--- Você conta a sua história. Por exemplo: você vai à praia e vê rochas, areia, nada é calçado, mocambos, homens a puxar a rede do mar ou mesmo sem puxar essa rede. Você vê um assunto bem variado. Então, você tem um assunto para contar. - -
Marilu
--- E que vai ler? - -
Lauro
--- Então, aí depende da sua sagacidade. Um exemplo: quem lê sobre lixo? Ninguém! Mas se a matéria for bem escrita várias pessoas têm, de imediato, o seu interesse. Os vereadores, o prefeito e até mesmo a gente humilde. Quantos garis tem a cidade? Dez? Vinte? Quanta gente pobre sobrevive da coleta de lixo? Você sabe? - -
Marilu
--- Confesso que não sei.  Mas tem até crianças comendo o resto das sobras. Eu digo porque conheço aquelas pessoas. Gente humilde mesmo.
Lauro
--- Quer fazer uma boa matéria? Faça sobre o lixo! Faça isso e depois conversamos!
Marilu
--- Agora? - - perguntou assustada
Lauro
--- Hoje, amanhã, depois. Qualquer dia. Se você for fazer a feira, vai encontrar tanta pobreza como riqueza. Esmoler é o que não falta.
Marilu
--- Meu Deus do céu. Eu faço mesmo a matéria do lixo? – quis saber assustada.
Lauro
--- Faça. E me traga para a revisão. - - alertou.
No dia seguinte, a moça estava logo cedo do dia em frente à sede o jornal esperando o carro de reportagem para ir ao forno do lixo. Com ela estava Lauro, o fotografo e o motorista. Lauro orientou ao motorista levar a repórter até o forno do lixo, e ao fotógrafo, fazer fotos de todo o local. As coisas mais escabrosas. Gente, bichos, meninos, coisa ainda de se comer. Tudo enfim. O fotógrafo Canindé compreendeu e nada relatou. Apenas chamou o motorista. Esse, toco a chave e saiu em frente no seu carro.
O Forno do Lixo ficava em uma esquina da via férrea, logo abaixo da curva onde o trem fazia a manobra. Meninos procuravam o que comer do lixão. Mulheres de roupas sujas catando o que pudessem para se alimentar, como carne podre, peixes apodrecidos e verduras sujas. Moças de vestes rotas também colhendo coisas podres, detritos vindos das ruas das casas de gente de bem. Essa era a forma de se alimentar uma vez que não tinha renda e viviam abaixo da linha da pobreza. Uma existência da fome em uma região tão rica era uma contradição difícil de compreender. Em frente, o rio levando tudo para o mar.
Naquele instante adentrou no Forno um caminhão do lixo para onde os mendigos correram com mais pressa. Os pobres queriam catar o lixo e pegar o que de melhor havia para ingerir com pressa. O Caminhão soltou uma das portas da carroçaria que estava trancada. O monturo caiu pelo chão e no meio de tudo estava um cadáver de um mendigo. Ninguém prestou atenção ao mendigo morto de imediato. No entanto um coletor de lixo aguçou os olhos e disse ao motorista ter um defunto dentro do caminhão. O pessoal pobre nem mesmo prestou atenção. O motorista foi ver e perguntou quem foi que viu o morto.
Motorista
--- Quem sacudiu esse mendigo? - - quis saber
Gari
--- Ele é um mendigo chamado Tarugo. Vive a catar lixo. - - relatou o gari
De repente, o fotógrafo avançou para fazer suas fotos, seu material de trabalho. A moça Marilu foi quem mais gritou, alarmada.
Marilu
--- É um homem. Ele está morto! - - disse isso prendendo o rosto com as mãos.
Motorista
--- Ele caiu de dentro da carroçaria do caminhão. - -
O fotógrafo continuou a registrar a imagem do morto da forma como o defunto veio ao chão.
Marilu
--- Quem é ele? - - quis saber
Gari
--- Tarugo. Ele vivia perambulando pelo Forno. - - falou o gari
Marilu
--- Tarugo de que? - - perguntou mais.
Gari
--- Zé Tarugo. Um velho. Vivia zanzando pelo lixo. - -
Marilu
--- Ele tinha família? Filhos? Irmãos? Parentes? - -
Gari
--- Não sei. Pouca gente sabe. Tinha um rapaz, seu filho, que vivia na sucata do Forno.
 Motorista
---É José Meira. A gente chamava de Tarugo. E você, quem é? - -
A moça se empertigou e disse.
Marilu
--- Jornalista. Senhor. - - relatou com toda ênfase
Motorista
--- Pois é. Não tenho mais nada a falar. –
Nesse instante se aproximou um homem parecendo ser um gerente do Forno e procurou saber o que ocorrera ali no monturo com tanta gente a colher o lixão no meio de um defunto.
Gerente
--- O que houve aqui? - -quis saber ao desespero
Motorista
--- Um morto estava no lixo. - - relatou
Gerente
--- E a senhorita o que quer? - - indagou embrutecido
Marilu
--- Sou Jornalista do Jornal O Estado. - - falou brava
Gerente
--- Do Estado? Do Senador Almeida? - - perguntou amofinado
Marilu nem sabia desse tal Senador. Tudo que ela conhecia era seu Lauro. Se era Almeida, não sabia também. Mas por via das dúvidas o fotografo Canindé confirmou tirando fotos do gerente.
Canindé
--- Sim. Somos do Jornal. - - 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 04 -

- TIPOGRAFIA -
- 04 -
REDAÇÃO -


O carro seguiu caminho do Palácio para o bairro da Ribeira, descendo a ladeira da avenida Junqueira Aires e Marilu ouvindo a conversa de Lauro sobre jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, e até mesmo do estrangeiro como Le Figaro e Le Monde, com certeza, a influência da imprensa das guerras e na paz em todo o mundo. As primeiras publicações como a Suméria, na Mesopotâmia e Acta Diurna, do imperador Augusto, em Roma. Tudo isso ela ouvia em silencio. Era um mundo novo que se abria com certeza para quem sabia apenas de carne e peixe, tapioca, pamonha e coisas simples da vida. E então seguiram viagem até a avenida Tavares de Lyra onde estava a redação do Jornal O Estado em um prédio amplo de dois andares pegando de uma esquina a outra. Veículos eram tantos que para se encostar o seu carro, o motorista teria que fazer imensas manobras. Os gazeteiros gritavam a todo pulmão as notícias mais alvissareiras do dia como “A Mulher que engoliu um Trem”! Isso era ponto forte para se vender um jornal do dia. Anciãs a oferecer seus quitutes, meninos a passar em zig-zag, correndo feito um louco, um bêbado a pedir uns trocados para comprar mais uma “cana”, casas de comércio, armarinhos, bebidas, Casas Bancárias, jogatinas, bares, carros novos ou seminovos, Igreja do Bom Jesus, tipografias, revistas da Casa Pernambucana, lojas da moda, sapatos finos, cinema, teatro, hotéis, farmácias e tudo mais o que se pensasse. Tudo isso a moça se admirava em ver. No final, Lauro estacionou seu veículo.
Lauro
--- Chegamos. Pode saltar. É aqui mesmo o Jornal. - - falou com calma
Marilu, tomada de surpresa pelo enxame de populares a correr de cima a baixo, via os navios lá ao fundo, no rio Potengi balançando com a maré cheia e os botes e lanchas se escorando ao cais da avenida Tavares de Lyra, oscilando a qualquer modo. Gente vinda de viagem da praia da Redinha. Homens a admirar o outro lado do mangue onde havia a Estação da Coroa, em tempos passado, um ponto de desembarque dos viajantes vindos de Ceará-Mirim para a capital. Homens com seus peixes às costas. Mulheres a agarrar seus filhos para o desembarque dos botes de travessia. Era o mundo todo. Marilu viu aquilo e apontou.
Marilu
--- O Cais do Porto. - - sorriu
Lauro
--- Dos botes e lanchas. Os dos navios de cargas e passageiros, ficam logo à frente. É só seguir pela Rua do Comércio, como era chamada a Rua Chile, antigamente. - - falou
Marilu
--- Eu conhecia desde moleca. Minha fazia café logo a frente, na Tatajubeira, aqui perto. - - expôs.
Lauro
--- Esse bairro tem histórias. E como. - - explicou
Logo a seguir, Lauro convidou a moça a entrar no edifício. Eles foram ver as máquinas de linotipos, rotativas, gravuras, impressão, chapas, linotipos em vários tamanhos, chumbos aquecidos, fotos, matrizes, clichês, máquina de compor na qual se fundem em um só bloco as linhas compostas, e todo o mecanismo necessário a manutenção do jornal.  A alma de uma oficina. Para Marilu, era maravilhoso ver tudo aquilo além dos homens a compor as suas chapas.
Marilu
--- Esse maquinário foi feito tudo aqui? - -
Lauro
--- De forma alguma. Esses equipamentos foram adquiridos da França.  Todos eles. Mas tem de outros países, como Portugal, Inglaterra, Itália e principalmente Alemanha. - -
Marilu
--- E como vieram? - -
Lauro
--- Esses aqui vieram desmontados. Os técnicos, foram eles que montaram e ensinaram como se fazer os jornais. - -
Marilu
--- Um trabalho e tanto! - - relatou com cuidado
Após passear pelo o parque de impressão, Lauro convidou Marilu a subir ao primeiro andar onde estava a sede do jornal onde os repórteres batalhavam para conseguir em primeira mão o que fora ainda mantido em sigilo: a Redação. Era ali onde todos os segredos viravam notícias. Era cedo ainda. Na redação via-se apenas dois repórteres a trabalhar. Um, ao telefone. O outro redigindo matérias em primeira mão. Lauro entrou na sala e cumprimentou os presentes. De vez, apresentou a moça Marilu dizendo ser uma visita ilustre. Os cumprimentos foram saudados a Marilu. Ele ainda mostrou a biblioteca na outra sala, o arquivo de jornais antigos, a sala de revisão dos jornais do dia entre outros setores. Em seguida, Lauro abriu uma porta onde se via o nome de Diretor. Era naquela sala que o homem trabalhava.
Lauro
--- É aqui que nós ficamos. - - relatou sorrindo
Toda contente a moça já sentia o calor da imprensa a seus pés. E falou:
Marilu
--- Para se ocupar um cargo de jornalista é necessário se conhecer tudo isso? - - quis saber
Lauro
--- Necessário, eu não digo. Mas, para ser um jornalista completo é bem melhor conhecer de tudo um pouco porque senão ele vai virar para si um bobo da corte. - -
Marilu
--- Nossa! Quanto tempo em levo para saber o que é um jornal? - - indagou
Lauro
--- Antes de tudo você vai precisar saber escrever. O que vai escrever. Como se deve escrever. Eu vejo casos cruéis onde o repórter noticia em uma matéria casos com “muitos”. Ora! O que são muitos? Ninguém saber dizer. Bem melhor seria dizer um número para se ter uma ideia. E não: “muitos”.
Marilu
--- Verdade. É até aborrecido esse vocábulo. Muitos. Muitos! Soa mal. - - relatou
E o dialogo prossegui por várias horas com o professor a determinar casos pueris, como nome de ruas onde nem sempre é o mesmo. E então explicou que o jornalismo é o processo de comunicação de um assunto em razão de um meio qualquer. O jornalismo é concluído pelo processo de entrevista entre o profissional e o entrevistado.
Lauro
--- A partir da invenção de Johannes Gutenberg, em 1447, surgiram jornais modernos, que tiveram grande circulação entre comerciantes, para divulgação de notícias mercantis. - - explicou
Marilu
--- Nesse tempo havia outros jornais? - -
Lauro
--- Lógico. Havia os jornais sensacionalistas escritos a mão. Tivemos jornais sobre Conde Drácula. Em Veneza, o governo lançou o “Notizie scrite” conhecido como “gazeta”. Mas, um pouco além, nos anos, surgiram “O London Gazette”, lançado em Londres, Inglaterra, na Suécia, Alemanha, França. A notícia é um formato de divulgação de um acontecimento por meios jornalísticos. - - enfatizou 
Marilu
--- A guerra é o melhor meio de divulgação? - - indagou
Lauro
--- Não só a guerra como os acontecimentos sociais. Políticos, econômicos, culturais e naturais. Guerras e golpes de estado tem o seu valor. –
Marilu
--- Foto de morte macabras! Horrível! - - torceu o rosto
Lauro
--- Mas tem casos em que o ser fotografa a sua própria morte! - - sorriu
Marilu
--- Tem meios de se saber a notícia? - -
Lauro
--- Sim. Tem. É o seguinte” para o repórter: O que, Quem, Quando, Onde, Como, Por que? Esses são os destaques. - - explicou      


quarta-feira, 3 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 03 -

- O ESTADO -
- 03 -
JORNALISTA -

Marilu estava despachando para o senhor Lauro e conversou um porco mais sobre os estudos e a sua vocação de ser uma jornalista, apesar da dificuldade em encontrar um centro de ensino à época. O melhor a encontrar era professora. E isso não satisfazia o seu intento.
Marilu
--- Está vendo que eu vou ensinar bordado? - - relatou abusada
Lauro
--- Eu trabalho no Palácio do Governo e tenho outro serviço. Eu, à noite, assumo um jornal. É um tanto difícil. Não tenho carteira de trabalho como jornalista. Só posso me apresentar como um simples filósofo. - - relatou
Marilu
--- Filósofo? Onde eu vou encontra tal profissão? - - quis saber
Lauro
--- Eu estudei na França. Tive facilidade de ir para França e fiz meus estudos por lá.  - - 
Marilu
--- Quem me dera poder ir à França. - - entristecida.
Lauro
--- Eu te ensino os primeiros passos. Você vá ao Palácio e me procure. Vá mesmo. É logo ali. - -
Marilu
---Onde você trabalha? - - curiosa
Lauro
--- Sim. Eu trabalho no Palácio do Governo, pela manhã. - -
Marilu
--- E sua esposa? - - indagou
Lauro
--- Eu não sou casado. Eu moro nessa mesma rua. Eu e a minha irmã. Ela é casada. - -
E mostrou a rua onde ele morava ao lado de um prédio onde funcionada uma Escola de Comercio.
Marilu
--- Quando eu posso ir ao Palácio? - - curiosa.
Lauro
--- Hoje mesmo. Eu vou está por lá às 8 horas. Chegando, você pode entrar. Tem uma porta e uma secretária. É só entrar. - -
Marilu
--- Fala sério? Eu estarei lá daqui há pouco! - - sorriu com graça
E assim falou Marilu. Lauro desejou bom dia, saiu do café desejando felicidade. Disse mais que o perfume emanado da moça era estonteante. Qualquer dia ele compraria um perfume daqueles para também poder usá-lo. Dizendo isso, logo saiu. A moça observou por onde Lauro seguia até dobrar em uma esquina. Em seguida, Marilu continuou despachando aos frequentadores até chegar ao fim. O homem que vendia carne verde fazia, com alegria, o seu anúncio do melhor produto, batendo com o facão em cima das mantas. Uma mulher de meia idade pegou uma manta e cheirou para ter certeza que era carne do dia. Um carregador passou as presas com o seu cesto as costas. Homem chegavam e passavam para um lado e para outro. A mulher da tapioca apenas vendia o seu produto. Uma algazarra total no meio da casa grande. O Mercado Público da Cidade.
Após as 8 horas, Marilu chegou ao Palácio. Indagou a um policial qual seria a sala do doutor Lauro, e de imediato teve a resposta.
Militar
--- Essa porta em frente! - - e apontou para a sala
Marilu agradeceu e foi devagar, como quem cuida em derrapar na sala, até chegar a sala indicada. Olhou em volta e abriu a porta. Uma secretaria estava presente batendo maquina alguns papeis. Marilu, suavemente falou à moça querer falar com o chefe. A secretaria observou o traje limpo. A cintura bem marcada e os sapatos de salto alto além das luvas e demais acessórios luxuosos. O perfume francês ambientou todo o local. Uma silhueta extremamente feminina. A secretária sentiu-se diminuída por instantes. Mesmo assim perguntou.
Secretária
--- Qual assunto a tratar? - - voz serena
Marilu
--- É com ele mesmo. - - relatou
Secretária
--- Sente-se, por favor. Ele está ocupado no instante. - -
Marilu
--- Eu espero. Não tem pressa! - -
Nesse instante abriu uma porta e o cavalheiro Lauro pôs a cabeça de fora de onde ele estava e logo avistou a moça Marilu. Sorrindo, ele, com espanto, logo pediu a moça que podia entrar no seu gabinete.
Lauro
--- Entre, entre. Ora como está a senhorita? Faz favor. – - e abriu ainda mais a porta para dar passagem a Marilu
Com todo o seu requinte, Marilu segui para o interior do escritório sem prestar mais atenção à secretária que, a seu modo, fez um tique com seus ombros como quem diz uma frase de desprezo. O ambiente, no interior, era bem sofisticado. Duas máquinas de escrever de marca Royal, sendo que uma estava ao lado ambientada num solitário com papeis embaixo da bancada. Marilu verificou de perto e tocou em uma das teclas.
Marilu
--- Eu aprendi em uma dessas. - - sorriu
Lauro
--- Você sabe bater máquina? - - curioso
Marilu
--- Fiz o curso. E um norte-americano me deu uma de presente. A sua mulher estudava comigo da avenida Rio Branco, em uma escola da Professora Alice. Perto daqui. Aliás, ele foi deixar a máquina em minha casa em troca de uma cesta de cajus. - - gargalhou
Lauro
--- Talvez eu a conheça. Uma professora de seus 30 anos, alva, um pouco baixa. Se for esse, eu a conheço.
Marilu
--- Sim. É ela. Alice. - - sorriu
Lauro
--- Bem. Já estamos conversados. Por favor, eu queria ir com você ao escritório da Ribeira, onde em trabalho o restante do dia. É no Jornal O Estado. Não sei se você conhece. - -
Marilu
--- Eu o conheço, sim. Um volumoso jornal. - - calou.
Lauro
--- Pois bem. Vamos lá? - - perguntou.
Marilu
--- Agora? - - surpresa.
Lauro
--- Para conhecer o jornal. Você não quer ser jornalista? Então vamos dar os primeiros passos. - -  sorriu
Marilu
--- Não creio que seja verdade. - - corada.
Lauro
--- Ora. Tudo tem o seu primeiro passo. E agora é nossa vez. - -

terça-feira, 2 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 02 -

ESTUDANTE
- 02 -

SONHOS -

No café de dona Noca o movimento estava mais que bom. Gente muita. Seu Manoel havia saído para o capinzal onde estava a trabalhar até as cinco horas da tarde menos a interrupção do almoço, ao meio dia. Às vezes seu Manoel saia por um tempo para receber os proventos do capim vendido para a Polícia Militar. O seu dinheiro muitas vezes era pago com bastante atraso. Três meses ou mais. Reclamação, isso era constante. O capitão tentava se defender dizendo ser a reclamação coisa justa. E lhe adiantava uma pequena parte prometendo pagar na semana que entra.
Capitão
--- Difícil, a coisa. Eu tenho falado com o Governador e ele nada diz. - - preocupado
A chuva de repente começou a cair forte do Mercado da Cidade. O povo todo se protegia da forma como podia. Mulheres com suas crianças que estava à procura de roupas, sapatos e produtos alimentícios ficaram alarmadas.
Mulher
--- Chuva? - - indagou alarmada
Homem
--- E da grossa! - - dizia o homem
A baiana começou a retirar para um canto mais tranquilo as suas vendagens. O balaieiro passou, correndo, para não deixar molhadas as suas mercadorias de entrega e gritava a um tempo só.
Balaieiro
--- Olha o molhado! Olha o molhado! Olha o molhado! - - gritava ao tempo em que corria, atropelando o povo.
O vendedor de peixe correu, entrando para o interior do Mercado a proteger seus pescados e, de vez, gritava.
Pescador
--- É chuva muita! - - gritava o homem alertando para a chuva vinda do mar;
As mulheres que vendiam na calçada as suas mangabas, mangas, sapotis, jacas entre outros produtos de venda fácil, saiam correndo para o interior do mercado a proteger o que não podiam abandonar.
Vendedora
--- Como é que pode? O dia estava tão calmo e agora veio esta chuva? - - comentava a vendedora.
Na banca de café, dona Noca falava com pressa que se cuidasse de tudo pois era chuva em desmantelo. Marilu corria de um lado para outro para arranjar as suas comidas já para o almoço das onze horas. Os carros que passavam pela a avenida de frente, espalhavam o lamaçal, mesmo que reduzissem a marcha para trafegar pelo caminho. A chuva intensa chegava a forçar os automóveis a encostar no ponto da calçada pelo fato de verem forçados a não poder prosseguir, pois o “prego” era vital. Um motorista saltou de seu carro para colher o conserto, mesmo que não fosse possível resolver de imediato. Era quase onze horas e a bagunça estava formada. Nada se podia fazer para amainar a chuva. O teto do mercado tremia com o sacudir das calhas. Havia goteiras de um lado e de outro para as moças ajeitarem os seus produtos de comidas. As bancas de carne sofriam do mesmo jeito como a casas de artigos e as bodegas de uma forma só. O homem da quitanda de artigos de plantas medicinais sofria mais pois seu rádio não conseguia sintonizar as estações. Enfim, era chuva muita. Um cidadão vindo do Baldo chegou vexado e disse de um transbordamento do riacho já não permitindo a passagem de Bondes no local. A Ribeira alagou num instante com o aguaceiro vindo aos turbilhões das regiões de Petrópolis e Cidade. Era um mundo só a sofrer. 
Popular
--- Está tudo atravancado lá em baixo. Os Bondes não passam nem para um lado nem para outro! - - relatou com muito medo.
Quase meio dia, seu Manoel chegou ao mercado, todo molhado. O seu cavalo ficou ao largo, em baixo de pé de manga, onde quase não chovia como nos outros locais. Ele, todo molhado, assuou o nariz para aplacar o vexame e indagou de dona Noca se pegou a sua carne verde e a mulher respondeu afirmativo.
Noca
--- Está aqui, longe de se molhar. - - respondeu
Manoel
--- Obrigado. Vou botar no saco. Essa chuva não vai parar tão cedo. Bom. Vou embora! - - disse o homem
A mulher, Noca e a sua filha, Marilu, elas continuaram na faina até três horas quando rumaram de volta à casa onde moravam. Já chegando a casa, Noca olhou para um lado e viu a lagoa formada pelo aguaceiro da manhã. Àquela hora, a chuva amainou deixando os estragos à mostra na outra esquina. Seguindo até seu casebre, a mulher notou uma porção de água no beco e, certamente, no interior da própria casa. Nem mais discutiu e foi a frente, ela e Marilu. Pegaram as vassouras e varreram tudo em questão de uma hora. Depois, cansadas, rumaram para o fogão de lenha onde estariam a preparar a comida para o dia seguinte.
Passaram-se os dias, semanas e meses. Marilu já estava matriculada no Ateneu Feminino onde estudavam apenas as moças. Fardamento completo. Saia verde e camisa branca, de mangas longas. Sapato colegial e meias negras. Para amenizar o odor do Mercado, Marilu usava um extrato lavanda Atkinson. Era o ponto máximo da era 50. O espartilho por baixo da blusa era a peça mais apaixonante e controversa dos recentes tempos no após guerra. Um ícone feminino da sensualidade. Era assim que se preparava Marilu após tomar um banho refrescante no banheiro do Mercado. Meio dia, e a moça partia para o Ateneu.
Certa vez, de manhã logo cedo, Marilu estava a atender aos consumidores do Café quando surgiu, de repente, um jovem de seus 27 anos. O rapaz ficou extasiado com tamanha beleza que o cativou. Passou alguns segundos e então, Lauro Almeida, era o seu nome, indagou se a moça podia servir um café.
Lauro
--- Por favor. Um café. - - falou terno
Marilu
--- Café, apenas? - - indagou
Lauro
---Tem algo mais? - - indagou
Marilu
--- Cuscuz, pamonha, tapioca molhada. - -
Lauro
--- Tapioca e pamonha. - - sorriu, esfregando uma mão da outra.
O perfume que a donzela deixava sair o aroma embeveceu o homem. Ele procurou recender sem maior destaque. Apenas declarou.
Lauro
--- Que perfume! É da senhorita? - - e procurando sentir melhor
Marilu
--- Sim. É um perfume francês, creio. - - e sorriu lento
Lauro
--- Ah. Francês. Bom perfume. - - declarou
Marilu
--- É a última moda do após-guerra. É bem em uso. - -
Lauro
--- Eu só conheço Água de Colônia Royal Briar da Marina de Bourbon. Francês também.
Marilu
--- Eu o conheço. Tem vários. Violeta Francesa, Agustin Reyes entre outros. - - sorriu
Lauro
--- Você estuda? - -
Marilu
--- Sim. No Ateneu Feminino. - -

segunda-feira, 10 de abril de 2017

SONHOS DE MARILU - 01 -

MERCADO
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A VENDA

Era madrugada já para amanhecer. O relógio da casa ao lado bateu as quatro horas.  Rua deserta, sem ninguém a passar. Dona Noca arrumava sua bandeja e orientava a filha, Marilu, a cuidar com pressa de seus afazeres, pois o relógio já estava soando. Era tempo de seguir viagem para o Mercado da Cidade. A mocinha de seus 16 anos de idade, fechava a porta de traz e olhava para ver se tinha algum bicho atrás da mesa de comida. Nada havia. O jeito era torcer a luz da lâmpada e caminhar no seu modo faceiro. Nesse momento, a sua mãe já estava do lado de fora, pois desligara a lâmpada da sala da frente. Uma trouxa na cabeça e um balde na mão, ela, a mulher, estava pronta para seguir viagem. Ainda era escuro. A luz do poste estava apagada, com certeza por algum defeito. Só havia luz no outro lado muito distante. Dona Noca caminhou com seu andar sempre vexado. Um cachimbo na boca, a cabeça erguida e contava histórias de bichos de outro tempo para puxar a mocinha cada vez mais depressa. O trem da estação apitava ao longe. O silencio a fazer de madrugada dava para ouvir. Certamente era um trem de carga. Ainda era cedo para o trem de transporte está chamando gente para a viagem interestadual. Um homem saiu de um quarto que fora algum tampo um posto de quartel. Ele conduzia um cesto vazio de fazer compras dos fregueses. Vestes surradas, demostrando ser um fardamento antigo de algum soldado, o homem desceu de um batente do quarto, e foi seguindo sem nem mesmo cumprimentar dona Noca, embora soubesse ter a mulher igual destino, o Mercado Público da Cidade. Um cachorro vadio, coçava as orelhas e em seguida tomou caminho com o moço do cesto. A madrugada se desfazia com um leve clarão no céu envergando a aproximação de das quatro e meia. Ainda era cedo da madrugada quando dona Noca e sua filha, Marilu cruzaram a rua. E com isso, dona Noca já estava a chegar no Mercado pela porta lateral. Com a mulher, estava também a caçula Marilu, criada desde pequena pois o marido de dona Noca desaparecera um dia sem que nem não deixando tudo para lá. A mulher atravessou as bancas de carne e peixe onde os mercadores colocavam seus produtos de venda. Maria já estava no local pondo para a acender um fogão a carvão.
Noca
--- Bom dia, mulher. Estou cansada. - - falou um tanto desanimada.
Maria
--- Bom dia. O carvão está molhado. - - e soprou por mais de uma vez.
Noca
--- É assim. João carvoeiro deixa tudo de fora da garagem. - - resmungou.
Após meia hora, o movimento começava. Um guarda se abancou a espera de um café. Ele era um guarda que passara a noite toda apitando de um lado. Com pouco tempo, se juntou outro guarda e então os dois trocarão impressão sobre o serviço. O quartel dos mesmos ficava situado no bairro da Ribeira, uma esquina da rua Duque de Caxias. Naquele local, os guardas dormiam pela tarde toda até chegar a hora do serviço. Marilu chegou com o bule para atender aos guardas.
Marilu
--- Que mais? - - indagou
Guarda
--- Cuscuz e tapioca. Tem? - -
Marilu
--- Tem. - -
O café de dona Noca ficava no fim do Mercado ao lado do último portão de ferro dando para o lado onde tinha uma mangueira. Para se sair, tinha que descer os degraus feitos de cimento. As urinas e as fezes dos embriagados deixavam um odor imprestável para quem entrava do Mercado. O Bonde vindo da Usina começava a transitar com destino ao bairro Ribeira, seguindo pela rua Das Freiras – rua Ulisses Caldas -. O relógio da Matriz já marcava as cinco horas, podendo ser bem mais. Ouvia-se o som do sino do Bonde a chamar a atenção de um transeunte, um bêbado ou mesmo de um burro que nem se importava com a máquina.  Atrás do Mercado existia uma bodega. Vendia de tudo aos moradores da região. Ali, o movimento era franco apesar de se ter o Mercado com toda a quinquilharia que se pudesse imaginar. Do peixe, a carne verde e até mesmo as roupas para se comprar ou os sapatos e até mesmo as vendas como se chamava os pontos do comércio. Esse era o movimento da Cidade Alta, bairro chique da burguesia. Para lá, existiam outros bairros, como Tirol e Petrópolis. Esses bairros eram menos favorecidos. Gente pobre. E era em Petrópolis onde morava a senhora dona Noca. Esse nome é verdadeiro. Seu nome completo era Maria Noca dos Prazeres. Porém ficou sendo chamada de Noca. Ela era oriunda de um lugarejo de nome Japi e tinha pais, irmãos, tios, sobrinhos e um mundo de parentes. Por algum tempo, esteve em Natal uma de suas irmãs, chamada Rute, ainda de menor. Após alguns dias, Rute arrastou a mala, ou seja, voltou para sua casa.
Para ganhar a vida, Noca teve duras penas. Vindo de Japi, na cidade grande trabalhou em casas de senhores, lavava roupa, cozinhava findando por fazer de tudo. Ela, por algum tempo, morou em bairros como as Rocas que ainda não era um bairro, viveu na Ribeira onde trabalhou em casa de gente rica, casou com um homem de nome Paulo. Esse, um dia, fugiu de casa dizendo que “ia ali” e não mais voltou. Noca, com uma menina pequena, não se importava com isso. Deu duro para sobreviver. Com a garota às costas, lá estava a mulher batendo roupa ou fazendo cocada. Foi assim que Noca viveu, sozinha, com a filha de colo.
Noca
--- Bem dia, seu Manoel. Como vai o senhor? - - perguntou
Manoel
--- Da mesma forma de ontem. Trabalhando. - - e sorriu
Noca
--- Trabalhando. Trabalhando. Assim é a vida! - - respondeu
E voltou para o interior do bar/café. A menina Marilu foi quem apareceu, sorrindo. Chegou e perguntou
Marilu
--- Café? - -
Manoel
--- Tem mungunzá? - - perguntou
Marilu
--- Sim. Quer leite de vaca? Chegou agora! - -
Manoel
--- Ponha com café. Um pouco. Pingado. - - respondeu
Outros consumidores surgiram quase no mesmo instante. Nas demais bancas o ruge-ruge tomava conta do ambiente. O movimento nas bancas de carne verde crescia a todo momento. A banca de peixe também fervilhava. Cada qual que oferecesse seu pescado ou carne verde. A mulher baiana já estava a ponto de vender suas tapiocas no meio do salão. Duas bacias: uma para torcer a massa e a outra para colocar as tapiocas secas e molhadas. A mulher vestia um todo branco e, na cabeça, envolta uma touca de cor branca. Enfim, a mulher estava toda de branco da cabeça aos pés: De um porte avantajado, a baiana se sentava no chão frio guardando os tamboretes para deixar as bacias com a goma e as tapiocas, uma e outra, postas eu seu lado. Quando alguém perguntava
Freguês
--- Tem tapioca molhada? - - perguntava
Baiana
--- Sim. Molhada e seca. Quer das duas? - -
Freguês
--- Não. Só molhada. É mais gostosa! - - sorria
E o garoto do cuscuz passada em frente com sua bacia coberta. Ele oferecendo suas iguarias feitas na última hora para quem duvidasse.
Garoto
--- Cuscuz com coco! Vai querer, patrão? - - perguntava
Freguês
--- Já tenho tapioca. - - respondia
Garoto
--- Mas leve um! - - dizia o moleque