sexta-feira, 12 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 12 -

- TORRE EIFFEL -
- 12 -
PARIS 

Alguns dias a mais, visitando museus, cinemas e teatro, Marilu teve a atenção chamada para a viagem a Paris, capital da França. Essa cidade, ela nada conhecia a não de livros e revistas. Freiras nas ruas parisienses era coisa tão como como se tomar café. Destruída em sua grande parte, Paris se recompunha lentamente. Mesmo assim, Paris não perdia a sua elegância na moda e no tempo. Meninas lindas tiravam suas fotos pelos melhores fotógrafos. A Rua Rivoli era um ponto de encontro entre os belos namorados. Praça da Concórdia, cafés nas calçadas nas ruas, passeios sob a chuva, pescarias no Sena, e a Torre Eiffel.
Marilu
--- Paris é bela? - - quis saber.
Lauro
--- Paris? Paris, senhorita, é um encanto. Quando você chegar na Cidade, verá. - -
O avião viajava tranquilo onde apenas se via o oceano e nada mais. O casal senador Almeida dormia tranquilo a bordo do Boeing. A bordo também do Boeing viajava um grupo de atores brasileiros para se apresentar em um teatro de Paris. Enfim, quase todos dormiam. Marilu conversava baixinho com o rapaz Lauro e, nesse instante o homem retirou do bolso de seu paletó uma caixinha de veludo azul e passou para a moça.
Lauro
--- Pegue isso! - - e sorriu
Marilu
--- O que é isso? - - espantada
Lauro
--- Abra. - - declarou
Marilu abriu a bolsinha de veludo e logo sentiu o brilho de uma joia de ouro de prata com safira. A moça arquejou e falou.
Marilu
--- Isso é uma joia? Mas eu já tenho uma. - - esfuziante
Lauro
--- Use as duas. Ou sou essa. É uma joia de ouro. Veja. - - sorriu
Marilu
--- Mas você me deu? - -surpresa.
Lauro
--- Sim. É seu. Você está chegando a Paris. Ninguém nota as joias que você usa. Mesmo assim você deve usar. Para todos é apenas uma joia sem valou, de gente rica. - - explicou
Marilu
--- Uma beleza. - - e usou no dedo a joia.
Lauro
--- Em Paris, todos usam uma joia desse modo. É o gosto da realeza que já não existe mais nesses novos tempos. - - explicou
Marilu
--- Eu me lembro de um homem gordo. Ele se sentava na praça da Catedral. Os dedos dele eram cheios de anéis, cada um mais grosso que ou outro. - - gargalhou
Lauro
--- Eu me lembro dele. Não sei o seu nome. Ele ficava sentado todas as tardes no banco da praça. - - sorriu também
Marilu
--- Ele morava do bairro Alto do Juruá também chamado Petrópolis, lá perto da minha casa. Um pouco mais distante, é o certo. - - ficou a lembrar
Lauro
--- Você mora em Petrópolis mesmo? - - quis saber
Marilu
--- Sim! Minha mãe tem uma casa nesse bairro. Por lá não alaga quando chove. Mais para a frente, é um alagado que passa meses para secar. - -
Lauro
--- Imagino. Tem lagoas no Baldo, Tirol, Ribeira e até mesmo nas Rocas. É o fim do mundo. - - declarou
Marilu
--- Vocês moram na parte alta da cidade. Ali é um bom lugar. - -
O avião prosseguia. Quase todos, a bordo, dormiam. Apenas os dois, Marilu e Lauro cochichavam, as vezes caçoando dos demais.
Marilu
--- Eles, estão todos dormindo. - -
Lauro
--- Em lembro que você não pregou no sono entre Natal e o Rio. - -
Marilu
--- Talvez o medo de morrer. Talvez. Eu não tenho sono assim. - -
Lauro
--- Você nunca teve um namorado? - - indagou
Marilu
--- Ora lá vem o senhor! - - gargalhou
Lauro
--- Perguntei por perguntar. Para puxar conversa. - - sorriu
Marilu
--- Eu nunca tive um sequer. Nem flertando. Nunca mesmo. - - declarou
Lauro
--- Interessante mesmo. Eu tive namoradas. Nada sério, namorei na escola, em Paris. Nesses lugares eu tive flertes. - - sorriu
Marilu
--- Uma velha senhora, dessas cheias de balagandans, disse a mim que eu nunca teria um casamento. Eu sorri e recolhi a mão com temor. - -
Lauro
--- Essas mulheres são umas tolas. Dizem por dizer. - - lembrou
Marilu
--- Certa vez, um velho, bem velho mesmo, disse algo assustador. Ele falou para outro homem que passava dizendo que “aquele homem não vai chegar à esquina”. Disse isso e calou. De repente, um burro que vinha do outro lado, entrou no beco e atropelou o velho. Não teve jeito. O burro vinha desembestado e pisou no ancião. Esse morreu na hora. Eu estava passando no local e ouvi o velho quando declarou. Eu fiquei com medo.
Lauro
--- Ele viu o burro? - - indagou
Marilu
--- Viu nada! O velho estava na sua casa. Uma tapera. O homem apenas caminhava. O burro vinha do lado esquerdo com um monte de burros sendo chicoteado por um moleque. Ele não viu o burro. Só disse isso: “aquele homem não vai chegar à esquina”. Loucura. Ele sempre dizia coisas sobrenaturais. Certa vez ele prognosticou ter “uma mulher toda de branco que havia morrido há muitos anos, aparecido a um certo senhor perguntando se esse homem também ia para o Alecrim. O homem confirmou. Ambos foram conversando e quando chegou ao portão do Cemitério, a mulher se despediu e entrou”. Ele, o velho, contava essa história. - - declarou tremendo de medo
Lauro
--- Nossa! Ele ainda vive? - - assustado
Marilu
--- Não sei. Ele era bem velho! - - relatou    


quarta-feira, 10 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 11 -

- JARDIM BOTÂNICO 
- 11 -

PASSEIOS

No dia seguinte, após longa conversa com o Senador que foi pela madrugada a dentro, Lauro falou a sua mãe já de tarde, que ele estava pronto para fazer uma viagem pelo Rio de Janeiro e se ela quisesse, podia ir em companhia de Marilu uma vez que ela seria uma mulher a mais e podia mostrar os locais aprazíveis onde o Mundo gostava de ir para melhor conhecer, como o Bonde do Pão de Açúcar, a Urca, e mesmo Copacabana. Seria uma viagem de passeio. A mãe de Lauro atendeu o pedido e deu permissão a esse intentou, sem que Lauro era quem fazia a viagem. Eles passaram por vários cantos, a começar por Copacabana e suas belezas naturais. Aquela era uma praia, como as demais praias existentes do Brasil, inclusive Natal. Notadamente não havia nada de encantamento para Marilu. Copacabana em simplesmente uma praia.
Marilu
--- Blocos de Copacabana faz da praia alto mais bonito. Mas o lixo da cidade enfeia por demais o local. Não se pode nem pescar. - -
Lindalva
--- Certamente. Aqui não existe peixe. Os turistas nem imaginam isso. Pescaria só da Pedra da Morte, logo adiante.
Lauro
--- Pescaria só na Pedra da praia do Peró, em Cabo Frio. Ali se pega tainha com anzol.
Marilu
--- Em Natal, se fisga peixe na praia do Forte. E se pega peixe de arrastão. Para quem pesca, é uma maravilha. Os pescadores vivem daquilo por um gole de cachaça. Não estou mentindo. É a pura verdade. Outro local é a praia do Pinto. Em fiz matéria sobre esse arrastão. E as jangadas também. Foi antes de viajar para o Rio. –
Lauro
--- Eu li a matéria. Muito boa. Você é incrível. - - declarou
Marilu
--- Seu Manoel, foi ele quem desperto a mim a ideia. No mesmo dia caiu um avião na praia. - -
Lindalva
--- Um avião? - -
Marilu
--- Um teco-teco. Ele sumiu por completo. Ainda se busca os corpos dos dois pilotos. –
Lauro
--- Era Heitor e Gabriel, os dois pilotos. Eles faziam voo para a praia da Redinha onde tem um campo de pouso. - -  explicou.
Lindalva
--- Eu os conhecia? - -
Lauro
--- Heitor era filho de dona Dagmar. Conhecia? - - quis saber
Lindalva
--- Dagmar. Dagmar. Se for uma idosa casada com Plinio. Eu sei quem é. –
Lauro
--- É ela, sim. Dagmar Fontes casada com Plinio Fontes. Ele tem uma firma da Ribeira.
O passeio continuou. Lauro foi até o Jardim Botânico fundado em junho de 1808 fundado pelo príncipe português, Dom João, nesses dias, um dos mais importantes institutos de pesquisa mundiais. O Príncipe plantou nesse local a alameda das Palmeiras Imperiais, maravilha transcendental. São árvores imponentes e imensas com mais de 200 anos. O Chafariz das Musas, fabricado na Inglaterra e ponto central no encontro das aleias. As Vitorias Régia, a Fonte Wallace com água potável de vários pontos do parque, a Flor de Cera, trepadeira do tipo cipó, original da China, Bromélias nativas da América do Sul, Jacarandá Mimoso e muitas outras belezas até mesmo imaginarias. O Jardim Botânico é uma viagem ao palácio dos Deuses.
Marilu
--- Um verdadeiro encantamento. Passam-se dias visitando esse Jardim. - - com magia
Lauro
--- Esse Jardim é um dos principais pontos turísticos do Rio. Dom João VI quis fazer daquelas terras um local para tentar sementes e mudas orientais ao nosso clima. - -
À noite, todos em casa, conversavam bastante com a moça relembrando o passeio ao Jardim Botânico o que se encheu de ânsia. Algo maravilhoso, por assim dizer. Com isso ela sonharia depois. Lauro falou, então que ela devia assistiu um espetáculo teatral no Municipal.
Lauro
--- Tem um espetáculo com Tatiana Lescova interpretando Joanna d’Arc, produção francesa. É uma atriz excelente. Ela pertence ao Grupo da Comédie Française. É um espetáculo muito bom. Eu já vi na França. - -
Marilu
--- Não entendo nada de Teatro. Aliás, eu nunca fui a um Teatro. Só tenho negócio com tapiocas e pamonhas. - - gargalhou
Lauro
--- Mas você está em outro mundo agora. Seus costumes agora são outros. - - relatou
Senador
--- É verdade, menina. Aliás. Porque você nunca foi ao Teatro? - -
Marilu
--- Porque nunca tive incentivo para tal. Sabe o que fazedora de pamonha? Pois sou eu! - 
Senador
--- É verdade. Nós temos um dos melhores Teatros do Mundo, e não se carrega a gente miúdo. - -
Lindalva
--- E nem graúda. O Teatro vive lá as traças. Nem se fala nele. - - falou brava
Lauro
--- O negócio é dinheiro. Não se tem recurso. No muito o que se faz é ir ao Recife. É muito cara a despesa de um grupo. –
Marilu
--- Eu conheço um senhor que ele faz Teatro. Sempre, ele passa na banca da minha mãe distribuindo bilhetes para se ir ao espetado no Teatro. É de graça, diz ele. E depois sai de banca em banca-. -  explicou
Lindalva
--- Que é esse louco? - - indagou
Marilu
--- Não sei o seu nome. - -
Senador
--- Só maluco mesmo. - - gargalhou
Lauro
--- Mas tem um, deixa eu me lembrar. Ele faz espetáculo para adultos do Teatro. - -
Senador
--- Um velho, baixo e gordo? - - indagou o senador
Lauro
--- Parece que. Um gordinho. É esse. –
Marilu
--- Mas é de graça, a entrada? - -
Lauro
--- Eu acho que não. Esse é pago. - -
Lindalva
--- Ninguém não faz nada de graça. –
Marilu
--- Duvido! Esse da banca, diz que não se paga nada. –

terça-feira, 9 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 10 -

- RIO DE JANEIRO -
- 10 -
O RIO 

Menos de uma semana após ter feito o pedido a dona Noca de viajar com a sua filha Marilu, o senhor Lauro já viajava a bordo de um avião de transporte de passageiros em companhia da jovem senhorita. Para a moça, aquele voo era, na verdade, um sonho onde apenas os pássaros podiam alçar. A caminho do Rio de Janeiro, a moça delirava de contentamento. De cima podia ver a Terra. Algo maravilhoso. Em quando tempo, ela nem sabia contar. Subida e descida se torno costumeira durante o percurso. Talvez 8 horas ou 10. Para Marilu, tudo era conforto. Um sobe e desce que fazia a moça tremer de susto. Percorrer as capitais do Nordeste em um ensurdecedor ruído era por demais saltitante. Paraíba, Recife, Maceió, Aracaju, Salvador.
Lauro
--- Estamos pertinho de chegar. Uma parada em Vitória, Espirito Santo, e depois o Rio de Janeiro. - - relatou sorrindo
Marilu
--- O Rio. Deve ser maravilhoso. E vi todo ele por uma revista especializada da Agência Pernambucana, por esses dias. Lindo o Rio. - - sorriu.
Lauro
--- Verdade. Muito belo. A Urca é uma maravilha. Apenas só se vendo. Até mesmo o Bondinho do Pão de Açúcar. - -
Marilu
--- Se minha pudesse vir, ela teria uma outra visão. Ela nem sabe como é belo tudo isso
Lauro
--- Uma mulher do mato. Não sabe nem falar. Coitada. –
Marilu
--- Mas tem irmão que viajaram para o Rio. E nunca mais voltaram. Nem sei se ainda voltarão dessas bandas.
Lauro
--- Não dão nem notícias? - -
Marilu
--- Nada. Nada. Eu ouvi por informe que ele está trabalhando em uma fábrica não sei de que. Um. O outro não se tem notícia. –
Lauro
--- Se pudesse verificar em uma Rádio, talvez dessa mais sorte. –
Marilu
--- Talvez o senhor tenha razão. Quem sabe? - - se comportou melhor. - -
Um pouco mais de voo ela, Marilu, estava sobrevoando o Estado do Rio, a capital do Brasil. De repente, a Baia da Guanabara. Um ruino, as águas, um trepido e o pouso. Duas pistas, o aeroporto. O clássico. Gente muita, automóveis, mais aviões de carreira, o desembarque. Lauro procurou as suas malas e as de Marilu e observou se sua mãe, Lindalva, estava por perto. Em instantes, Lindalva surgiu em companhia de uma mulher parecendo a governanta. A senhora, um pouco gorda e baixa corria, como sempre, de braços abertos para abraçar o seu pupilo.
Lindalva
--- Meu filho, meu filho! Que saudades! - - dizendo isso a chorar
Lauro
--- Ora mãezinha! Estou aqui moído de cansado. - - respondeu o rapaz.
Levou um pequeno tempo e a mulher indagou.
Lindalva
--- É essa a menina? Linda. Linda. Como vai você, Marilu? Eu vi as suas matérias. O Senador está louco por conhece-la. Você é jornalista também? - -
Marilu
--- Sim. Agradeço a seu filho que me deu essa oportunidade. - -
Lindalva
--- Que agradeço que nada! Você já é jornalista. Tão moça! Vamos para casa. Chegue! E a balada prosseguiu durante o caminho a moça dizendo a sua aventura na cata dos assuntos no meio do lixo, coisa que não se divulgava, por certo porque não dava renda para os vereadores. E se dava, era escondido, por debaixo do pano e coisa assim.
Marilu
--- Quando eu disse ao gerente que era jornalista, ele calou. Teve medo. - - sorriu
Lindalva
--- Todos eles comem bola. Não tem um. Até o Prefeito. Fez bem! Só queria ver a cara do sujeito! - - embrutecida
Marilu
--- Está focada no jornal. Maiúscula. - - esclareceu
Lindalva
--- Como lá, aqui se faz! Montanhas de lixo. Meninos comendo a podridão. –
Marilu
--- Eu disse isso. - - relatou
Lauro
--- Essa menina é um caso raro. Eu digo isso a todos que aparecem. –
Marilu
--- Não. Eu vivi no lixo por assim dizer. O Mercado onde minha mãe trabalha é um caso sério. Ratos de esgotos. Cada um que não tem mais tamanho. –
Lindalva
--- Você trabalhava no mercado. - -
Marilu
--- Sim. Minha mãe e muitas outras pessoas. Eu tenho experiencia de vida. Nada que eu digo é mentira. Ratos, baratas. Cada uma. Só a senhora vendo. –
Lindalva
--- Eu acredito em você. Aliás, os navios são os maiores ambientes de ratazanas.
Lauro
--- Nas cidades grandes também. Eles se escondem pelos esgotos. Aqui mesmo, no Rio
Marilu
---Certa vez os homens resolveram limpar o Mercado e se descobriu que estava infestado de ratos gigantes. A presença do bicho é repugnante. - -
Lindalva
--- Imagine! –
Lauro
--- Chegamos. Agora, tomar banho e descansar. Amanhã é outro dia. - -
Lindalva
--- Primeiro tem café. O Senador já está em casa. Talvez já dormindo. Ou quase! –
Após descarregar as malas, eles adentraram no apartamento. Um garoto ajudou a levar todo o carregamento. O Senador estava acordado ouvindo música erudita. Quando o pessoal chegar, encheu-se do contentamento. As empregadas que estavam no Apartamento, ajudaram no retirar os carregamentos. Na mesma hora, o filou tomou a benção e apresentou a garota. O Senador, orgulhoso, cumprimentou, com esmero a moça ainda pequena, com menos de 18 anos.
Lauro
--- Viu a mocinha? Vai fazer 18 anos, agora. E vamos ajeitar seus documentos. –
Senador
--- Eu tenho quem faça. Pode deixar. - - argumentou
Lauro
--- Ela já tem as fotos. - -
Senador
--- Muito bm. Um trabalho a menos. - -

segunda-feira, 8 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 09 -

- RIO DE JANEIRO -
- 09 -
VIAGEM

Logo após o telefonema, Lauro declarou a Marilu ser desejo de que ela viajasse para o Rio, com ele, era evidente, pois o velho Senador estaria de viagem marcada para Paris, a capital da França. E desse modo queria ouvir a opinião da moça em viajar tão logo cedo, ainda sem idade de maior. Queria saber a opinião de sua mãe, dona Noca, pois pensaria nessa viagem ao exterior. A sua mãe nem sabia ler ao contento, porém tinha uma sagacidade tremenda para definir o que ela pensava. Mulher do interior, mesmo assim não pensava como uma “beradeira”. Tinha os seus quentes para dizer quando fosse preciso.
Marilu
--- Mas agora? - - perguntou assustada.
Lauro
--- É o pensamento do Senador. - - declarou
Marilu
--- Mas ainda eu estou estudando. - - refletiu
Lauro
--- O Senador sabe disso. - - destacou
Marilu
--- E o senhor? - -
Lauro
--- Você vai comigo. Paris é um outro centro de cultura. Veja se aceita! - -
Marilu
--- E a matéria? - -
Lauro
--- Sai amanhã. Vamos? Tem carro e comida. Vestido, isso nem se fala. Tem o que você quiser. - -
Marilu
--- Ai meu Deus! Eu me meto em cada uma! - - chorou
A mocinha chegou em casa à noite, mais tarde, e a sua mãe já estava preparando o material para o outro dia. Já estava em sua casa, uma ajudante, que Marilu conhecia há algum tempo do mercado da Cidade. Marilu deu boa noite e foi logo dizendo que o jornal precisava de sua experiencia e o Senador Almeida mandou chamar com certa urgência e ela não podia dar negativa. Marilu sentiu-se suspensa no ar e queria saber de sua mãe se ela aprovaria a ida da moça.
Noca
--- Mandou chamar por que? - - fez cruz com os braços presos a cintura.
Marilu
--- Ora mãe. Lá é uma casa de comercio! - - relatou
Noca
--- Comercio de que? Você tem nem mesmo 18 e já quer ganhar a vida? - - quase brava
Marilu
--- Ganhar a vida, isso nunca. A direção precisa de mim. Eu só quero a sua permissão –
Noca
--- Minha permissão para ser puta? Quem precisa de permissão para dar o rabo? - -  
A moça ficou colérica. E disse a mãe.
Marilu
--- Não faço dessas coisas. A senhora vai dar permissão ou não? - - com ênfase
Sueli
--- Noca, a menina é ainda de menor. Precisa você consentir que ela vá. - -
A mulher calou e se virou para consentir.
Noca
--- Diga a seu chefe que venha falar comigo. Amanhã. E se puder! - - falou um pouco brava
Marilu
--- Ele vem falar com a senhora. Pode acreditar. Amanhã logo cedo do dia. – - falou com humildade
Na manhã do dia seguinte, Marilu não foi ao Jornal. Ela ficou no Café esperando a visita do seu chefe, Lauro. As suas pernas tremiam só que vara verde. Alguém pedia café e ela levava pamonha. Estava em estado nervoso que nem Deus sabia. As horas passaram e chegou às 7 e meia. E Marilu olhava para fora vendo de Lauro surgia da frente e de traz do Mercado sendo que nada ocorria. Um baque se deu. Um pacote de jornais de dia. Ela, espantada quase foi ao chão. Um homem falou.
Jornaleiro
--- Jornais do dia.  - - disse isso e saiu correndo para outros cafés
Dona Noca observou aqueles jornais. Ela nada sabia ler. Apenas gaguejou. E viu a foto de porcos. A mocinha, de repente, agarrou o seu jornal. Ali estava a matéria dos porcos para se ler. Marilu ficou inquieta colhendo tudo o que estava em duas páginas e meia. Era a matéria que ela escrevera na tarde/noite daquele dia. Quase desmaiando de contentamento, a moça gritou.
Marilu
--- Aleluia! A matéria está esplendida! Veja! Veja! Foi eu que fiz! A Morte dos Porcos!
O povo que estava nos Cafés do Mercado, todos buscaram ver os corpos mortos dos suínos levados pelo rio saindo para o mar. De imediato, o Mercado parou. O jornaleiro saia gritando para quem não tivesse visto ainda que ali estava a história dos porcos executados na Curva do Trem. Dona Noca, parada, com a mãos nos quartos, apenas soletrava.
Noca
--- O que é isso, gente! Porcos? Ora quem já viu! Prá mim basta! – - relatou sem importância
Marilu
--- Minha mãe, essa matéria foi feita por mim! - - gritava de alegria
Noca
--- Tanto faz. Eu como porco quando posso! - - aborrecida
Nesse momento, Lauro, o Diretor do Jornal, chegou ao Café. Entre cumprimentos aos demais, deu um beijo da mão de dona Noca. E em seguida, perguntou.
Lauro
--- Como tem passado, minha senhora? Cumprimentos a todos! - - declarou sorrindo
Noca
--- É o senhor quem vai viajar? - - aborrecida
Lauro
--- Sim. O Senador quer conhecer a sua filha. - - sorriu
Noca
--- Bom. Basta! Essa megera? Não vejo graça nisso. - - e atravessou o Café
Lauro
--- Mas é importante. Tanto para Marilu como para o Senador. É por isso que peço a senhora em permitir que eu a leve nesse caso. - -
Noca
--- Eu? Por mim pode levar! Tome cuidado! Se não, se não! - - apontou-lhe o dedo
Marilu
--- Minha mãe, é só uma viagem. Confie em mim. - -
Noca
--- Vou confiar. Mas com olho aceso! - - falou passando o dedo no nariz
Lauro
--- Não tem importância. Afinal eu não sou de brincadeiras. Falo sério. - - fechou o riso
Noca
--- Fala sério mesmo? - - trancou o rosto.

domingo, 7 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 08 -

- PORCOS -
- 08 -
MATANÇA
Podia ser na Índia. Podia, mesmo assim não era. A matança de animais, como o gado, o porco, bode, carneiros, todos eles eram feitos em Natal, no Rio Grande do Norte. O local era mesmo a Matança e o local era na Cidade, próximo à curva que levava ao Alecrim. Ali havia além de se matar o gado, também a profissão da Salgadeira. Esse nome era como se entendia: salgar as tripas do boi, do bode, do porco dentre outros animais domésticos. Mais além, barreiro abaixo, tinha outra matança. Na Curva do Trem também se sangrava porcos, bodes e até mesmo vacas. Era o oficio do homem. Depois de sangrar, pelo menos o porco, fazia-se a limpeza, o tratamento do animal já morto. Se era cruel no passado, em tempos recentes também é tão abominável como em qualquer época. Se ninguém sabia, antes, era bom ditar em dias recentes.
Marilu
--- Eu vi um homem matando um porco no Forno do Lixo. - - relatou.
Lauro
--- Isso é terrível. Mata-se porco, bode, carneiro e mesmo peru em qualquer ponto do mundo. E a pessoa come e gosta. Acha bom aquele assado. - - desanimado
Marilu
--- E vende a cabeça do bode até mesmo no mercado da cidade. - - destacou
Canindé
--- Ela, crua tem um sabor horroroso! Parece o Cão! - - falou com certeza.
Lauro
--- Bode! Parece até o Baphmet. O Bode maçom! - -
Marilu
--- Quem é esse? - -
Lauro
--- É um bode. Criatura com cabeça de bode e corpo humano. Um Mistério da Franco-Maçonaria. Os adoradores de Baphmet. Os maçons adoram o seu Baphmet. Eles usam no peito. Alguns. - - dialogou
Canindé
--- O Bode da Maçonaria! Eu já vi! - - disse o homem
Marilu
--- Então? - - perguntou
Lauro
--- Então o que? - - indagou o chefe
Marilu
--- Faço ou não faço? - - e entronchou os olhos.
Lauro
--- Tenho horror a porco! Não quero nem sentir o cheiro dele com vida, quanto mais, morto. - - antipático e baixou a cabeça no birô.
Marilu
--- É um animal até doméstico. Come no terreiro. Mija, defeca. É normal. E se mata o bicho para se comer. - - sorriu
Canindé
--- Coitadinho do porquinho. Ninguém o ama. Mas todos saboreiam. - - gargalhou
Lauro
--- Espere o resultado da primeira matéria e logo após, siga em frente. Quero ver a reação do Vereadores. Vai haver um enxame por aqui, assim penso. Espere e faça em seguida.
Marilu
--- Enquanto isso vou seguindo a carruagem. Certo? - - indagou
Lauro
--- Eu penso que vai dá bode. Um bode daqueles! Vamos à frente. - - pontualizou.   
No dia seguinte, Marilu visitou o encharcado da Curva do Trem onde se matava bodes, porcos e até mesmo gado. Devagar, a moça ficou a olhar a morte dos suínos com cada tacape no gargalo. Nessa ação estavam incumbidos os garotos de 15 anos e mais ainda atingindo até 50 anos. Cada foiçada, era um morto. Eles nem se importavam com o guinchado dos animais se debatendo, pendurados pelas pernas. Do outro lado, eram os bodes, carneiros e mais adiante, a boiada. Matava-se como se mata barata ou mesmo sapo. O Trem passava e isso nem ligava aos matadores dos porcos e dos bodes. O boi ficava para mais adiante. Cada foiçada era um estrebuchar da dor da morte. Daí em diante se ia para fazer o descarne e as tripas dos animais. A mortandade era cruel. Para os carrascos, não havia dó nem piedade naquela santa inquisição. Sacrificava-se dezenas de suínos, bodes, carneiros além do gado, diariamente. Era algo tão normal que apesar do sacrifício, os garotos de 15 anos se molhavam todos de sangue e nem por isso sentiam as dores dos porcos já espichados ao solo. E foi assim que Marilu começou a sua matéria: “Santa Inquisição”.
Com esse tema Marilu descreveu toda a angustia sofrida pelos suínos na hora da sua morte hedionda. Dezenas de pessoas se reuniam para assistir a luta brutal entre os carrascos e os porcos. Cada qual corria para cima quando o suíno já estava morto. As mulheres e mocinhas catavam os fatos em bacias para, logo após, fazer o uso da fornalha e descascar os vermes apodrecidos. Eram “as rinhas dos porcos”. E não era daquele instante que os porqueiros viviam imerso em uma sucessão de mortes. A imagem dos animais em decomposição do rio Potengi era do mesmo modo fantástico. A imagem dos animais aparecia quando o rio começava a entrar no oceano. Gente pobre da maré consumia as entranhas dos porcos pelo direito de sobreviver. Dezenas de pessoas corriam como cães a apanhar os resíduos dos porcos.
E foi assim, que Marilu fez a sua matéria sobre a matança dos suínos lembrando de ter mais assunto no demais municípios do interior. Dessa forma, voltou à noite a redação. Uma zoada ensurdecedora se ouvia correr pela rua. Equipes de homens, vereadores, protestavam por conta da matéria da criança comendo lixo. Ouvia-se absurdos dos expoentes da Prefeitura e o aviso de que aquilo não ficava assim. O caso seria levado ao Prefeito de Natal. A moça pediu licença e adentrou no prédio temendo algo que pudesse ocorrer.
Canindé
--- É bronca! Tenha cuidado. Veio o telefonema do velho Senador Almeida. Ele mandou prosseguir com esse assunto. - - teceu o homem
Marilu
--- Quero saber o que o senhor Lauro tem a dizer com a nova matéria. - - relatou
Canindé
--- Eu já tenho as fotos. - -
Marilu
--- Ótimo. Vamos à frente. - - e ela subiu a escada.
Quando adentrou à sala da Direção, não encontrou o senhor Lauro. Ela esperou um pouco mais até ver o homem se aproximar. Ele veio cheio de ira, falando bravo contra tudo e todos. De repente, ele notou a presença de Marilu. Logo foi indagando de forma embrutecida.
Lauro
--- Onde está a matéria? - - falado assobrado
Marilu
--- Está comigo. Esse é mais pesada. Veja. - -
A matéria pegou duas páginas e meia. O homem leu todo o texto e após perguntou.
Lauro
--- Tem fotos? - -
Marilu
--- Sim. Com Canindé. Foi ele quem informou. - -
Lauro ligou primeiro para o seu pai e confirmou ao velho ter fotos e matéria sobre novo assunto. Leu em seguida em todos os detalhes o conteúdo. Então, Lauro ficou a espera. Demorou um bocado para o velho falar.
Senador
--- Mande essa menina para cá. Vamos viajar a Paris! - - confirmou
Lauro
--- Agora? - -
Senador
--- Mais que de imediato. - -


sábado, 6 de maio de 2017

SONHOS DE MARILU - 07 -

- A FOME -
- 07 -
CRIANÇA 
Quando Lauro chegou a redação, no início da tarde daquele dia, já não tinha mais nenhum repórter da manhã. 0 Diretor do jornal O Estado foi verificar a produção da manhã tecendo as anotações feitas. Uma e outra e, finalmente chegou ao texto do morto no Forno do Lixo. Com bastante atenção, Lauro verificou a matéria e logo declarou.
Lauro
--- Garota de sorte. Sua primeira intervenção. Muito bom. Vai para primeira página. Vejamos o restante. - - e de imediato verificou o texto.
Lauro leu e releu para ter certeza do que havia textualizado e de repente, gritou:
Lauro
--- Caramba! Não pode ser? Outra? Como é que pode? Criança catando Lixo? Eu estou sonhando. Oh Marilu! - - gritou o chefe.
O repórter da tarde que estava catando máquina, se levantou e foi ver o que o seu chefe queria.
Repórter
--- O senhor me chamou? - - indagou perplexo
Lauro
--- Não. Pode sair. Puta Merda. Ela fez duas matérias. Cada uma melhor que a outra. Vou colocar o seu nome em estampa. Logo duas?
Canindé vinha chegando do laboratório fotográfico e pegou o seu chefe ainda eufórico. E informou que tinha as fotos do defunto e da criança comendo lixo.
Canindé
--- Estão aqui as fotos. Se quiser mais. Eu tenho. - - relatou.
Lauro
--- Veja essa matéria? A da criança. Como pode fazer essa matéria? - - exaltado
Canindé
--- Está ruim? – - indagou espantado
Lauro
--- Que nada! Isso é uma obra de arte. Vai percorrer o mundo. Quero ver a cara dos vereadores! Só quero ver! - - disse com bravura.
Canindé sorriu e declarou ainda que a repórter era brava.
Canindé
--- Imagine só. Esse é o começo de Marilu. - - e saiu colhendo suas fotos em sobra.
À noite, quando passava das seis, Marilu chegou a redação do jornal e toda gente estava a esperar para cumprimenta-la. A moça tomou um susto por não entender do que estava ocorrendo. Homens, principalmente da redação sorriam e batiam palmas para a moça. O jornal não tinha saído ainda. Apenas na manhã seguinte. Mas os curiosos tomaram ciência em ver primeiro da matéria. Lauro estava em seu gabinete se só tomou conhecimento da presença de Marilu quando essa chegou ao topo da escada seguida por diversos colegas onde quase nenhum repórter a conhecia. Mesmo assim, todos batiam palmas pela matéria da Criança do Lixo.
Repórter
--- Como você descobre a criança? - -
Marilu
--- Ora. Buscando notícias. - - relatou
Reporter-1
--- Eu nunca fui naquele forno. - - querendo vomitar.
Marilu
--- Pois vá até lá. Crianças muitas. Lá tem sacos de todo tipo de lixo. Mulheres quase mortas, esfarrapadas, cantado lixo vindo das ruas nobres. Lixo chama lixo. Montanhas de detritos. Nuvens de insetos. Ratos. Cada um que nem você pode pensar. Urubus aos montes. Além disso tem ralos de água, borracharias, hortas, calhas, piscinas não tratadas, cacos de vidros e até vasos de cemitério. - - reclamou
Repórter- 2
--- É um descaso. E ninguém faz nada! - - triste.
Marilu
--- Suínos criados soltos. Um homem matava um bode! Que horror! Uma tragédia! - -
Nesse instante, o Diretor do Jornal, Lauro Almeida, saiu apressado do seu gabinete de trabalho e foi encontrar a senhorita Marilu. Tão depressa ele chegou ao local onde a moça caminhava que ele sem mais e nem menos se apressou em pegar com suavidade Marilu e a acompanhou para o seu gabinete de trabalho. O seu coração badalava mais que um bombo.  Puxou a cadeira para a moça e logo ficou sentado em sua escrivaninha esperando o coração aquietar-se. Com esse tempo, a olhar para o teto do jornal, discorreu com pressa.
Lauro
--- Moça! Que maravilha eu poder ter visto a matéria do menino! Que negócio supremo! Eu quero saber que nome eu uso para pôr como sendo você mesmo? - - disse ele extasiado.
Marilu
--- Que susto o senhor me fez! Chega eu estou tremendo de medo! Puxa! Nome? Mas, o senhor pode usar um meu. Marilu. Ou outro completando o primeiro. Mas eu digo sempre que é Marilu. - - disse a moça
Lauro
--- Está bem. Eu, agora quero assinar você como “correspondente”. Você já é de maior? Marilu
--- Não. Faltam poucos meses. Dois para completar 18 anos. - - respondeu de fato ainda tremendo de susto.
Lauro
--- Maravilha! Quem foi o fotógrafo? - - quis saber
Marilu
--- Fotógrafo? Canindé. Fomos eu e ele. E o motorista também. Mas a matéria fomos nós que fizemos. Eu e Canindé.
Lauro
--- Está bem. Vou chama-lo. - - e depressa, ele procurou Canindé na sala do laboratório onde ele e mais dois fotógrafos estavam a trabalhar na revelação de filmes. E ele chamou Canindé e esse disse esperar um minuto. Lauro voltou ao seu escritório e chegando, se sentou a sorrir com as mãos cruzadas no busto. E de imediato, ele se recostou na cadeira. Canindé não demorou a chegar.
Canindé
--- Pronto, chefe. Que mandas? - -
Lauro
--- Apresento-lhe a artista. Que furo de reportagem. Duas se possível. Mas a maravilha é a do menino. - - sorriu.
Canindé
--- Tem outra. - - e olhou para a moça
Lauro
--- Outra? Qual? A do garoto? - - espantado
Canindé
--- Ela é quem sabe. Diga a ele, Marilu. - -
Marilu
--- Não sei se vale a pena. Mesmo assim, eu vi no Matadouro um homem decepando um bode. Não era muita coisa. Porém tinham porcos. Vários. Todos mortos e alguns para serem mortos. Cabritos. Tem também a chamada “Salgadeira” onde mulheres tiram as tripas do boi e em compensação levam para casa os corações dos animais como pagamento. - - disse a moça
Lauro
--- Crueldade! Como pode se fazer uma coisa dessas. Mas, sem mesmo autorização da Prefeitura? - -
Marilu
---O Prefeito faz vistas grosas. 


SONHOS DE MARILU - 06 -

- CADÁVER -
- 06 -
CADÁVER 

Após tomar informações de todo o conteúdo onde morreu o ancião Tarugo, a jovem Marilu voltou à redação do jornal O Estado temendo ter espado de algo que não anotara, por descuido. E assim ela conversava com Canindé o que mais havia no Forno do Lixo para se falar além da morte do ancião. E por isso, Canindé foi ditando a questão de lixo humano encontrado nos hospitais, nos mercados, nas residências e em vários pontos da cidade. Lixos que têm vários aspectos. Os resíduos domésticos, sólidos urbanos, industrial, hospitalar dentre os mais.
Canindé
--- As crianças são as mais vulneráveis. Você viu uma criança comendo um bolo de chocolate apodrecido? - - perguntou
Marilu
--- Confesso que não observei. - - assustada
Canindé
--- Tinham mulheres mal arrumadas catando o lixo. Nós vivemos em uma sociedade que consome muitos recursos. É a sociedade de consumo que consome muitos produtos, como carros, enlatado, bebidas e livros. Mas nem sempre foi assim. Durante a II Guerra Mundial, os materiais e recursos eram escassos. Em nosso país há pessoas que sobrevivem com a reutilização do lixo. Até mesmo para se alimentar de coisas podres. Você viu as verduras apodrecidas? - - indagou
Marilu
--- Isso eu vi, mas nem prestei atenção. Só olhava para o defunto. - - preocupada
Canindé
--- Nem viu os urubus? Ratos, porcos, cães. A cidade cresceu demais. E as pessoas de bem querem ter uma boa alimentação e artigos de luxo. A população rural deixou o campo em busca da vida na cidade. Pense nisso. - -
Marilu
--- Isso é o que se chama de penúria para os pobres, miseráveis, degredados. Eu estou a entender agora. - -
Canindé
-- É isso e muito mais. Eu, por ser negro, não posso morar em uma casa de luxo. Tenho que residir em uma tapera. Os ricos, esses podem. Tem dinheiro. Esbanjam. Comem bem e de tudo. Os pobres, miseráveis, vivem do lixo, das sobras. –
Marilu
--- Como você é cruel! - - falou ressentida
Canindé
--- Essa é a verdade. Observe o que você joga fora todos os dias. Latas de bebidas, saquinhos de restos de comida, papeis, garrafas. Coisa assim você encontra na lata do lixo. Tudo o que não se consome é refugo. - - explicou
Marilu
--- Na sua opinião o que se deveria fazer? - -indagou
Canindé
--- O que é refugo joga-se fora. Mas, não deixar para a gente pobre em condições comer. O pobre deve ter melhores condições de viver e de sorver os alimentos. Não, tirar do meio do lixo entre ratos e urubus. - - com ênfase
Marilu
--- Nisso, você tem razão. Mas, como então se deve fazer para o pobre evitar o lixo? –
Canindé
--- Do jeito que a coisa vai, a solução é matar o lixão, mesmo. Mas, para se evitar o negócio é tirar o pobre do lixo e comanda-lo para um setor adequado e evitar ter o pobre apenas o lixo para devorar com ânsia. Não se mata a fome comendo lixo. - -
Marilu
--- Isso é difícil. Muito difícil. A pobreza é uma condição de vida. Eu vejo, no mercado, o pobre comendo lixo do lado de fora, na calçada, onde se deixa monturos de frutas, carne de gado, galinha, até mesmo de suínos. - - imaginou de repente
Canindé
--- Isso, reflete a desigualdade social entre a população. Ricos, mais ou menos e apenas miseráveis. Gente carente do interior que vem para a cidade. - - relatou
Marilu
--- Também tem a seca que assola o interior. Bichos mortos. Os fazendeiros não dão comida a ninguém. - - disse ainda
Canindé
--- Tem crianças, pequeninas, pedindo esmola de qualquer coisa para matar a fome. Meninos, mesmo além de pobres mendigos. Gente humilde. Velhos e crianças. Gente procurando sobreviver do lixo. - - falou com certo desprezo à riqueza.
Marilu
--- E essa matéria, por onde eu começo? - - indagou
Canindé
--- Eu acho melhor começar pelo defunto. Faça uma inteligente matéria. Depois, faça a outra, do Forno do Lixo. Duas. Separadas. Bem distintas. - - respondeu
Marilu
--- É mesmo. É o que vou fazer. Faço uma e, depois, faço a outra. - - falou a moça.
Com isso a moça se aquietou. Pensava muito de como iniciar a matéria do morto vindo na manhã bem cedo entocado na carroçaria do caminhão coletor. Teve que ver outras matérias iguais ou semelhante de formas ser possível iniciar o seu assunto. E de vez Marilu começou desse modo: Cadáver do Forno do Lixo. Estava iniciado o assunto. E então Marilu relatou em todos os pormenores o achado macabro do meio do lixão que o caminhão coletor despejou entre montes de outras matérias, como carnes podres, peixes estragados, apuros e porção de frutas podres. Seu nome foi identificado por José Meira conhecido simplesmente Tarugo. Ele era um mendigo dos seus sessenta anos e vivia a catar lixo pelas ruas da cidade. O mendigo vivia nos lixos catando o que podia para saciar a fome ingrata pela qual passava. Já nem sabia dizer o seu nome ao certo e pensava que a sua sobrevivência dependia do que podia colher. Entre restos de comidas era tudo que ele consumia do lixo comum. Tarugo já nem posava mais em papelão, pois o lixo comestível era bem melhor. A sua mulher era outra a catar os lixões. A mulher, seus filhos, genros. Todos afinal. A moça progrediu até o final da página. Mostrou a matéria ao fotografo e esse deu algumas pistas para por demais encorajar o assunto. Ela concordou e voltou a teclar. No fim, deu por certo.
Marilu
--- Pronto. Acabei. Vamos ver o que o chefe tem a dizer. - -
Canindé
--- Ele, nada vai falar.
Marilu
--- E agora? - - quis saber
Canindé
--- Faça a outra. A do menino catando lixo. - -
Marilu
--- Criança catando lixo. É melhor. Vamos à frente. Essa é forte. O lixo está matando nossas crianças. Esse é o início. - - declarou contente
Canindé
--- Muito bem. É assim que se faz. Para frente. - - sorriu
Marilu
--- Nem ache graça. Eu vou ver como faço. - -
Canindé
--- Conte a história do menino. Invente. Crie. Faça qualquer coisa. Eu tenho as fotos. –
Marilu
--- Ótimo. Vou fazer. - -
Canindé
--- Quer saber? Um nome. Neném! Era como se chamava o pequeno. Eu ouvi a mãe dele falar. -