sábado, 22 de agosto de 2015

MAR SERENO - 01 -

- MAR SERENO -
- 01 -
COMEÇO -
Eram sete e meia horas da manhã daquele dia de verão. Maria Isis Fernandes chegou ao balcão do bar existente próximo a Brasília Teimosa, bairro de Natal e notava apenas uma mulher arrumando copos e bandejas estando de costas naquele instante. Ela queria um pouco de água, pois apesar do tempo, já fazia calor àquela hora bem cedo da manhã. E para tanto, tocou com o nó do dedo a madeira do balcão como se com isso fizesse uma zoada fraca para não assustar a mulher. Com o toque a mulher, mesmo sem se soerguer, olhou para trás e indagou.
Alice
--- Diga, moça! – Falou a mulher.
Isis.
--- Um pouco de água, por favor. – Respondeu a moça.
Alice
--- Espere. Vou já. – Respondeu enquanto se erguia e fazia careta pelo modo como estava.
E, nem tanto de imediato, Alice, mulher que despachava no bar, veio com um copo de água gelada e colocou à mesa pondo a disposição de Isis. Naquele instante, Alice olhou bem a moça e pesquisou para ver se havia aliança em seus dedos. Nada viu e nada quis saber. Apenas desviou o olhar para ver o movimento da praia. Um ônibus saiu do seu ponto e seguiu em direção a cidade àquela hora cedo da manhã. O carro seguia apinhado de gente. Nesse instante Alice olhou bem para quem partia e nada falou. Ao fim do copo Isis indagou.
Isis:
--- A senhora sabe onde se pode pegar um trabalho? Qualquer trabalho? –
Alice nem ligou para o que ouviu. Porém, passado um instante, informou.
Alice
--- Tem gente que vende coisa na praia. Você é de fora? – Quis saber
Isis
--- Um pouco além de Santa Cruz. Já chegando em Campo Redondo. – E fez menção com a mão.
Alice
--- Não conheço nada para aquelas bandas. –
Isis
--- A senhora é daqui? –
Alice
--- Paraíba. Minha família é toda paraibana. Apenas minha avó é de Alagoas. –
E recolheu o copo levando para pôr em um local onde se recolhia os pratos sujos de comida.
Isis
--- Eu cheguei, aqui, no início da semana. Da outra. E fui para a casa de uma tia, aqui mesmo nesse bairro. Mas, na casa de minha tia anda tudo muito fraco. Ontem, não teve almoço. Hoje, não teve café. O marido de minha tia vive como Deus quer. Bêbado até morrer. Sei não. Ela já está um tanto alquebrada. As filhas ganharam o mundo. Um filho, esse só aparece no início da noite, e novamente vai embora. Eu decidi: vou procurar um trabalho. Seja lá do que for. Até mesmo de vender cocada. Mas, não tem quem faça. – Falou a moça a chorar. 
Alice se pôs a ouvir e, por um instante, falou.
Alice:
--- Coitada. Eu não ofereço nada porque nada posso dar. Tenho esse barraco e só vendo cachaça. Nos finais de semana, tem mais alguma coisa. Almoço, esse ainda sai todos os dias. Mas, é só para os mecânicos. O resto é assim. –
Nesse ponto, se aproximou do bar um rapaz por nome de “Carioca”. Ele chegou apressado e pediu um café com pão, ovos, pouco de cuscuz e nada mais.
Carioca:
--- Olá. Ponha café. – Pediu.
Alice
--- Que mais? – Com a cara trancada.
Carioca
--- Tem ovos? Dois. E cuscuz. Pão, também. –Sorriu sem querer e olho para a moça
Isis se afastou do rapaz para um pouco mais distante. Esse, perguntou.
Carioca
--- Trabalha aqui? –
E Isis partiu para o outro lado do barraco. Nesse instante, Alice observou o rapaz e pediu para a moça entrar.
Alice
--- Entre. A porta é do lado. – Disse para a moça a evitar contratempo
E assim, Isis fez. Ela entrou no barraco e seguiu para a cozinha. Alí, pegou logo os pratos sujos e começou a lavar.
Isis:
--- Quem é ele? – Perguntou a murmurar.
Alice
--- Um Zé ninguém. Só arruma confusão. – Respondeu
Isis
--- Já estou cheia disso. Tive um que mataram. Foi uma facada só. - - chorou.
Alice
--- P’ra[aa1]  ver. Aqui, matam um todo dia e deixam dois amarrados para o dia seguinte. - Comentou
Isis
--- É no mundo todo. –
Alice
--- Você estuda? –
Isis
--- Fiz o primeiro grau. Também, onde eu moro não escola mais adiantada. –
O rapaz procurava ouvir a conversa. Porém não havia modo. E indagou.
Carioca
--- Que tanto vocês cochicham? –
Alice
--- Não te interessa. Como e pague. – Respondeu abusada.
Carioca gargalhou e respondeu
Carioca
--- Dinheiro, só mais tarde. Agora, nada. – Sorriu metendo a mão da boca para retirar as farpas do que sobrava. E sugava ainda mais.
Alice
--- É assim. Cambada de ordinários. – Relatou para a moça.
Isis
--- E ele paga? – Indagou assustada.
Alice
--- Paga. Ele teme o meu homem. – Declarou abusada.
Isis
--- A senhora tem marido? –
Alice
--- Apenas um. Ele vem já. Foi buscar as compras.





quinta-feira, 20 de agosto de 2015

LAÇOS DE TERNURA - 50 -

- MISTÉRIO -
- 50 -
A MORTE -
De repente, chegou à frente da casa a moça Walquíria, puxando o garoto Ciro pelo braço e logo indagou da situação atormentada não esperando nem mesmo a cozinheira ir chama-la, pois, a conversa estava como que acalorada e entrando de casa a dentro. Ajeitando o vestido, Walquíria foi logo a indagar.
Sorvetinho
--- Que houve gente? Algo de mais? – Indagou assustada.
Noca
--- O pescador. Ele informou da morte do prefeito! – Relatou a mulher com susto
Sorvetinho
--- Prefeito? Que prefeito? Avia! – Quis saber detalhes
Noca
--- O Prefeito de Baía. Onde ele vai sempre. Lá! – Falou clamorosa.
Sorvetinho
--- De Baía? Que Baía? Formosa? Ai meu Deus! Onde botaram um para baixo? – Perguntou sem sossego.
Pescador
--- Sim, sá dona. É lá mesmo. O Prefeito de lá foi morto nessa madrugada. Quatro homens. Eles deram tiros de morte. Os capangas do Prefeito ainda perseguiram os bandidos. Mataram dois. Os outros, fugiram. Está um clamor! – Relatou o pescador cheio de espanto.
Sorvetinho
--- Ave meu Deus! Vou já chamar Dalva. E ligar a TV. Não é possível! – Saiu puxando pelo braço o seu afiliado
Noca
--- Ave meu Deus. E quem eram os criminosos? – Perguntou alarmada
Pescador
--- Sabe lá quem foi! Gente de outro Estado. Por que, não se sabe! – Lamentou
E ao telefone com o aparelho de televisão já ligado, Walquíria tentava chamar a dona da casa, senhora Dalva e indagar sobre o rumoroso caso. Após alguns minutos, Dalva atendeu. E quis saber
Dalva
--- Diga, mulher. O que houve? –
Sorvetinho
--- O Prefeito. Mataram o Prefeito da cidade! – Respondeu alarmada.
Dalva
--- Quem? Daqui? Quando? –
Sorvetinho
--- Não. De Baía Formosa. Agora. Parece. O pescador foi quem deu a notícia. Ave meu Deus. Os desalmados mataram o homem. Foi bala muita. –
Dalva
--- Não diga isso. Verdade? A que horas? Quantos marginais? –
Sorvetinho
--- Espera. Espera. A TV vai divulgar agora. Eu te chamo. –
E a emissora passou a divulgar a notícia da morte do prefeito José Lima da Silva empossado há pouco tempo no Cargo. O Prefeito José Lima estava dormindo em sua casa, em Baía Formosa, quando quatro homens a invadiram e, armados de escopetas, detonaram, matando o Prefeito na mesma hora. Os capangas se alertaram e perseguiram os marginais deflagrando balas em todas as direções acabando com a vida de, pelo menos dois marginais, enquanto os demais conseguiram escapar. Não se sabia, ao certo, se dois ou três escaparam da refrega e fugiram em um carro pegando o destino ignorado. Os que ficaram, eram todos mascarados. Os transeuntes temeram o ocorrido. Mesmo assim, os capangas conseguiram retirar as máscaras das caras dos agressores e nada mais disseram de quem seriam os mortos. Dois policiais chegaram ao local horas depois e guardaram os mortos enquanto a Polícia era acionada logo pela manhã. O corpo do Prefeito continuava em sua casa. Foi um caso nunca visto na cidade.
Mais ao longo do dia, outras informações eram dadas, mesmo assim, nada se podia afirmar com certeza o mandante do assassinato do prefeito José Lima. O caso foi levado a Capital. O corpo do defunto passou por autópsia naquele dia sendo despachado para sepultar no dia seguinte.
Dalva
--- Não disse! E eu fosse o prefeito? – Comentou.
Zequinha
--- Isso é rixa antiga. Talvez de outras terras. – Falou consciente
Dalva
--- Mesmo assim, isso não me pega. Eu prefiro ficar em minha casa com os meus do que está exposta aos demais. –
Zequinha
--- Laços de ternura, com certeza. – Sorriu
Dalva
--- Pois é. Isso é muito melhor.  
Horas, dias, semanas e meses foram passados. Tudo estava calmo, salvo pelas chuvas caídas vez por outra a deixar as pessoas aflitas com o aguaceiro insistente capaz de afogar a várias pessoas em um só tempo. Independente disso, tudo era então normal. Certa vez, a madrinha de Ciro quis saber.
Sorvetinho
--- Que dia é hoje? – quis saber.
Dalva.
--- Segunda. Por que? –
Sorvetinho
--- Ah. Porque dentro de uma semana tem nova festa. – Sorriu
Dalva
--- Já sei. Aniversario de Ciro. – Sorriu amplo
Sorvetinho
--- Então, vamos à luta. – Sorriu
Dalva
--- Você pensa que eu esqueci? Eu já estou pronta para chamar os coleguinhas. Que venham! –
Amanda
--- Falta apenas uma coisa: -
Dalva
--- O que? –
Amanda
--- O velho barrigudo que quis fazer Prefeita a mãe de Ciro! – Gargalhou.  


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

LAÇOS DE TERNURA - 49 -

- BAÍA FORMOSA -
- 49 -
DECISÃO -

A decisão era fatal. No decorrer dos minutos, Dalva mergulhou bem fundo em sua decisão para poder falar de forma inequívoca. O Chefe de Governo, Osvaldo Souza Barcelos era um homem rico, extremamente poderoso e tinha o poder em suas mãos. Era como se falava: “O que o Governador quer, ele faz”. Um homem austero. Ele assumiu o poder por causa da morte do ex-Governador anterior quando o avião no qual viajava, naufragou de vez no Oceano Atlântico, próximo à costa do Rio Grande, mais para dentro do arquipélago de Fernando de Noronha. A senhora Dalva Lopes Baldo tinha então que se decidir em ser ou não Prefeita do município de Baía Formosa onde existia a praia de Sagi, principal distrito daquele município, próximo à divisa com o Estado da Paraíba. Na verdade, Sagi está localizado a 90 km de Natal com praias praticamente intocadas. Seria o paraíso da natureza não fora o acidente ocorrido com o navio que foi ao fundo totalmente consumido pelo fogo após debater nas encostas da bela praia. Baía Formosa era a sede municipal principal produtora de cana e camarão E era esse município que o senhor doutor Osvaldo Souza Barcelos teve a visão aguçada. A praia de Sagi seria transformada em um polo turístico para visitantes de Natal e da Paraíba. No local, tinha um ponto importante. Além das casas dos pescadores, aldeia de índios onde menos índios tinha nesse tempo, algo mais se apresentava: o rio do encontro com o mar. Se não se podia ter algo mais, o rio Guaju era o ponto maior. No alto, as dunas. Em baixo, o resto do navio petroleiro afundado por conta da natureza. Os nativos, tinham o dever de cobrar da mãe natureza o quinhão que lhe sobrara: a devastação do navio naufragado por esse resto de tempo. Sagi é uma praia extensa com algumas pequenas baías. Era esse o ponto nefrálgico a verde perto o Governador do Estado. E nesse ponto, Dalva Lopes falou com convicção.
Dalva
--- Muito bem. Eu não aceito a proposta. Talvez o Governador se decepcione com a minha posição. Mesmo assim, eu peço desculpas. Não aceito.
As duas irmãs – Amanda e Walquíria – pareciam ter tomado um tremendo susto. Não aceitar uma oferta como a qual era mais que temeroso. O ancião, José Afrânio, pigarreou forte. O convidado, Jorge Aranha, calado ficou por algum tempo. O vento frio soprava do morro e calando por algum tempo. Meninos brincavam na rua com suas algazarras. Um vendedor de frutas passava a oferecer por melhores preços as mangas, cajus, sapotis e tantas coisas mais. No seu lugar, quieto estava o homem, Jorge Aranha, como se soprasse os dedos das mãos, pois juntara-os e de vez, soprava-os. De sua boca não saia nenhum murmúrio. Ele, tao somente observava a mulher com seus olhos mortos sem nada falar. Sagi, última praia do Estado para se encontrar com a Paraíba, local do município de Baía Formosa era uma praia intocável nos tempos de outrora. À vista do plantio da cana, em amplo município, era Sagi uma pobreza total para quem não o conhecia. No local, era franco o camarão e peixes apanhados nas redes de arrasto. Se não fosse o navio encalhado a vida dos seus habitantes não tinha maior progresso.
O almoço transcorreu num clima de silêncio quebrado por uma opinião ou outra como o sertão faminto, a falta de água, os riachos sem nada, os açudes esturricados, animais mortos na estrada, alarmes e choros. Essa opinião era dada por José Afrânio para ver o homem barrigudo a olhar o tempo sem nada mais falar. As lagostas eram o prato favorito da mesa naquela manhã tropical em Natal, região leste do Estado. Baía Formosa, apresentava um aspecto selvagem na natureza a respirar um ar inexplorado. Naquele remanso encontrava-se a maior reserva da Mata Atlântica ainda preservada: a Mata da Estrela. A cidade localiza-se às margens de uma baía. O nome Baía Formosa vem da única da única baía do litoral do Estado.
Amanda
--- Por que se chama Mata da Estrela? –
Zequinha
--- Porque tem alí a maior reserva da Mata Atlântica. A Mata margeia toda a extensão litorânea da Baía. Dunas imensas, florestas e só lagoas. – Explicou.
Amanda
--- Entendi. Aliás, eu já estive ali como o senhor. Lembra?  - Sorriu
E o almoço se prolongou até o meio da tarde quando o senhor Jorge Aranha resolveu partir perguntando ao seu novo amigo José Afrânio desejava ir também e esse recusou afirmando para depois, uma vez ter ainda que falar com Dalva. Assim, sem mais promessas, Aranha partiu de vez em seu automóvel. 
José Afrânio indagou de Dalva a razão de rejeitar a oferta de sair candidata à Prefeitura de Baía Formosa e teve como resposta ser “mais um emprego” e ela não estava ciente de tal função, até por que era um caso desconhecido. Afinal, Dalva já estava ambientada como funcionária da Universidade e outra função não lhe faria bem.
Dalva:
--- São questões que eu desconheço. E não pretendo ingressar em um ponto sem ter um conhecimento qualquer. Alguém diz algo. Outro é o contrário. Tem os camachos. É um horror! –
Zequinha
--- Certo. Certo. É a sua natureza quem lhe adverte. Eu conheço várias mulheres que deixam tudo para se dedicar a política. Mesmo assim, isso é a natureza dessas mulheres. O que ela está vendo é o poder de ganhar mais. Ganhar bem. E trabalhar menos. Aqui mesmo, no Estado, tem várias dessas mulheres. Elas começam como presidente de uma agremiação pequena. Depois se elege vereadora e vai seguindo como deputada, prefeita, governadora, entra pela política como até senadora e chega a Ministra.  É o cargo. O cargo. Veja na Argentina ou nos Estados Unidos. As mulheres querem ser as maiores. As líderes. –
Dalva;
--- E na Alemanha. Elas querem ter o poder. Mas: que poder? Na Inglaterra também é a mesma coisa. Na Índia e em outros locais. É uma sanha terrível. Não se vê mais uma mulher sendo dona de casa. Ela não quer isso. Ela quer os cargos dos homens. Bosta! – Disse amarga.
Zequinha
--- Por esse lado você tem razão. Benazir Bhutto foi uma política do Paquistão. Duas vezes primeira-ministra e, por fim, Chefe de Governo. Ela foi morta em Rawalpindi, em seu País, em um atentado quando voltava, ao ser atingida por uma bomba. É assim. – Cuspiu de lado.
Dalva
--- Eu não sei o meu destino. Posso, um dia, ser morta. Mas, posso viver bem. Mesmo assim, não me interessa ser política. Nem presidente das mulheres que vivem a fazer café. – Sorriu
Zequinha
--- Eu já exerci cargos importantes. Mesmo assim, me aposentei como um mero empregado. Nunca me veio a ideia de ser vereador ou presidente, secretario ou tesoureiro de um sindicato, mesmo depois de aposentado. Eu fico como alguém que assume um local em uma mesa de uma Casa Espírita. Mesmo assim, não quero ser o maior de todos. – Destacou
O dia passou e, ao anoitecer José Afrânio seguiu para a sua moradia no automóvel de Dalva Lopes Baldo com sua neta Amanda ainda a conversar com as tolices de sempre. Passados alguns dias, o pescador chegou a residência de Dalva, logo cedo da manhã para deixar uns peixes e lagostas como fazia sempre. Do portão, chamou o jardineiro perguntando pela “patroa”. E o jardineiro respondeu.
Jardineiro
--- Ela já foi para o emprego. Algo? – Indagou
Pescador
--- Vim trazer os peixes. Dona Noca? – Indagou pela mulher cozinheira.
De momento, respondeu a mulher:
Noca
--- Estou indo. – Respondeu sorrindo
Pescador
--- Ah. Está aqui os peixes e umas lagostas. Segure. –
Noca
--- Isso já está sendo um vício. – E sorriu.
Pescador
--- Que nada. No mar tem muita. – Relatou sorrindo com seu chapéu de palha.
Noca
--- Ah Bom. Novidades? – Indagou
Pescador
--- Não. Apenas a morte do prefeito de Baía. Quatro homens entraram na casa dele e fizeram fogo. Pei bum – disse o pescador
Noca:
--- O Prefeito? Ave Maria! Agora? Quem fez isso? Vou chamar Sorvetinho! – e saiu apressada.



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

LAÇOS DE TERNURA - 48 -

- MANSÃO -
- 48 -
VISITA -

Num dia de domingo, bem depois da festa de Ciro, um carro estacionou em frente à casa de Dalva Lopes e dele desceram três distintas figuras: Amanda, José Afrânio e o recente conhecido Jorge Aranha, o tal “eminencia parda” como ficou logo conhecido por Dalva e Walquíria quando ainda na festa. Os três personagens logo entraram e o jardineiro fez presença enquanto chegavam à sala as duas personagens do dia: Dalva e Walquíria, essa amparando o seu afiliado Ciro, garoto que estava bem mais solto a medida que a idade avançava. E começaram a conversa entre muitas outras coisas. Navio que pegou fogo, marujos que morreram, gente da praia e do mato e, enfim, a Prefeitura.
Aranha
--- Eu sinto ser preciso uma administração mais forte. O que achas? –
Dalva
--- De política eu não entendo nada. – Sorriu.
Aranha
--- Mas há política de toda espécie. Veja bem as estrelas. É política. Como o Sol, o firmamento e tantas coisas ainda não vistas. Tudo é política. –
Dalva
--- Sei disso. Prostituição também é política. Comprar carro, vender alface. Isso tudo é política. Eu preciso dizer que não entendo de política partidária. Um sujeito está, hoje em uma banda. Amanhã, puxa para outro lado. Isso é que não aceito. Então, fico calada. – Afirmou.
Aranha
--- Faz bem. Faz bem. Mas se na hora de votar, em quem a senhora consagra? –
Dalva
--- Eu não voto. Prefiro viver independente. - 
Aranha:
--- Claro. Claro. A senhora está correta. Eu tenho amigos e eles não votam. Claro. Cada qual faz o que melhor entende. Porém vejamos: eu – digamos – sou um candidato. Mas, tem outros que não pegam um prego numa barra de sabão. Esses, não votam. E se eu sou candidato, sei que se ninguém votar em mim, eu vou ter apenas um voto. Imagine eu ser eleito por apenas o meu voto! – Sorriu -. No Rio Grande do Sul, teve um caso bastante interessante. Dois candidatos a prefeito, um por um determinado partido ao contrário do outro. Os dois irmãos, com certeza eles eram irmãos, chegaram ao fim da votação e se surpreenderam com o resultado. Os dois tiveram igual votação. Nenhum venceu. E agora? O Juiz deu ganho de causa ao mais velho. E assim a cidade teve o seu prefeito. – Gargalhou.
Sorvetinho
--- Isso foi agora? – Indagou surpresa.
Aranha
--- Faz pouco tempo. Talvez da outra eleição, se bem me recordo. -  
Zequinha
--- Esse foi um caso sui gênere. – Gargalhou
Amanda
--- Tem casos desse tipo. –
Dalva
--- Eu penso ao meu modo. Não voto e pronto. –
Aranha
--- Mas alguém vota. Se a senhora, por exemplo, que sair candidata e não vota, o outro vota. Veja bem o caso. Eu não voto. Mesmo assim outro vota em meu lugar. Se nós tivéssemos uma votação democrática mesmo. Se as pessoas não fossem obrigadas a comparecer às urnas, então seria mais fácil de se conhecer. Nos Estados Unidos, vota quem quer. E não se obriga ninguém a votar. Assim é bem diferente. No Brasil, mesmo a senhora não votando por estar até mesmo em viagem, outro vota. Quer dizer: de uma forma ou de outra, o voto é obrigatório. –
Dalva
--- Assim é, mas não se sabe em quem ou não votou. –
Amanda
--- Mas não é preciso o candidato ter dinheiro nas eleições? –
Aranha
--- Nem sempre. Um vendedor de farinha na feira, certa vez, foi consultado se ele não queria ser candidato a Senador. Ele respondeu: “Eu não tenho um centavo e devo a todo mundo”! O homem que o consultou disse apenas que, se ele quisesse sair Senador, o resto era com o partido a quem o cidadão se filiaria. Então, sem um tostão no bolso, o cidadão saiu candidato e foi eleito Senador. Pergunta-se como? Verba do partido político. –
Dalva
--- É sorte. –
Aranha
--- Não. É estratégia. Na corrida de candidatos é como os cavalos. Vence o que tem mais força. E não sorte. –
Dalva
--- Já sei que comigo eu não tenho essa força. –
Aranha
--- Pode ser. Pode ser. Pelo menos, a senhora já tentou? –
Dalva
--- Nem quero. Esses sortudos estão aí com corda e canga. Eles são os mais trambiqueiros da aldeia. –
Aranha
--- Não quer experimentar? Pelo menos uma vez? Eu tenho um exemplo de que um vereador tentou quatro vezes até vencer. –
Dalva
--- E ele era rico? –
Aranha
--- Que nada. Tinha só uma bodega. Mas persistiu. Teve outro: um homem rico disputou eleição com um sujeito pobre. No fim das contas, o rico perdeu até a medida das calças. –
Dalva
--- E quem ganhou? O pobre? –
Aranha
--- Isso. Isso. Esse pobre, hoje está rico. E o rico vive na mendicância. O pobre tinha apenas um programa de rádio. E não era empregado da empresa. Foi seguindo e hoje já está com cinco eleições conseguindo vitória. É a vida, senhora. Ganha quem sabe levar à frente esse barco. –
Dalva
--- Eu não sei. Não conheço ninguém. E se tenho apoio é só dos amigos, como Walquíria, Amanda, José Afrânio e outras pessoas. Eu estou funcionária da Universidade, a olhar as estrelas e nada mais.
Aranha
--- Certo. Certo. Mas tem agora o governador do Estado. E se estou aqui, foi por um pedido dele!
Dalva
--- Quem? Esse Governador? Eu nem o conheço! Como esse homem pode me conhecer? –
Aranha
--- É o caso. Ele governa todo esse povo. E a senhora, também. Foi a pedido dele que eu estou aqui confabulando.
Dalva
--- Mas eu não sei nem o seu nome! – Espantou.
Aranha
--- Oswaldo Souza. É o seu nome. Osvaldo Souza Barcelos. O conhece? -  

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

LAÇOS DE TERNURA - 47 -

- FESTA DE ANIVERSARIO -
- 47 -
CIRO

Um ano. Era o tempo de festa em homenagem a Ciro, o filho amado, mais ainda por sua madrinha, Walquíria, tendo o seu menino nos braços. A festa foi organizada em um bazar de nome aconchegante como sendo “Boa Música” loja especializada em ambiente de requinte. A costume de Dalva Lopes Baldo, o som da orquestra era apenas de acordeom e violino além de outros instrumentos de corda, como piano e harpa. A festa começava as 5 horas da tarde havendo um intervalo às 6 para se rezar uma prece ao som da “Ave Maria”, de Franz Schubert, reverencia especial por um pedido de suas avós. Nesse meio tempo, passado os meses, Noêmia e o se filho Jose, tinham partido para a praia onde residiam desde muito tempo. O jardineiro foi o único que ficou. A festa transcorreu em um ambiente sofisticado, próprio para festas infantis, de casais e de pessoas de mais idade. Ao som de um violino, o senhor José Afrânio e Odete Beraldo, a esposa, eram apenas felizes. O caso do navio petroleiro ocorrido em uma praia distante, era um fato puramente esquecido. Naquele momento era só festa e nada mais.
A garotada a ingerir bolos e salgados acompanhados de sorvetes e coisa e tal, nem bem ouvia o tocar de um violino, caso mais frequente para os adultos. Nesse momento, um homem gorducho se aproximou do ancião, José Afrânio e teceu conversas políticas. Seu nome era Jorge Aranha, ser bem quisto nos meios políticos. Uma espécie de “eminencia parda” termo bem usado da França de tempos antigos. “Eminencia parda” é um poderoso assessor ou conselheiro que atua nos bastidores ou na qualidade não pública ou não oficial. Essa frase referia-se originalmente a François Leclerc, o “braço direito” do cardeal Ruchelieu. Leclerc era um frade capuchinho que ficou famoso por seus trajes bege ou parda. E entre um assunto e outro veio o que José Afrânio não esperava, apesar de ser um homem capaz de “adivinhar” casos ocorridos.
Aranha
--- Como o senhor deve estar inteirado, há possibilidade de eleições complementares em Sagi. O negócio está em banho maria. Porém, o caso corre rápido. –
Zequinha
--- Mas houve deposição do Prefeito Francisco Paranhos há pouco tempo. –
Aranha
--- É verdade. E assumiu o vice, agora também Prefeito. Mas o negócio não cheira muito bem, se bem que não se fala muito nesse caso. O certo é que tudo leva a crer novas eleições. E eu fico a supor: quem seria o candidato? –
Zequinha
--- Uma coisa é certa. Eu não sou. Até por que não me convém. Sou um homem velho. E para esses casos é preferível gente nova. -   
Aranha
--- É verdade. Mas o amigo não teria alguém para disputar a vaga? –
Zequinha
--- Quem? Eu? Eu não desse tipo de político. Mas, a propósito: por que sua inquietação? –
Aranha
--- Por nada. Apenas estou a pensar. A sua neta. Ela não seria provável candidata? –
Zequinha
--- Essa? Não serve nem para cozinheira. – Gargalhou.
Aranha
--- E não tem alguém de sua família? –
Zequinha
--- O senhor me pegou de surpresa. Eu até que aventurava a colocar a senhora Dalva. Mas, foi um pensamento que eu tive naquela ocasião. –
Aranha
--- Ela é casada? –
Zequinha
--- Não. Não. Não parece, mas é viúva. O marido morreu em um acidente. E por que esse seu interesse tao aguçado? –
Aranha
--- Por nada. Mas, o outro lado não tem candidato especial. E quem sabe de a senhora aceitar. –
Zequinha
--- Duvido muito. Ela é cientista. Trabalha na Universidade. Tem um filho de um ano. Esse pirralho que se estar comemorado a festa. –
Aranha
--- Linda criança. Mesmo assim, podemos conversar com a senhora Dalva? –
Zequinha
--- Duvido que vá a frente. Mesmo assim, se é do vosso interesse, podemos conversar. –
Aranha
--- Ótimo. Ótimo. Assim é que se fala. –
E retirou um charuto do bolso da casaca se pondo então a tragar
Nesse momento, Amanda se aproximou do seu avô e indagou. E perguntou aos dois senhores
Amanda
---Uísque? – apontou para e outro
Zequinha
--- Até que é boa pedida. – e ofereceu um cálice a seu companheiro de conversa.
Nesse meio tempo, José Afrânio teve a atenção despertada. E falou.
Zequinha
--- Minha filha. Eu gostaria de falar com Dalva, se possível. Peça-me a sua gentileza.
Amanda
--- Agora? –
Zequinha
--- Se possível. E pode ser depois. Amanhã, talvez. –
Amanda
--- É melhor depois. Agora, o salão está repleto. Musica. Música. Música. E as crianças. –
Zequinha
--- É verdade. Amanhã. Talvez. – Disse o velho e olhou para o homem ao lado.
Aranha
--- Pode ser depois. Não há pressa. – Respondeu o gorducho
Amanda
--- Eu vou anotar e digo a Dalva. Mas. .... Tem pressa? – Indagou
Aranha
--- Não. Não. Nada de pressa. É apenas uma conversa. –
Amanda
--- Ah bom. Assim será. – Falou a moça já desconfiada com essa “conversa”.
O avô sorriu e despachou sua neta, pois sabia que aquele rastilho seria bem mais rápido. E foi. Há alguns instantes, Dalva falou:
Dalva
--- Quem? Eu? Por que? – Indagou surpresa.
Amanda
--- Escute. Não é nada demais. Vá com calma. Não fale agora. –
Dalva
--- Mas, eu quero saber! –
Amanda
--- E vai. Tenha calma! -  


domingo, 2 de agosto de 2015

LAÇOS DE TERNURA - 46 -

- CONSULTÓRIO -
- 46 -
DALVA -

Quando o carro parou, todos desceram, inclusive José Afrânio, o avô das duas moças. Com um puxão, Walquíria fechou a porta e foi entrando. Na casa, estava o jardineiro à beira do portão. O homem sorriu para os demais e abriu a porta de entrada. Nem mesmo perguntou se Walquíria queria pôr o carro para dentro da garagem. Essa, também nada respondeu. O que lhe faltava era ver o pimpolho Ciro.  Esse, ao mesmo tempo, correu e se abraçou com a sua madrinha. Beijos e mais beijos e os dois seguiram para dentro da casa. Todo sujo de barro, o homem esfregava a roupa. Amanda, também era da mesma forma. Dalva escutava a TV e logo ficou impaciente com seu José Afrânio, pois não esperava tao cedo. Ainda acometida da rouquidão, a mulher não falava, apontando apenas a garganta.
Sorvetinho
--- Ainda? Como é que pode? –
Dalva, apenas sorriu de uma forma com a cara amarga e apontava ter que ir ao médico.
Zequinha
--- Mas é p’ra já! Qual o médico? –
Em seguida Dalva rabiscou o nome em uma folha de papel.
Amanda:
--- Estou imunda. Espera. Um tempo enquanto vou à privada. – E seguiu correndo
Zequinha
--- Ela não urina desde que chegamos a Sagi. – E sorriu.
Sorvetinho
--- Espera. Eu também vou! – Gritou a moça procurando a entrada do gabinete sanitário
Ciro ficou com a guarda de dona Noca. A sua mãe, Dalva, evitou o contato com Ciro por conta de sua garganta inflamada. E o José Afrânio quis saber como foi que tudo ocorreu. A mulher, sem poder falar, apenas dizia por gestos. E o ancião, de imediato, foi dizendo.
Zequinha
--- Procure o médico. E já. –
Dona Noca disse ter feito infusão. Porém, a rouquidão não cedia. E, por cima, veio a febre.
Noca
--- O negócio é com o médico. –
Instantes após, as duas irmãs saíram do gabinete sanitário e Amanda foi logo a indagar.
Amanda
--- Como é? Está pronta? Se está, vamos agora! –
O certo é que o pessoal saiu em debandada com Ciro ficando a chorar por não poder ir com a sua madrinha. Após deixar o ancião em sua casa, as três mulheres seguiram para o consultório do médico.
Após a consulta, o diagnóstico e o medicamento.
Amanda
--- Três dias de cama. – Sorriu
Sorvetinho
--- E chá. – Recomendou.
A garganta inflamada levou a cama dona Dalva Lopes Baldo a três dias sem sair de casa. Walquíria se fez passar como a dona da casa. Os noticiários sobre o incendo no navio ganharam repercussão internacional. De poucas notas foi seguindo a notícia à repercussão das mais importantes redes de TV de todo o mundo, inclusive nas estações da Europa. E com isso, a pequena praia ganhou vulto internacional com apoio dos Governos Estaduais e Federal. Com isso, Sagi ganhou notoriedade. A acanhada praia seguiu a importante segmento do Brasil e do exterior. Via-se pessoas a falar língua estrangeira, inglês por excelência, ou mesmo francês, italiano e espanhol. Nesse ponto, o Prefeito voltou a assumir o seu cargo apesar de estar fervendo por baixo do pano um impicheman contra o mesmo e os edis terem voltado de imediato às suas bancadas. A maioria votava a favor da permanência do Prefeito. Mesmo assim, diante do rumoroso caso, não se apostava em um níquel na possibilidade de se votar a favor do Prefeito.
Zequinha
--- O negócio está fervendo! – Sorriu torcendo as mãos a ouvir a TV.
Amanda
--- Ô meu vô! O senhor está achando graça com a desgraça alheia? –
Zequinha
--- Quem mandou ele fugir da cena. Agora que a situação está às mil maravilhas, ele quer ser o dono da situação? Vejamos. Vejamos. – Falou altivo
Amanda
--- Mas ele estava em busca de recursos.-
Zequinha
--- Que recursos? A Prefeitura estava fechada. O vice desapareceu. Os edis nem se ouvia falar. Educação, Saneamento, Saúde, Calçamento, Dinheiro, Aumento do pessoal. Nada. Nada. Agora ele que ser o salvador da lavoura? Pois vai ter que salvar muita lavoura! Vou mostrar! – Declarou com gana.
Com poucos dias, quando a estória do navio ainda era o maior destaque internacional, veio a bomba. A Câmara Municipal de Sagi cassou na noite passada em sessão extraordinária o mandato do Prefeito Francisco de Assis Paranhos em julgamento que durou cinco horas. O chefe do executivo foi condenado por infração político-administrativa em aumentar a taxa de lixo por decreto, acima da inflação. O julgamento foi concedido por uma petição no Tribunal de Justiça do Estado.
E o ancião vibrou de contentamento, pois ainda devia o Prefeito ser julgado por doutros crimes administrativos ainda não declarados.
Zequinha
--- Eu não conheço nem essa cara de anjo. Mas, eu fiz o máximo que pude. E vem mais bomba pelo meio do caminho. Agora tem a Saúde e a Educação além do saldo pago por inteiro aos Guardas Municipais. Não vi nenhum! Mas eles existem. – Falou bravo.
O rastilho de espalhou como pólvora com as questões da Saúde onde os servidores tomaram a ferro os seus verdadeiros direitos. O pessoal reivindicava o pagamento dos ordenados em atraso e a questão de aumento de 87% por cento sobre os salários ainda não pagos. O novo Prefeito assumiu o cargo prometendo rever toda a situação. A decisão de greve geral foi deflagrada também para a classe da Educação e, de vez, se fechou as portas da Prefeitura por não se poder com o clima de euforia dos educadores e pessoal da saúde. O pessoal de recolher o lixo da cidade continuava em greve, apesar do novo Prefeito garantir pagamento dos vencimentos atrasados a todo o pessoal, indistintamente.
Zequinha
--- Esse novo Prefeito é da mesma laia que o outro! – Resmungava
Amanda
--- Então, fecha-se tudo. É bem melhor. A cidade não tem hotel, hospedaria, abrigo. Não tem nada. Nem cemitério. –
Zequinha
--- Não tem, agora. Mas um dia terá. Ah se vai. –
Amanda
--- O melhor que se faz é desmanchar tudo e fazer um novo município. –
Zequinha
--- E quem vai governar? –
Amanda
--- O senhor! – Sorriu.
Zequinha
--- Você acha que é fácil? Melhor seria uma mulher. Alguém do porte de Dalva! – Alegou
Amanda
--- Do porte de quem? E ela se sujeita? Ela vai suportar a carga? –
Zequinha
--- Pode-se se saber. –