segunda-feira, 12 de junho de 2017

SONHOS DE MARILU - 35 -

- OUIJA -
- 35 -
OCULTISMO -

Certa vez, Marilu foi até ao Carrasco, bairro da cidade que ficava no fim do mundo. Para aqueles confins, não tinha estrada, não tinha ônibus, não tinhas casas. E se tinha algo de útil eram taperas, bodegas quase a cair e um Colégio das Meninas Perdidas. Eram meninas já mulheres da vida. E quando seus pais sabiam, mandavam para o colégio das arrependidas. Era meninas mesmo, de 10 e 12 anos de idade. Elas, pouco sabiam do que era feito em forma de sexo. Sabiam brincar de bonecas e nada mais. Sexo era um pecado. Quem fazia, na certa, ia para o Inferno. Essa era a dureza imposta pela Igreja Católica ou Protestante. Mais adiante, quase no início de uma ladeira, existia o Leprosário, para guardar os doentes de lepra, casos que ninguém conseguia ir. Era bastante dizer o nome “morfeia” para se ter cuidado em não se querer nem passar por perto. Os leprosos eras chagados e até no cinema se mostrava as chagas de um doente de lepra.
O Carrasco era, afinal, o fim do mundo. E às quartas-feiras tinha a feira do chamado bairro. Havia ali, também, um barraco onde o dono vendia coisas de feiras e até mesmo de magia. Livros, até demais. Fatos e efeitos hipnóticos era o preferido dos adeptos do Ocultismo. Esse segredo provinha do Latim e significava “escondido” ou oculto. É um conjunto de filosofias, teorias e práticas cujo objetivo seria desvendar os segredos da natureza. Portanto não é algo satânico ou demoníaco. Porém, sem dúvida, há depoimentos de pessoas que acreditam ter sido alguém numa vida passada. Com esse temor, Marilu foi a bodega de Floriano, o homem que fizera negócios de vendas com a moça, para saber o que de fato ela queria naquela hora.
Floriano
--- Leu o livro? - - perguntou alegre
Marilu
--- Sim. Agora, quero saber se o senhor tem algo sobre Ocultismo! - - quis saber
Floriano
--- Ah. Tenho vários. E o melhor de todos: Segredos do Ocultismo! Este aqui! - -
Quando as pessoas têm uma experiência com vidas passadas, a verdade, certamente, é inquestionável. É uma prova de alto evidencia. Você não sabe tirar isso dela. Ela sabe. Os primeiros Ocultistas acreditavam que o Universo era um campo de Consciência que se decifrava para obra dos Deuses.
Marilu
--- Ele livro é bom mesmo? - - cética.
Floriano
--- Eu não digo que seja o maior. Mas, pode acreditar: ele é ótimo. - -
Marilu
--- O senhor já obteve algo por ele? - - sempre cética
O homem sorriu para declarar.
Floriano
--- Eu, já! Eu obtenho tudo o que eu quero! - - com ênfase
Marilu
--- Verdade? – -
O homem sorriu e declarou
Floriano
--- Até dos Deuses! Achamos que nós estamos separados um dos outros. Mas nós somos parte de um vasto Universo. Essa é a chave do Ocultismo. - - declarou
Marilu
--- Não entendi! - -
Floriano
--- Não importa para onde olhemos. Os padrões são os mesmos! - - declarou
Marilu
--- Ah. Compreendi. Continue! - - pesquisou
Floriano
--- A pessoas acham isso eletrizante. Essa sobreposição que existe entre como o modo como o cérebro funciona e como o Universo funciona. - - dialogou
Marilu
--- O elo entre magia e ciência sempre foi forte. - - disse mais
Floriano
--- Se você se abre para o cosmos, então se abre para novos conhecimentos. - - explicou
Marilu
--- Nunca li nado sobre o Cosmos. Levo “zero” nesse conhecer. - - sorriu
Floriano 
--- Nunca é tarde para começar. Se não começou ontem, comece agora! - - sorriu
Marilu
--- Quando séculos tem o estudo da astrologia? - - perguntou
Floriano
--- Os Anunnakis estiveram aqui há 500 mil séculos antes de Cristo. E nesse tempo já havia a astrologia de há muito. Eles vieram movidos pelos astros.
Marilu
--- Anunnakis? Que foi essa gente? - -quis saber
Floriano
--- Os Deuses Astronautas. Eles vieram civilizar a humanidade da Terra. - - explicou
Marilu
--- A gente estuda num colégio de Mestre e quando acabar, não sabe de coisa alguma.
Floriano
--- Nas antigas escolas de mistérios, como os egípcios, a meta era se conectar com os Deuses e implorar que eles fizessem algo. Os Deuses com o seu poder, poderia atender
Marilu
--- E a Inquisição? Como foi? - -
Floriano
--- A Inquisição levou mais de três séculos para acabar. Era a Religião contra os hereges. Herege é o cidadão do contra. Se a Igreja diz uma coisa, ele não aceita. Está sempre do contra. Foi por isso se queimo Joana D’Arc, analfabeta. - - declarou
Marilu
--- Eu estive na sua Igreja, na França. Lembro bem da Donzela. - - compadecida.
Floriano
--- O Ocultismo é uma arte. É capaz de realizar aquilo que o Mestre quer. O primeiro registro data de cinco mil anos atrás. Toda cultura tem um jeito de entrar em transe. Pode ser usando música, pode ser usando dança, pode ser sentado, em meditação.
Marilu
--- Tudo isso está dito aqui, no livro! - - perguntou abismada 
Floriano
--- Tudo, enfim. O negócio é estudar com compreensão - - falou bem certo
Marilu
--- Eu começo a ler ainda hoje. - - sorriu
Floriano
--- Preste bem atenção. Você é capaz de fazer uma operação sem dor! - -
Marilu
--- Um parto, por exemplo? - - curiosa
Floriano
--- Qualquer cirurgia. É fazer uma cirurgia através da hipnose moderna, hoje em dia é aceita pela medicina.
Marilu
--- Que bom! Vou ser médica! - - sorriu
Floriano
--- Mas a hipnose requer sugestão e imaginação. Raivas, doenças cardíacas. Nossa imaginação nos deixa tranquilos. E o importante! - - destacou

SONHOS DE MARILU - 34 -

- IGREJA -
- 34 -
O HOMEM ´-

No Atheneu feminino o terceiro ano chegou ao fim. As moças gritavam de alegria. Tinham as que sairiam em gozo de férias a passear em Estados do Sul, outras ainda estavam por decidir e Marilu sabia que ficaria ali mesmo, no Jornal do Estado onde tinha emprego fixo. No domingo, houve celebração de Santa Missa e várias das concluintes, bastante alegres, comentavam os mais ambiciosos sonhos. As alunas de Igreja Protestante, essas não estavam na Missa porque a sua doutrina proibia esse culto religioso lembrando que era propensa ao Demônio.  Durante a celebração da Missa, o padre falou que ali estavam as futuras heroínas a lecionar matérias de maior interesse para os seus alunos. Entre outras coisas de salutar proveito. A Catedral estava lotada. Gente muita. As concluintes estavam sentadas do lado direito da Catedral. E do lado esquerdo, sentavam os pais, padrinho e demais convidados. A mãe de Marilu sentou-se próximo a sua filha, apenas do lado esquerdo. E o padrinho, Lauro, também se sentou do lado esquerdo. Foi, não foi, uma olhadela de Marilu com um belo sorriso para a sua mãe. E assim, transcorreu o ato religioso, sem mais nem que.
Algo ocorreu quando Marilu estava a assistir a Santa Missa. Ela observou, sem querer, um rapaz, sempre de costas para os assistentes da Missa, como se estivesse rezando voltado ao Sacrário, local reservado ao Santíssimo e em algum tempo, saiu de repente. Ela não deu significativa importância. Apenas olhou, mas sem querer. Terminado o ato religioso, as moças seguiram para um café na Casa do Arcebispo Metropolitano. Foi uma festa de doce alegria. Tinham bolos, doces, pudins, licores além do próprio café com leite e muitas guloseimas. Cada qual que aproveitasse o seu. A mãe de Marilu, dona Noca, estava contente por ver a filha sendo diplomada naquele dia. O padrinho. Lauro, sempre abraçava a moça e desejava os melhores sucessos dali por diante. Foi naquela casa que a moça vislumbrou, novamente a figura, sempre de costas o rapaz. Ele passou ligeiro, não deixado oportunidade para Marilu ver melhor. Foi quando ela falou.
Marilu
--- Tem um rapaz aqui, que estava na Catedral. Eu o vi por duas vezes. Ele sempre de costas. Será empregado da casa? - - murmurou para Lauro
Lauro
--- Deve ser alguém da casa. Quer que eu pergunte? - -
Marilu
--- Não. Não. Não se preocupe. Deixa p’ra lá. - - se desculpou a moça
E a festa continuou por duas horas quando as moças tomaram o seu destino, cada uma desejando saudades para todas as outras. Nesse momento, Marilu tomou o bruto susto ao notar a presença do rapaz, apenas de costas, a entrar na Igreja de Santo Antônio, na mesma rua da Casa do Arcebispo.
Marilu
--- Veja, seu Lauro! O homem entrou naquela Igreja! Por que somente de costas? - -
Lauro
--- E você queria que ele entrasse de frente? - - sorriu o homem
Marilu
--- Não é por isso. A questão é que eu vejo o homem apenas de costas! - - alarmada
Lauro
--- Ora! Se ele vai entrar, somente só pode ir de costas para quem está atrás dele! - - gargalhou
Marilu
--- Sei não. Algo está errado. Eu vou lá, para ver ele de frente! - - abusada
Noca
--- Para onde ela vai? - - perguntou dona Noca
Lauro
--- Sei lá. Deu fraqueza na cabeça da pobre. - - sorriu
Noca
--- Mas ela viu o que naquela Igreja? - -
Lauro
--- Não sei. Apenas um homem entrando da Igreja. - -
Noca
--- Ora mais! Tem jura, menina! - - e fez um tunc.
Lauro foi até a Igreja de Santo Antônio e procurou por todo meio a moça Marilu. Quase estava desenganado, pronto para voltar quando viu a moça saindo de trás do altar mor. E lhe chamou:
Lauro
--- E então? Você o encontrou? - - quis saber
Irada, Marilu respondeu.
Marilu
--- Que nada! O homem sumiu! Diabos! - - respondeu com nojo
Lauro
--- Deve ser um Capuchinho! - - lembrou
Marilu
--- Quem? - - indagou sem entender
Lauro
--- Um frade. Desses que usam barbichas. –  - e fez menção de quem usa barba
Marilu
--- Ele não usa barba. Pelo menos não deu para ver. - - abusada
Lauro
--- Melhor. É um ermitão. Solitário apenas. –
Marilu
--- Não creio. E por que ele se esconde? –
Lauro
--- Ele se esconde? Ele está visível para todos, menina! - - falou com certa importância
Marilu
--- Eu não sou menina. Pode me chamar de qualquer coisa, menos de “menina”! – -abusada
Lauro
--- Desculpe-me. Eu disse assim, por dizer, senhora. Vamos almoçar em um restaurante
E as três pessoas saíram compressa: Lauro, Marilu e a sua mãe, dona Noca a procura de um restaurante de primeira classe, na Cidade Alta. O auto prosseguia com vagar, não evitar algum acidente, porém por cuidados com os ébrios ainda a perambular pelas esquinas da vida. Nesse ponto, algo se postou na frente do carro. Tão logo, Lauro brecou o auto. E gritou.
Lauro
--- Você está louco, homem! - - - com o carro parado
O homem se soergueu sem olhar para o motorista e, depressa, correu para um lado, entrando em um beco próximo, desaparecendo após.
Marilu
--- É ele! Eu vi agora! É ele! O homem! Ele não tem barba! É ele!  - - declarou a moça em total desespero apenas a apontar em sua direção
Lauro
--- O homem! Esse? Vamos pegar o herege. - - o rapaz fez manobra no carro e passou por lixos e pedras de uma construção para pegar o sujeito de qualquer modo
Lauro entrou em caminhos e passou por porção de lama, mesmo assim não mais encontrou o ser. Esse desapareceu como por encanto. A moça ficou pasma querendo sair do auto, mas não podia por conta de barros da via. Por conseguinte, Marilu gritou por brabeza.
Marilu
--- Merda! Merda! Merda! O safado desapareceu! Mas eu vi! Ele não tem barbicha alguma! - - e batia no banco do carro.
Laura
--- Calma! Calma! Por sorte eu não o atropelei! Mas era ele? - -
Marilu
--- Sim! É ele! Eu vi a cara, agora! - - falou ao desespero 

domingo, 11 de junho de 2017

SONHOS DE MARILU - 33 -

- SÃO CIPRIANO
- 33 -
QUARTA FEIRA

Em dia de quarta-feira Marilu estava pesquisando o que se vendia na Feira do Carrasco, uma das últimas feiras da cidade. O pessoal que alí comprava, era gente do mato ou como se chamava: “matuta”. Em outro sentido, era o povo mais pobre da capital. Bem pobre mesmo. Carnes velhas e secas e, mesmo, carne de bode para não se dizer carne de bicho porque nem ao menos se sabia qual era. Porcos de quantos dias, não se podia nem supor. Galinha de terreiro que o mais pobre lavava para vender com um preço qualquer. E tinha também as frutas de quintal, batatas de terreiro, botas, chapéus de palha, pimentas. As coisas mais incríveis por preços injustos. Seu funcionamento para as vendas ia até as 3 horas da tarde, enquanto tinha gente. Mulheres de vestidos rotos, homens de alpercatas nos pés. Era assim quem podia ir as compras do Carrasco. Quando acabava tudo, então se partira para outros destinos. Ônibus para buscar os indigentes, esses não tinham. Apenas havia os carros-transporte para seguir ao interior, muitos dos quais com sinal de luto pelo desastre de alguma caminhoneta, com certeza. Era assim que se fazia a feira do chamado “grito”.  
Então, Marilu foi ver que feira era essa. Uns diziam é a feira do “rebotalho”. Outros, ‘é a feira da carniça”. A cachaça, isso era o que não faltava. Nem mesmo um jogo de baralho feito às escondidas, pois a polícia estava de olho para pegar um desordeiro que por ali costuma frequentar. Marilu, em trajes da moda, caminhava por entre as bancas de vendas procurando os melhores artigos que tivesse a venda. Coisa que não encontrava. Tudo era ruim, mesmo. Não fora um rapaz tão delicado a oferecer à moça uma porção mangalhos que estava à venda.
Rapaz
--- Compre, moça! É preço barato! A senhora vai gostar! - - falou o homem estirando a mão para que a moça pudesse ver.
Marilu
--- Eu. Eu não quero. Estou só visitando a feira. - - recusou a moça
Rapaz
--- A senhora quer um artigo melhor? Eu tenho aqui! - - ofereceu
Marilu
--- Não! Não quero nada! - - relatou
Rapaz
--- Espere! Eu tenho aqui artigos de boas lojas. Santos, velas, incensos indianos, cristais, ervas, preparados para banhos de ervas e até livros. - - ofereceu
Marilu
--- Livros? Quais livros que você tem?  - - perguntou curiosa
Rapaz
--- Eu tenho um livro de São Cipriano. Livro de Ocultismo, feitiços, magias, espíritos obsessores, Invocação pela Santa Cruz de Caravaca. Venha até a minha loja. Não custa nada. - - arrastou a moça pelo braço
Marilu
--- Meu Deus do Céu! O senhor tem o Livro de São Cipriano? - - curiosa
Rapaz
--- Tenho ele e muito mais. Porém o livro é o melhor de todos. Vou mostra a senhora.
E Marilu teve entre as mãos o Verdadeiro Livro de São Cipriano, Capa de Aço. De início, a moça tremeu de medo. Porém, com o passar dos minutos ela resolveu adquirir o Verdadeiro Livro. Ela pagou o preço, não se importante nem se era caro ou não. Disse apenas que voltaria em breve.
Rapaz
--- Volte sempre. Eu aguardo! - - dizendo isso o homem esfregou suas mãos uma na outra.
Marilu tomou o carro da redação e, com o motorista, partiu para a redação do Jornal. Ela estava louca para chegar em sua casa, pois queria ler o que estava escrito naquele grosso livro. E foi assim que se sucedeu. À noite, quando nada podia atrapalhar, Marilu começou a leitura. Ela sentia uma vontade louca de ver tudo o que estava escrito. Magias, bruxarias, feitiçaria, orações da Cruz de Caravaca que ela já havia adquirido em outra livraria, Poderoso Livro de Preces e Orações, As Clavículas de Salomão, O Reino da Feitiçaria e muito mais. Cipriano foi um homem que dedicou boa parte de sua vida ao estudo das ciências ocultas. E foi com esse entusiasmo que Marilu continuou a estudar o Ocultismo
Marilu voltava sempre ao Carrasco a procura de novos livros.
Marilu
--- Tem outros lançamentos? - - sorria sempre.
Certa vez, Marilu, ao passar da Rua do Cemitério da cidade, ela resolveu entrar no local e ver os túmulos existentes, alguns já desgastados, e ouviu o chamado de um telefone na casa de registro de óbitos. Ela parou por breve instante. Com isso, Marilu notou ser o telefone da clínica onde se prepara os corpos. O senhor que atendia, buscou ouvir, porém nada falou, o telefone. Marilu, então entrou na recepção.
Funcionário
---Esse telefone está louco. Nove vezes que ele chama e não aparece ninguém.
Marilu
--- Talvez seja ligação a cobrar. - - respondeu
Funcionário
--- Nada. É apenas uma música que toca. Estranho! - - comentou
Marilu resolveu atender e ouviu uma música triste de violino. E falou:
Marilu
--- Musica de violino. Parece Beethoven.
O Funcionário resolveu sair, para ver se alguém estava mexendo o telefone. Marilu, picou a espera. O funcionário, para a sua surpresa, ao chegar na Secretaria viu o telefone fora do gancho. Ele repôs o telefone do lugar e de novo voltou à recepção. Ao chegar na recepção, o telefone tocou novamente.
Funcionário
--- Está vendo? A música triste de violino! - -
Coveiro
--- Eu estou acostumado com isso. É bom ninguém se impressionar.
Marilu
--- Mas é estranho. O telefone tocar sem ninguém bulir. –
Funcionário
--- Eu vou pedir é transferência. Não fico mais aqui, nem a pau. –
Coveiro
--- Besteira. Deixa ele chamar! - - sorriu
Marilu
--- Eu estou quase ciente de que era para mim. - - retrucou
Coveiro
--- E as outras vezes? A senhora nem estava aqui. –
Marilu
--- Então, é algum defunto que vai chegar. –
Funcionário
--- Eu vou é sair desse local - -
Coveiro
--- Vai! Eu fico só! - -
Marilu
--- Mas o senhor tem certeza que o fone toca sempre? –
Coveiro
--- Muitas vezes. Nem sei contar! Muitas e muitas vezes! - -
Marilu
--- O senhor tem medo de assombrações? - -
Coveiro
--- Eu? Por que eu ter medo? - -


SONHOS DE MARILU - 32 -

GRITOS DO CEMITÉRIO
- 32 -
 GRITOS -

Era um dia de sábado. Marilu acordou logo cedo. A moça tinha que ir para o Jornal do Estado, pois ainda tinha que acabar umas matérias feitas no dia anterior. Coisas sem grande importância, conforme pensava. A falta de água no interior, era a mais importante. Os carros pipa estavam levando o líquido para atender as necessidades da população em cidades de menor porte. A demais, ainda tinham água de seus açudes. Era provável que ocorresse chuva em apenas um mês ou dois. A sequidão era um tormento principalmente nos lugares mais distantes, principalmente no campo. As principais vítimas era o gado. Quem viajasse ao interior olhava com muitas angustias as carcaças do gado pelas estradas. As crianças bebiam água barrenta, isso quando encontravam em uma fonte mais resistente. Essa era a vida do sertão. Quando chegou à redação, ela foi pega de surpresa por um homem esmolambado, com chapéu de palha, meio corcunda, pele que se podia dizer ter sido alva, mas com o tempo era toda amarelada. Não redação ainda não tinha ninguém. Só o homem a conversar com Canindé, o fotografo, homem que sempre chegava cedo para cuidar do seu material de trabalho. E foi assim que Marilu foi apresentada.
Canindé
--- Pronto. Chegou a repórter. Converse com ela. - - declarou o rapaz.
O homem se voltou para Marilu e a cumprimentou com sua magreza, roupa já surrada. Um dia, fora branca.
Cosme
--- Bom dia doutora. Eu sou Cosme, morador próximo ao Cemitério da cidade. Eu vim aqui, porque, ao passar à noite de ontem, perto do campo santo, eu vi o lugar bem pavoroso, com muito mato, túmulos abandonados. Um abandono total. - - relatou
Marilu
--- Eu sei como é que é o ambiente. A Prefeitura de Município não faz o menor esforço para se soergue o local. – - atalhou
Cosme
--- Pois é. E, ontem mesmo, por volta da meia noite, eu ouvi muitos gritos. Gritos de arrepiar do lado de dentro do Cemitério. Era como se fosse de dor e desespero. - -
Marilu
--- Ontem, que o senhor ouviu? - - surpresa.
Cosme
--- Sim. De ontem para essa madrugada. Foi tanto grito que eu me arrepiei. Fiz o sinal da Cruz e fui mais rápido possível. Interessante é que falei com um compadre meu e ele contou as mesmas coisas quando passava no local. O compadre escutou esses lamentos, choros, lamentos dentro do lugar. E hoje eu, logo eu arrumei coragem para saber de onde vinham os tais lamentos. –
Canindé vinha chegando e ouviu parte da conversa. Com certo temor quis saber.
Canindé
--- O senhor no Cemitério? - - quis saber e bateu fotos do velho senhor
Cosme
--- Sim. Eu entrei para ver a gritaria. E perguntei quem é que estava ali e o que precisava. Mas apesar de ser de manhã, esses gritos ficavam ficando mais fortes. Então, ao passar por baixo de uma árvore, tive a pior visão de minha vida. - -
Marilu
--- O senhor passou lá na manhã de hoje? - - perguntou se arrepiando toda
Cosme
--- Sim! Sim! Inda agora. Eu vi, em uma cova rasa, eu debruçado no local uma aparição de um rapaz todo coberto de sangue e seguiu cambaleando em direção a mim, pedindo socorro e misericórdia. - -
Canindé
--- Nossa! Uma coisa dessa eu não vejo. - - falou com remorso
Cosme
--- Pois foi! Eu vi! Eu corri com toda força, peguei minha bicicleta e pedalei até chegar aqui. Eu fiquei apavorado. - -
Uma faxineira que estava por perto, recolheu o balde, guardou a vassoura e falou.
Faxineira
--- Eu sei quem é. Aquele é um túmulo de um jovem rapaz que foi morto pela Polícia, aos 19 anos de idade. Faz pouco tempo. Aquele rapaz, eu rezei muitas vezes por sua alma. Mas nunca passei pela sua catacumba. - -
Marilu
--- Então, aquela alma estava ali se lamentando por ter sido morto em um assalto? - -
Faxineira
--- É provável que sim. Ele morreu nas mãos da Polícia. Estava sendo perseguido e um policial o alvejou nas costas. Quando ele caiu, já estava sem vida. Como era pobre, largaram em uma cova rasa! Foi o que sucedeu. - - explicou
Marilu
--- Parece que a alma do rapaz não ficou em paz. Ele ainda não se conformou de ter sido morto de um jeito tão covarde. Ele poderia estar vivendo de uma forma mais tranquila, de uma maneira reta. - -
Canindé
--- Minha mãe diz que acha bom passar em Cemitério, pelo menos de dia. –
Faxineira
--- Eu sei de um caso de uma moça bem sensitiva e gosta de ir ao Cemitério. Fica no Campo Santo, conversando com as almas dos seus parentes, amigos, familiares já falecidos. Ela diz que tem uma grande atração por estar no Cemitério. Mas não tem namorado. Certo dia, estava no Cemitério, caminhando, colocando flores quando notou a presença de um rapaz. –
Marilu
--- Um rapaz que a seguia? - - quis saber
Faxineira
--- Sim. Um rapaz. Ele era jovem e muito bonito. E mancava ligeiramente de uma perna. Com o tempo, o rapaz de aproximou de Amélia – era o seu nome -, sorrindo e perguntou junto com ela visitando os túmulos.
Marilu
--- Que bom. A moça ficou atraída por esse rapaz! - - sorriu
Canindé
--- Primeiro amor! - - disse isso ajeitando a máquina
Faxineira
--- Pois é. Amélia perguntou ao rapaz se estava acompanhando algum velório. Ele disse que “não”.
Antônio
--- Você é muito bonita. Eu posso vê-la outra vez? - - sorriu e quis saber.
Faxineira
--- E de repente, eles dobraram uma rua do Cemitério e o rapaz sumiu. Ela se assustou e continuou procurando pelo rapaz, e não mais o encontrou. À noite, foi dormir quando sentiu um corpo quente e macio sobre o de Amélia. E uma boca que procurava a sua boca. Quando abriu os olhos, ela reconheceu o tal do rapaz do Cemitério que nessa hora estava totalmente nu. –
Canindé
--- AH eu lá! - - gargalhou
Marilu
--- Venha p’ra cá! - - encarou Canindé com seriedade.
Faxineira
--- Então, os dois se beijaram e fizeram um amor enlouquecido, várias vezes por toda a noite. Quando Amélia acordou, de manhã, o rapaz já havia ido embora.
Cosme
---Isso é loucura! - - alarmado
Faxineira
--- Pode ser, mas Amélia afirma que ele ainda volta para fazer amor. - - gargalhou

sábado, 10 de junho de 2017

SONHOS DE MARILU - 31 -

- RPG -
- 31 -

CENA MACABRA -

Passados os dias, nada mais ocorrera de modo que Marilu levava uma vida tranquila, todos os dias frequentando o jornal, fazendo matérias sem grande importância, pelo menos assim ela pensava, e à tarde, estava a voltar a estudar no Ginásio Ateneu onde ela mantinha matricula já no seu final. Entre outras, todos os dias era a mesma rotina. À noite, dia sim, dia não, ela frequentava as sessões espíritas ouvindo as preleções dos guias, vendo figuras enigmáticas e estranhas possessões, ajudando a retirar espíritos endemoninhados, entre outras situações. Quando Marilu esteve do Centro, foi para contar a insólita aparição de um ser, provavelmente, seu pai. Tirado o encosto, ela se livrou da tormenta que acudia. Mas, certa vez, houve um assassinado macabro em sua cidade. Era um garoto que ela conhecia de vista, conhecido por Iran. Um garoto de aparência muito estranha, retraído, de poucas palavras, muito quieto, na dele. Só usava roupa escura, botas, cordões prateados com símbolos estranhos, cabelos longos e cavanhaque. A moça temia esse rapaz não querendo conversas.
Marilu
---Virgem! Lá vai ele! Nossa! – - dizia a moça quando o encontrava na rua.
Era assim que a moça fazia sempre que o via, torcendo caminho para passar adiante.
Nadir
--- Que foi? – - perguntou a colega
Marilu
--- Aquele “monstro”. Não vou nem por aqui. Para mim, ele é um bicho! - - saía com pressa, correndo então.
Nadir sorria e nada comentava. Ele seguia por um novo rumo com a amiga Marilu.
Marilu
--- As camisetas que ele usa, só tem imagem apavorante! Horrível! Dá medo! - -
Nadir sorria mais por conta da insegurança de Marilu.
Foi, não foi, Marilu sempre notava a presença de Iran. E corria para evita-lo
Mas o rapaz tinha a sua turma. Garotas e colegas, curtindo as mesmas festas dançantes com sua gente boa. Gente que conhecia Marilu, conversava sempre sobre o rapaz com a moça, como o de jogar RPG, um jogo de interpretação de personagens. Role-Playing Game.
Nadir
--- É um jogo de interpretação de personagens. - - disse a colega de Marilu
Marilu
--- Eu não conheço esse jogo! - - abusada
Nadir
--- É um jogo baseado no mundo medieval. De certa forma, não deixa de ser uma coisa sinistra e se passa horas e horas jogando. - - sorriu.
Marilu
--- Sinistra? Como assim? - - indagou
Nadir
--- Eu joguei isso uma vez e fiquei morrendo de medo. Hoje, eu só vejo os rapazes jogar.
Marilu
--- Esse tipo de jogo eu nunca vi! - - torceu a boca
Passado o tempo, ela chegou a ver o jovem Iran com a cara fixa, uma certa escuridão no olhar. E desviou logo de caminho. Deixou o jovem Iran para lá, andando meio sem graça. Marilu sabia então, de haver muita “balada” onde Iran sempre estava.
Nadir
--- Vamos a “balada”? Nestor vai! Vamos? - - quis saber
Marilu
--- Eu, não! Tenho aula e vou preparar meus estudos! - - se desculpou
Nessa balada, havia a turma “gótica”, como o Iran. E Nestor, aparentemente, uma boa pessoa, também conhecia o Iran. A turma a “roupa preta” tinha uma estranha mania de beber no Cemitério às sextas-feiras à noite e jogar também a RPG. O Cemitério fica em um morro e nem é grande demais. Por falta de iluminação, a turma se reunia na parte escura do Cemitério, perto de um Cruzeiro dito como “assombrado”.
Nadir estava por perto com o Nestor. Como todas as sextas-feiras, eles todos estavam reunidos. Mas, por ser já bem tarde da noite, a turma quase toda saiu, ficando Iran, um de menor com Nestor e Nadir. Foi quando o jogo ordenou matar o Nestor. Iran tentou estrangular Nestor. Como Nestor se debatia muito, Iran pegou uma pedra de mármore
Nadir
--- Cuidado, Nestor. Ele vai te matar! - - gritou a moça
Iran acertou a pedra na cabeça de Nestor, causando a sua morte. Logo após, comeu partes dos órgãos de sua vítima. Nadir entrou em pânico
Nadir
--- Não! Não! Não! Você matou Nestor! - - gritava a moça, em desespero
Após o ocorrido, Iran desceu até a Capela e ligou para a polícia em total desespero.
Iran
--- Um crime ocorreu aqui no Cemitério. Venham! Venham! - - gritou Iran
Nem o Iran sabe contar o ocorrido. Apenas Nadir, porque viu toda a cena macabra.
Nadir, em testemunho.
Nadir
--- Ele pegou, a pedra e meteu na cabeça de Nestor. Foi assim que ele fez. O RPG ordenou que ele matasse o amigo. - - chorando
Polícia
--- Foi assim que se deu? - - perguntou o policial a Iran
Iran
--- Eu não sei. Sei que o jogo me mandou matar o rapaz. É o que eu lembro.
Na necropsia se constatou que o Nestor foi esganado por Iran, pois havia marca no pescoço e tufos de cabelos em suas mãos. Havia sangue na pele e na cabeça de Nestor havia ferimentos grandes.
Marilu seguiu o cortejo do sepultamento de Nestor. Entre meios das pessoas ela viu o Nestor a olhar seu sepultamento. A sua mãe, irmãs e o próprio pai a chorar. O dia estava nublado. Era manhã de copiosa chuva.
Marilu
--- Estas a ver o que te sucedeu? - - indagou a moça
Nestor
---Iran me matou por ordem do Jogo. - - declarou o morto
Marilu
--- Foi tudo assim? - -
Nestor
--- Sim. Por certo que foi. - -
A moça se afastou do morto pelo lado de fora do pessoal, afiliares enlutados, e seguiu para o Jornal onde faria a matéria do sepultamento. Entristecida, ela nem podia falar no testemunho de Nestor. Apenas digitaria o ocorrido
Lauro
--- Como ocorreu o enterro? - -
Marilu
--- Como todo enterro. Prantos e chuvas. - - respondeu
Lauro
--- E o criminoso? - -
Marilu
--- Preso. - -
Lauro
--- Ainda bem. - -

sexta-feira, 9 de junho de 2017

SONHOS DE MARILU - 30 -

- O DEMÔNIO -
- 30 -

PASSOS NA MADRUGADA -

Na noite de certo dia, Marilu já estava em sua casa acabado de fazer o material da aula do Ateneu. Já era quase madrugada. Ela ouvia o galo cantar àquela hora e pressentiu ser mais da meia noite. A sua mãe, dona Noca, já dormira uma vez que teria de se levantar ainda cedo, madrugadinha, com certeza. Apesar dos afazeres da moça Marilu, a sua mãe continuava a fazer bolos e salgados para vender no Mercado Público. Nesse tempo, Marilu já não seguia com sua mãe à vendagem, salvo nos domingos, quando não estava muito cansada de seus afazeres no trabalho e no Colégio. O silencio era total naquela madrugada. Ela desligou o rádio, que estava com o volume muito baixo, e foi até ao banheiro cumprir suas necessidades antes de pegar no sono naquele resto de noite. Noite de escuridão, uma vez não haver lua. Ratos corriam pela sala e Marilu batia com a vassoura para espantar os camundongos. Isso ela fazia sempre, pois os bichos eram aborrecidos por demais, principalmente pelo cheiro das comidas que a sua mãe fazia logo cedo da noite. Certa noite ela estava a dormir quando despertou de repente e chamou por sua mãe de modo que ouvira alguém caminhar com os pés macios, pelo interior da casa
Marilu
--- Mãe? É a senhora? - - quis saber pois as pisadas não se ouvira mais
Dona Noca nada falou uma vez que ainda não acordara de pronto. Marilu ficou quieta observado de ouvia novamente o barulho em surdina. A moça sempre teve a mente aflorada para esses assuntos espirituais. E sempre que se aproximava de tais assuntos, seja por feitiço ou por uma simples conversa a respeito disso, coisa ocorriam com Marilu. Ou atormentado por sonhos ou por enigmais. Mas nada chegou tão perto a respeito do que Marilu sentiu
Ela estava na fase de pesquisa de espiritismo. E foi então que o caso ocorreu.
Marilu
--- Quem está aí. É, de fato algum espírito do mau? - - perguntou
Um silencio escabroso ocorreu. De imediato, um ente misterioso surgiu em seu quarto, junto a sua cama, apresentado apenas um vulto. Era um ser misterioso, cabelos longos, cobrindo todo o seu corpo, a face enrugada como sendo alguém de anos passados, talvez 150 anos ou mais. Marilu se encolheu toda em sua cama.
Marilu
--- Quem é você? Fale de uma vez! É um demônio? - -
O espírito sorriu, com um estranho poder querendo pegar a moça com as suas mãos encarpadas como as de um vampiro ou duende satânico. Nesse momento, Marilu lembrou a Santa Cruz de Caravaca em sua cama e a pegou, brandido a sua frente para a horrenda e estranha figura.
Marilu
--- Sai daqui Satanás! Sai daqui Satanás! Sai daqui Satanás! Eu te ordeno! - - com a Cruz pulsando a frente da figura apavorante.
Ela se levantou, em cima da cama e insistiu em proferir para a figura arrepiante. O estranho monstro, se era assim que ela sentia chamar aquele Diabo, abafou surdo pelas narinas como querendo sugar Marilu e pegá-lo com estupenda força e arrancá-la para fora levando-a para longe, em algum lugar onde pudesse saciar a sua sede de miséria. Ela continuava a gritar para a besta, cruzando a Cruz que encontrava no livreto pequeno, a única arma que possuía. A Cruz de Caravaca é um livro fino que Marilu encontrou perdido em uma livraria do Sebo, na cidade. Esse livro trazia orações sagradas para espantar os demônios perdidos pelo mundo. A moça achou interessante e, de imediato, o comprou, levando para a sua casa ode começou a ler.
Nesse momento, a sua mãe, dona Noca, acordou e se levantou mais que depressa, a ouvir o barulho vindo do quarto onde Marilu dormia. Uma luz estava acessa e Marilu ouviu o barulho quando a mulher pulou da cama mais que depressa e saiu correndo para o quarto vizinho. Ao chegar lá, perguntou, assustada, vendo a filha com um livro armado na mão, como se estivesse se defendendo naquele instante. E perguntou:
Noca
--- Que é isso, menina? - - perguntou assustada
Marilu
--- O demônio, minha mãe! Sai! Sai! Puxa daqui! - - gretava a moça

A mulher não via nem um risco, muito menos o demônio. Em desespero a mulher gritou, por seu lado.
Noca
--- Que demônio? Não tem nada aqui! - - reclamou
Marilu
--- Ele, agora, fugiu de vez! Mas, estava junto a senhora quando entrou no meu quarto! Ele era um animal de outro plano! Eu vi, minha mãe! Eu vi! - -    
A moça gelou de constante frio tendo um susto enorme. Ela conseguiu evitar aquele animal demoníaco. Daquele dia em diante, Marilu passou a noite por várias semanas sempre com as luzes acessas. E sua mãe, dona Noca, sempre indagava porque tanta luz acessa ela contava sempre a mesma história.
Marilu
--- Por causa da besta-fera! - - relatava
Sempre que a moça se aproxima de um assunto anormal, ela fica com medo. E não dorme de jeito algum, no escuro. E não precisa nem de conversar sobre tais assuntos porque ela fica assombrada. Nas noites de sessão no Centrou Espírita, Marilu sempre frequenta. Mas não conversa sobre esse assunto com pessoas desconhecias.  No Jornal ela fica mais quieta quando surge um assunto macabro. Se alguém pergunta se Marilu já viu alguém de madrugada, ela evita contar.
Na verdade, gentes contam histórias de fantasma, principalmente hediondos. Quando se viaja, sempre tem algum fantasma perturbando nos banheiros, nos quartos vagos, entre as sombras da escuridão. Sempre têm. Teatros ingleses, são comuns de aparecer assombrações, homens vestidos de cinza carregando uma espada. No Brasil, as pessoas acreditam em lendas quando se vai a um banheiro no escuro. O roube ou o sequestro de um cadáver é algo bastante esquisito. Mas acontece, sim. Marilu já viu por diversas vezes um vulto vítima de um sequestro.
Marilu
--- Não quero nem falar dessas coisas! - - contava a moça
Joana
--- Tem medo? - - sorriu
Marilu
--- Já vi coisas estranhas. Não quero nem pensar! - -
Joana
--- Vida após a morte? - -
Marilu
--- Muitas ações desse tipo! Não é mentira! Eu vejo, sim! - - e pensou no demônio 

SONHOS DE MARILU - 29 -

- TÚMULOS -
- 29 -
EXPERIÊNCIA INSÓLITA -

Em dia qualquer, Marilu chegou logo cedo à redação do Jornal no qual trabalhava. Não havia alma alguma no setor. Apenas o fotógrafo Canindé. Esse homem chegou trazendo as fotos do dia anterior. E depositou em uma bandeja onde se punhas as fotos tiradas um dia antes e até no mesmo dia, se fosse tarde. Calado veio e calado saiu apesar de falar à Marilu.
Canindé
--- As fotos! - -
Marilu
--- Pode deixar. - - e sorriu baixinho
E assim se sucedeu. Canindé saiu e Marilu continuou a bater à máquina o restante da matéria do dia passado. Ela mesma nem ligou para as fotos. Bem sabia que eram as fotos de sua matéria, com certeza. Nesse instante, entrou na sala uma senhora já um tanto alquebrada indagando por um repórter.
Anciã
--- Bom dia. Por favor, aqui tem algum repórter? - - perguntou
Marilu
--- Eu sou repórter. Pode dizer. - - respondeu
Anciã
--- Muito obrigada. Eu estava à procura de um repórter pois, afinal, hoje eu tenho um enterro para ser feito dentro de algumas horas, no Cemitério. - - disse mais
Marilu pensou: “Lá vem merda p’ra mim”. - -
Então a repórter indagou
Marilu
--- Quem é a vítima? Seu marido? - -
Anciã
--- Sim. Meu marido. Ele morreu ainda hoje, de madrugada. Era indigente. Só tinha eu e ele e mais ninguém. A senhora pode fazer a cobertura do enterro? - - perguntou
Marilu olho para um lado e para outro e não viu ninguém. Só ela estava na redação do jornal matutino. E então perguntou a anciã.
Anciã
--- Se a senhora for, é daqui há uma hora. O caixão está exposto no Campo Santo. Logo na entrada. - - declarou a anciã, corcunda até demais
Marilu
--- Pode deixar. Eu vou, agora mesmo. A senhora me espere lá embaixo. - - declarou
E a anciã saiu, meio trôpega, descendo a escada para esperar a moça, lá embaixo no edifício do Jornal do Estado, um dos mais lidos jornais da Capital. Marilu se arrumou, passando talco no rosto, se olhando em um espelho para ver se estava bem preparada, pegou a sua bolsa de colo e uma caderneta com seu lápis, passou pelo laboratório do fotografo, chamando o rapaz para uma cobertura de emergência, e em seguida desceu a escada. Em baixo, procurou Inácio, o motorista da redação. Esse, estava conversado com colegas. Ela indagou:
Marilu
--- Onde está a velha? - - indagou surpresa
Inácio
--- Que velha? Não vi ninguém! - - respondeu
Marilu
--- A meu Deus! Uma anciã bem corcunda. Ela veio me esperar aqui! - - insistiu
Inácio
--- Aqui, não! Vocês viram uma velha passar aqui? - - perguntou o motorista
Ninguém viu mulher alguma a passar naquele espaço. E Marilu, desesperada, correu até a esquina do edifício, pois o prédio dava de uma rua para outra, esquina onde o Bonde fazia a volta para seguir viagem em direção à cidade. E lá chegando, avistou a anciã. Então, gritou.
Marilu
--- Minha avó! É por aqui! Venha! Vamos pegar o carro! - - aclamou
A anciã parou e, devagar, retrocedeu a fazer a volta com enorme sacrifício. Então, falou, com voz um tanto rouca.
Anciã
--- Vou pegar o Bonde. Ele já vem passar. - - respondeu
Marilu
--- De Bonde, não! Vamos de carro. É mais ligeiro. Ele está esperando aqui! Vamos! - -
E a anciã retrocedeu, caminhando bem devagar, parecendo uma lesma. O automóvel já estava no aguardo. Canindé jogou o seu malote no interior do carro e se pôs a sentar à espera da anciã. Marilu, com muito vagar, abriu a porta do auto para poder dar acesso a idosa que se locomovia vagarosamente. Logo após o auto largou. Marilu, no interior do auto, quis saber o nome do marido da anciã.
Anciã
--- O nome do coitado, é Júlio. Todos o conheciam por Antão. Mas, na verdade, era Júlio Mendonça. - - responde a anciã
Marilu
--- E a senhora, como é tratada? - - indagou
Anciã
--- Meu nome é Chiquinha. Na verdade, Francisca de Antão Mendonça. É como me tratam. Chiquinha. - - lembrou
Marilu
---- Que idade tinha seu marido? - - quis saber
Chiquinha
--- Eu nem me lembro. Porém era coisa de 95 anos. - - salientou
Marilu
--- Bela idade. E a senhora? - - perguntou
Chiquinha
--- Eu? 90, se não me falha a memória. - -
Marilu
--- A senhora tem filhos? - -
Chiquinha
--- Todos já se foram. Agora, só eu e Deus. E o meu marido, também. O coitado do Antão. Que Deus o tenha. - - lacrimou
O auto parou em frente ao portão para descer a velhinha, a repórter e o fotógrafo. Após esse esforço medonho, com o descer da velha, Marilu se ajeitou para registrar o sepultamento de Antão, o idoso. A idosa entrou no portão do Cemitério, dobrou em uma rua e então, desapareceu de vez. Marilu nem percebeu o seu desaparecer. Ela estava a cuidar dos seus apontamentos de praxe e o fotografo Canindé já estava longe a registrar as fotos de túmulos caídos. De repente, a moça voltou em busca da velha.
Marilu
--- Onde está a mulher? - - perguntou curiosa
Canindé
--- Deve estar na catacumba do velho. - - respondeu
Marilu
--- E onde é que fica o túmulo? - - perguntou assustada
Canindé
--- Agora, deu! E eu sei? - - sorriu
Marilu
--- Não faz sentido. A mulher sumiu de vez! E agora? - - assustada
Canindé
--- E o caixão? - - sorriu
Nesse momento, a procura a Urna a moça, Marilu, viu algo surpreendente. Uma cova contendo duas fotos pregadas na parede de barro, onde trazia os nomes da mulher e do seu marido, o casal Antão. Marilu teve um susto danado.
Marilu
--- Que horror! - - pôs a mão na boca.